Amigos da Alcova

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A história de Loirinha 6

Marco Adolfs

Quando chegou na sua casa, à noite – depois de se limpar e pegar uma roupa emprestada na casa de uma amiga –, encontrou seu padrasto na porta da casa e com um cinturão enrolado no braço.
– Onde você estava até essa hora? – perguntou.
Loirinha apenas respondeu que tinha ido a um baile funk com um amigo. Mas naquela noite ela ainda apanhou muito do seu padrasto, sendo chamada de vagabunda e muito mais. E como lhes disse algumas linhas atrás, a história da vida de Loirinha sempre me impressionou bastante. Ainda mais, depois que fiquei sabendo dessa curra que ela sofreu quando tinha de doze para treze anos de idade. Todavia, Loirinha, após esse incidente, em vez de ficar fraca, se fortaleceu um pouco mais para a vida que iria levar. Aprendeu principalmente duas coisas fundamentais para a sua vida: a nunca confiar nos homens e a aguentar as suas picas duras onde quer que eles lhe metessem.

Depois disso e de mais algumas coisas, Loirinha cresceu um pouco mais; saiu para as ruas e ganhou muito dinheiro. Ganhou tanto dinheiro “mexendo a bundinha” que conseguiu até alugar um bom apartamento no centro da cidade. Foi quando a conheci. Deveria ter uns vinte e poucos anos e era uma bela prostituta. Cabelos loiros e longos; um corpo bronzeado e pernas longas e sedutoras. Não havia nenhuma marca aparente em seu corpo. Só em sua alma. Mas ela sabia disfarçar bem. Nessa época ela praticamente escolhia os homens que iria levar para a cama. De preferência homens perfumados e com dinheiro. Loirinha havia se tornado uma prostituta de luxo. Requintada até onde podia ser. E que gostava de ter, no máximo, três homens por dia. Nos fins de semana, apenas um. E bem rico. Que a levasse a restaurantes, cinemas e passeios diversos. Como um casal; embora scort-girl. Mas, mesmo vivendo assim, ela muitas vezes correu perigo com homens mal intencionados e carregando taras pré-concebidas. Sua crucificação encarnada. Ela me disse que em um determinado dia pensou até que fosse morrer nas mãos de um idiota endinheirado. O homem era mais um político. Deputado federal. Desses que só andam engravatados e com um sorriso amarelo no rosto. Tinha muito dinheiro. Dono de uma fazenda em Goiânia. Esse homem a contratara dentro de um esquema de prostituição para políticos que rolava nas barbas do Congresso. Um esquema refinado e bastante sigiloso de prostituição de luxo. Loirinha me contou tudo sobre isso. Como esses políticos – quase todos casados e figuras conhecidas da política nacional – satisfaziam seus desejos libidinosos e suas taras concebidas.

(Continua na próxima semana...)

sábado, 3 de setembro de 2011

A uma dama muito gorda

Diogo Fogaça (século XV)

                                                                                De Diogo Fogaça a uma dama muito gorda,
que se encostou a ele, e caíram ambos,
e ele disse sobre isso umas palavras

              Rifão

Que gentil feição de damas,
não sei como vo-lo diga,
que tudo é cu e mamas
e barriga.

As mamas dão pelo ventre,
o ventre pelos joelhos,
e do cu até aos artelhos
gordura sobresselente.
Arrenego de tais damas,
é forçado que o diga,
porque tudo é cu e mamas
e barriga.

Corrigiram-na mui bem,
pero foi com muita pena,
porque lhe fizeram querena
no rio de Sacavém.
Revolta de ambas as camas,
isto com muita fadiga,
porque tudo é cu e mamas
e barriga.

Corrigiram-lhe o costado,
mas a quilha ficou podre.
Remendaram-lhe com um odre
do avesso tosquiado.
E com três peles de gamas,
muita estopa de estriga,
porque tudo é cu e mamas
e barriga.

Não prestou calafetar,
porque faz água profundo,
já não há crespim no mundo
que lha pudesse vedar.
Ao diabo dou tais damas,
é forçado que o diga,
porque tudo é cu e mamas
e barriga.

               Cabo

Mas quebraram-lhe as estoras,
encostou-se sobre mim,
teve debaixo crespim
bem acerca de três horas.
Já renegava das damas,
saio com muita fadiga
debaixo de cu e mamas
e barriga.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A história de Loirinha 5


Marco Adolfs


Após Loirinha ter se iniciado na prostituição com o moleque da bicicleta, ela não poderia esperar só um pênis apressado e melado entre as pernas. Molecotes desesperados das favelas também podem ser capazes de tudo para exercer a sua libido. E um fato que ela também nunca mais esqueceu – ressaltou –, estava para acontecer dentro de alguns meses a mais. Andando para cima e para baixo com o moleque – como se fossem um casal de namorados –, ela não poderia esperar que um dia o dito cujo, cansado dela, fosse armar um plano de entregá-la a seus amigos.

Tudo aconteceu em um campinho de futebol, atrás da igreja. Ele chegou com ela para o que seria mais uma simples partida de futebol dos moleques. Mas, assim que chegaram no campinho, o molecote gritou para todo mundo ouvir que naquele dia a bola que eles jogariam seria outra. Loirinha a princípio nem desconfiou da armadilha. Mas quando o moleque rasgou o seu vestido, ela então compreendeu tudo. Cercada por mais de quinze adolescentes suados e fedorentos, Loirinha imediatamente percebeu que estava em uma terrível enrascada. A curra demorou o tempo certo para que todos os meninos a fodessem atrás de um monte de lixo que ficava ao lado do campinho de futebol.

O primeiro a comê-la foi um adolescente negro, alto e forte. O goleiro de um dos times. O menino não teve dó. Jogou-a ao chão e começou a meter o pau, duro e grosso, no seu cu. O único alívio imediato que Loirinha teve foi um pouco de cuspe que ele passou no membro, antes de penetrá-la. A visão imediata que ela tinha, era a de um monte de meninos ao seu redor e a se masturbarem na espera da vez. No início, Loirinha procurou aguentar, mas logo sentiu uma dor lancinante parecendo-lhe queimar os intestinos. O garoto metia com tanta violência que ela gritava tentando se desvencilhar. Mas ele pressionava as mãos em suas costas, impedindo-a de qualquer fuga. Quando o goleiro do time gozou e saiu, logo veio um zagueiro magro e curvilíneo, que tinha um pau enorme. Loirinha não teve tempo de esboçar qualquer gesto. O zagueiro virou-a para frente e meteu-lhe o pau com toda a força em sua boceta. Loirinha sentiu que iria ser rasgada em suas entranhas. Nesse momento quase desmaiou.

Depois do zagueiro vieram os outros meninos. Uma sucessão de penetrações apressadas e mordidas e chupadas que a fizeram aguentar firme e com os olhos fechados sem poder sequer se mexer. A dor parecia não mais existir, apenas sentia que de seu corpo saía líquidos e mais líquidos gosmentos. Esperma misturado com sangue.

Loirinha foi deixada, jogada, no monturo de lixo do campinho de futebol, como uma bola furada.

(Continua na próxima semana...)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Soneto de amor

José Régio (1901-1969)



Não me peças palavras, nem baladas,
nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
deixa cair as pálpebras pesadas,
e entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua... – unidos,
nós trocaremos beijos e gemidos,
sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... – Abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A história de Loirinha 4

Marco Adolfs


Quando na manhã seguinte o molecote cruzou a esquina, topou, logo de cara, com aquela menina loira, curvada e com a saia levantada mostrando o pequeno sexo pronto para ser penetrado. O moleque estancou a bicicleta bem perto dela e vendo que não havia mais ninguém por perto, não teve dúvidas. A primeira coisa que fez foi tirar o pênis para fora do calção e começou a se masturbar. A vontade foi crescendo tanto que ele logo desceu da bicicleta e, com o pênis intumescido ao máximo, enterrou como força na bocetinha da filha do seu Inácio. O vizinho. Logo Loirinha começou a mexer os quadris pros lados. E rebolava e tirava e metia e rebolava tanto que o coitado do moleque começou a gemer até gozar. Loirinha sentiu aquilo tudo acontecendo com um imenso prazer. Pela primeira vez ela percebeu que também tinha um poder nas mãos. Ou melhor, entre as pernas.

Feito o negócio, o garoto limpou o membro e saiu pedalando. Mas antes, disse “te vejo mais tarde”. Loirinha saiu toda alegre e sabedora de que dali para frente tudo seria diferente. Teria o menino mais cobiçado da vizinhança em suas mãos. Mas mal sabia ela o que ainda iria lhe acontecer a partir daquele dia. Se ela confiava tanto em seu poder de sedução e manipulação dos machos, como acabara de perceber, muito ainda haveria de passar através da manipulação deles e de sua boceta. Nem tudo seria apenas prazer em seu caminho. Haveria também muita dor. E para isso, Loirinha teria que ser forte.

Mas, depois que conheci Loirinha, passei a andar com ela como minha prostituta única. Ela era demais. E eu gostava demais dela. Se não fosse uma puta, talvez tivesse até me apaixonado por ela naquele tempo em que a conheci. No motel, depois do sexo, conversávamos bastante. Talvez por ela me achar um cara diferente – “estudado” e carinhoso –, como dizia, ela então falava tanto. Ou talvez pela minha curiosidade em demasia. Hoje fico pensando, com essas perguntas de cunho jornalístico, sou um profissional em busca de escrever a história de sua vida. Que coisa estranha, o destino? Lembro de muitas coisas que conversamos. Mas outras – durante o tempo em que sumimos um do outro –, eu ainda ficaria sabendo. E ficaria estarrecido pelos detalhes.

– Como você vê esse meu começo de vida? – ela perguntou, enquanto eu fazia algumas anotações.

Levantei a cabeça; olhei bem direto no fundo de seus olhos e, por um momento, fiquei sem uma resposta.

– Acho que foi terrível o que você passou, sendo ainda uma criança – finalmente respondi.

– Muitas crianças deixam de ser crianças assim – completou, amarga.

– Mas foi terrível – comentei ainda.

– Foi um começo – observou Loirinha, enigmática.

(Continua na próxima semana...)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Soneto do olho do cu

Paul Verlaine (1844-1896) e Arthur Rimbaud (1854-1891)*


Obscuro e franzido como um cravo roxo,
Humilde ele respira escondido na espuma,
Úmido ainda do amor que pelas curvas suaves
Dos glúteos brancos desce à orla de sua auréola.

Uns filamentos, como lágrimas de leite,
Choraram, ao vento inclemente que os expulsa,
Passando por calhaus de uma argila vermelha,
Para escorrer, por fim, ao longo das encostas.

Muita vez minha boca uniu-se a essa ventosa;
Sem poder ter o coito material, minha alma
Fez dele um lacrimário, um ninho de soluços.

Ele é a tonta azeitona, a flauta carinhosa,
Tudo por onde desce a divina pralina,
Canaã feminino que eclode na umidade.

 

(Trad. Heloisa Jahn)

 

(*) Os quartetos são atribuídos a Verlaine e os tercetos a Rimbaud.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A história de Loirinha 3

Marco Adolfs


– Ela sabe fazer a coisa! – diziam todos os que a haviam levado pra cama. – É boa de mexida e trepa com muita personalidade! – completavam.

Fiquei curioso e desejei conhecê-la. Um amigo a apresentou. Assim que a vi fiquei impressionado com a sua beleza. Alta, loira e desembaraçada. De um olhar felinamente cruel. Fomos a um motel e não me arrependi de nada. Ainda mais pelo fato de que acabamos ficando amigos.

– Como tudo começou? – perguntei, iniciando a gravação.

– Tudo começou com um estupro – ela respondeu, puxando uma baforada de outro cigarro aceso.

A iniciação de Loirinha se deu com o padrasto. Um estupro bem urdido por aquele que se passava por pai.

– Tudo aconteceu – ela me contou –, quando tinha doze anos de idade. Ela até hoje carrega na cabeça as palavras que ele lhe dizia enquanto lhe penetrava... “Mexe a bundinha... Mexe, filhinha...” Palavras que, se nesse início comportavam uma carga de violência; com o tempo tornaram-se preciosas. Loirinha passara a mexer a bundinha como ninguém. Uma coisa que, depois de certo tempo, lhe forneceu a fama entre os homens e muito dinheiro no bolso.

Mas, após ter sido violentada pelo padrasto, Loirinha sentiu muita vergonha e nojo por ter feito aquilo. Passou alguns meses choramingando pelos cantos, enquanto continuava a passar pelas mãos de seu padrasto. Mas ela chorou até o momento exato de perceber e compreender o que acontecia. De perceber que poderia transformar aquilo em uma forma de adquirir vantagens com os homens. Decidiu então que deveria dar aqueles buracos de seu corpo, que seu padrasto tanto gostava, para um menino da vizinhança. Um menino que parecia ter dinheiro e que poderia então pagar por aquilo. Ou então ganhar alguma coisa em troca: um picolé; um short; ou mesmo uma ida ao cinema. Bastava levantar a saia; esperar que aquele troço duro entrasse no seu buraco; e mexer a bundinha. Para frente; para trás e para os lados. E pronto: estava feito o negócio. Quanto àquele líquido gosmento que escorria pelas suas pernas, era só limpar ou sentar em uma privada e esperar que escorresse tudo. Fora assim que aprendera. Seria isso que faria daqui pra frente.

O moleque que ela escolheu foi um negrinho sarará e metido a besta. Filho do dono de um boteco da favela e possuidor de uma bonita bicicleta com um banco na parte de trás. Morava na mesma rua que ela e vivia com muitas garotas na sua garupa. Loirinha sentiu até um prazer todo especial em conquistar aquele menino. Armou então um esquema. Como todas as manhãs o moleque saía cedinho, pedalando a sua bicicleta, para comprar pão, Loirinha pensou que a hora seria a melhor para fisgá-lo em uma esquina. Em troca do que lhe daria, queria exigir dele que largasse as outras meninas e ficasse só com ela.

(Continua na próxima semana...)

sábado, 13 de agosto de 2011

Elegia: indo para o leito

John Donne (1572-1631)


Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.

Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.

Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;

Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

(Trad. Augusto de Campos)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A história de Loirinha 2

Marco Adolfs


Loirinha de repente ficou séria; puxou um cigarro da carteira e o acendeu. Por um momento o seu rosto ficou encoberto por uma fumaça que subia lenta proporcionando-lhe um ar severo.

– Posso começar? – perguntei um pouco apreensivo e agitado.

– Hum, hum – concordou Loirinha. – Quer tomar alguma coisa? – perguntou-me.

– Uma cuba-libre – pedi.

Dito isso, ela levantou-se; foi até o frigobar; tirou uma lata de Coca-cola; uma garrafa de rum e pegou um copo que estava por perto. Começou a misturar as bebidas. Nesse momento pude notar então e melhor que o seu corpo ainda permanecia inteiro. Suas curvas de antes ainda estavam lá. É certo que havia criado um pouco de barriga, mas suas nádegas e pernas ainda podiam atrair olhares.

Voltou trazendo o copo com o drink. Minha bebida preferida.

– Posso começar então? – perguntei mais uma vez.

– Pode – respondeu, sentando a meu lado.

Liguei então o gravador e puxei o meu bloco de anotações do bolso. Minhas mãos estavam suadas e senti um pouco de constrangimento por tudo aquilo que eu iniciava.

– Me fale de como tudo começou? – perguntei.

Este meu trabalho jornalístico começara então dessa forma. Com a vida de Loirinha sendo relembrada através de perguntas pertinentes para a elaboração de uma narrativa. Uma narrativa sobre a vida de uma ex-prostituta. Pois essa fora a vida de Loirinha no passado, e que a levara até ali. Um caminho de pedras enfrentado com muita coragem. E era isso tudo o que eu pretendia relatar. Ou pelo menos quase tudo. Mas para corroborar, nesta reportagem-livro, a sua vida de prostituta, eu resolvera também entrevistar outras, podemos dizer assim, “loirinhas”. Estranhas e verdadeiras histórias de vida que poderiam gerar, talvez, outros livros.

Como o caso da prostituta Kátia, que entrevistei uma noite, após chamá-la através de um anúncio nos classificados de jornal. Kátia não é o seu nome verdadeiro. Era apenas o seu “nome de guerra”, que adotara para trabalhar como prostituta. Tinha vinte e quatro anos e era universitária. Vendia o seu corpo em troca de dinheiro para poder pagar os estudos de enfermagem. Estudos e vida bancados pela necessidade que os homens têm de “meter e gozar”. Uma vez ela deu para três homens. Eles fizeram com ela tudo o que desejaram. Ao final, ainda se masturbaram e despejaram seus sêmens em seu corpo estendido na areia de uma praia deserta. E ela precisava passar por isso. Pedia por isso. E, de vez em quando, chorava por isso. Geralmente se encontrava bêbada nessas horas. Mas no outro dia sentava-se na primeira fileira de cadeiras da faculdade e escutava, com muita atenção, as aulas do curso superior de enfermagem. “Um dia – ela me contou – cuidaria dos corpos dos homens de outra maneira”.

Mas..., conheci Loirinha quando ela começou a trabalhar na prostituição de luxo. Naquele tempo sua carne era nova, quente e tenra. Era uma mulher que aprendera a viver a vida de prostituta com toda a exuberância possível.

(Continua na próxima semana...)

sábado, 6 de agosto de 2011

A duas irmãs também pardas de igual formosura

Gregório de Matos (1633-1696)




  1. Altercaram-se em questão
    Teresa com Mariquita
    sobre qual é mais bonita,
    se Teresa, se Assunção:
    eu tomo por conclusão
    nesta questão altercada,
    que Assunção é mais rasgada,
    e Teresa mais sisuda,
    e se houver, quem a sacuda,
    verá a conclusão provada.
 

  1. Se Teresa é mui bonita
    Mulata guapa, e bizarra,
    com mui bom ar se desgarra
    a mestiça Mariquita:
    ninguém a uma, e outra quita
    serem lindíssimas ambas,
    e o Cupido, que d’entrambas
    quiser escolher a sua,
    escolha, vendo-as na rua,
    que eu para mim quero ambas.
 

  1. As Putas desta cidade,
    ainda as que são mais belas,
    não são nada diante delas,
    são bazófia da beldade:
    são patarata em verdade,
    se já verdade em pataratas,
    porque Brancas, e Mulatas,
    Mestiças, Cabras, e Angolas
    são azeviche em parolas,
    e as duas são duas pratas.
 

  1. Jamais amanhece o dia,
    porque sai a Aurora bela,
    senão porque na janela
    se põem Teresa, e Maria:
    uma manhã, em que ardia
    o sol em luzes divinas,
    pelas horas matutinas
    eu vi Teresa assistir,
    ensinando-a a luzir
    como mestra de meninas.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A história de Loirinha 1

Marco Adolfs


Meu trabalho começou em uma noite chuvosa, quando entrei no bar de Loirinha. Um bar muito frequentado e luminoso do centro da cidade. Um local de bêbados, toxicômanos, prostitutas e perdidos de toda espécie. Uma gente que passava quase todos os dias pelas mesas daquele estabelecimento, como se ali fosse o prolongamento de suas casas; de suas famílias imaginadas; ou mesmo da rua afunilada. Um bar que ficava aberto durante toda a semana e até as altas e solitárias horas da noite e da madrugada. Um local com um som de bolero sempre inundando os ouvidos de todos. O bar era uma casa antiga reformada, com três enormes portas de madeira que davam para um grande salão onde podia se ver diversas mesas dispostas com suas toalhas de xadrez, o que lhe proporcionava levemente um ar de restaurante italiano. À direita tinha um extenso balcão, todo em madeira, onde bêbados solitários costumavam sentar com seus queixumes. Atrás desse balcão viam-se dezenas de garrafas de bebidas expostas em prateleiras de vidro e, por um buraco aberto, a cozinha misteriosa. Caminhando-se pelo bar, nos fundos podia se perceber os banheiros com os nomes “damas” e “cavalheiros”, escritos em plaquetas de acrílico. Naquela noite especial fui convidado a ir até uma sala reservada, bem ao fundo do bar, que servia de escritório. O escritório de Loirinha. Uma sala pequena com uma mesa de tampo de vidro, onde se espalhavam diversos papéis e objetos variados; uma televisão a um canto; um frigobar e um estofado vermelho. Ela ligou o ar-condicionado e sentou-se no estofado, convidando-me para sentar a seu lado. Tirei meu agasalho; depositei o guarda-chuva a um canto e dei um sorriso na direção de Loirinha, agradecendo. Quando finalmente me sentei, senti-me não só aliviado do peso da chuva lá fora, mas também alegre por dar início ao meu trabalho de jornalista que queria escrever um livro sobre a vida de uma pessoa. Eu me sentia um pouco tenso por ter escolhido a vida de uma amiga minha para contar a história. Sabia de antemão que o meu trabalho estaria envolvido por uma carga emocional muito grande Tentava relaxar a minha ansiedade.

Loirinha agora era uma mulher já passando dos quarenta e de um olhar triste e melancólico. Seus cabelos eram longos, sempre amarrados por uma fivela; e seu corpo parecia não ter mudado a silhueta esbelta e bem torneada de mulher sensual. Sua boca, de lábios carnudos, tentava sorrir quando veio até mim. Um sorriso desconfiado e maroto de mulher forte e madura.

– Você não vai mesmo se importar de contar a sua história de vida, vai? – perguntei-lhe logo de imediato, querendo ter uma certeza maior sobre o que eu pretendia iniciar.

– Não tenho nada a esconder – respondeu Loirinha. Em seu rosto transparecia certa frieza e indiferença sinceras.

– Uma vida extraordinária? A minha? Em quantos capítulos? – ela perguntou, esboçando um sorriso cínico.

 – O suficiente para mandar a mensagem – respondi.

            (Continua na próxima semana...)

sábado, 30 de julho de 2011

Soneto XLVII

Bocage (1765-1805)
 


“Mas se o pai acordar!…” (Márcia dizia
A mim, que à meia-noite a trombicava)
“Hoje não…” (continua, mas deixava
Levantar o saiote, e não queria!)

Sempre em pé a dizer: “Então, avia…”
Sesso à parede, a porra me aguentava:
Uma coisa notei, que me arreitava,
Era o calçado pé, que então rangia:

Vim-me, e assentado num degrau de escada,
Dando alimpa ao caralho, e mais à greta,
Nos preparamos para mais porrada:

Por variar, nas mãos meti-lhe a teta;
Tosse o pai, foge a filha… Oh vida errada!
Lá me ficou em meio uma punheta!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A poesia do sexo

Marco Adolfs



Minhas mãos percorrem o teu tesão;
Falo primeiro, em penetração;
Meus sussurros são ácidos e metálicos;
Línguas em estalos priápicos;
Uma flor abre-se no meio do teu corpo;
Vermelha, orvalhada, cheirosa... segredo;
Vou entre carícias orquestradas e pensadas;
Fazendo-te derreter nos lençóis;
Meu falo, intacto no ato, é teu Sol;
Naquele movimento suave de vai-e-vem;
Em raios, suados...
Teus gritos; meus ditos; no vício de amar;
Na espera...hum!...na espera...ha!...
Do teu e do meu gozar...
Aaahhh!!!...O verbo Amar.

domingo, 24 de julho de 2011

Sob a lona

Leila Miccolis




Um dia a mulher barbada

me chamou.

Perguntou se eu não queria

umas entradas para o circo,

se eu preferia o palhaço ao anão,

se iria à tenda dela.

Desde então,

foi em seu peito cabeludo,

em suas barbas macias

que após o show, toda noite,

eu me afundava

e dormia.

terça-feira, 19 de julho de 2011

donzela, não temas

Hélio Póvoas Junior




donzela, não temas
meu assédio parco
em galanteios ébrios

donzela, não queiras
meu amargo trato
em questões ligeiras

donzela, não teimes
em quere-me fruto
de galhos inférteis

donzela, não sejas
assim tão donzela
de mim tão poeta

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Caminhos

Stela Fonseca



Sobre meu corpo

suas mãos


carinhos


abrem os caminhos

que levam ao prazer.

domingo, 10 de julho de 2011

Na lua cheia

Simão Pessoa



De madrugada

veio o boto e emprenhou

a empregada



Maior confusão

ver que o tal do boto

era o patrão

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Exigência

Leila Miccolis




Meu homem eu quero,

enquanto puder,

molhado e úmido

como mulher.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sonetos Luxuriosos – 26

Aretino (1492-1556)



Estes nossos sonetos do caralho,
Que falam só de cu, caralho, cona,
E feitos a caralho, a cu, a cona,
Semelham vossas caras de caralho.

Trouxestes cá, poetas do caralho,
As armas para por em cu e cona.
Sois feitos a caralho, a cu, a cona,
Produtos de grã cona e grã caralho.

E se furor, oh gente do caralho,
Vos falta, ficareis no pica-cona,
Como acontece amiúde co’o caralho.

Aqui termino esta questão da cona
P’ra não entrar no bando do caralho,
E, caralho, vos deixo em cu e cona.

Quem perversões tenciona
Aqui nestas asneiras logo as lê.
Que mau ano e mau tempo Deus lhe dê.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A carnal tentação desenfreada

Nicolau Tolentino (1740-1811)



A carnal tentação desenfreada
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede,
Subisse de uma puta a infame escada.


Ligeiras pulgas saltam de emboscada
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela pregada na parede,
Já de antigos morrões afogueada.


Saiu da alcova a desgrenhada fúria
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, sórdida penúria:


Muito pode a pobreza e a porquidade;
Abati as bandeiras à luxúria,
Jurei no altar de Vênus castidade.

domingo, 26 de junho de 2011

Pornográfico

Leo Pinto



Todo mundo quer ler pornografia,
todo mundo quer ver, mas não assume,
e em mis enganos bobos se resume
nosso desejo pela putaria!

O que há de errado, pois, na sacanagem?
Se todo mundo gosta, que pudores
são estes que nos travam a engrenagem
do tesão em seus mais finos sabores?

Bucetas e caralhos, censurados,
desmascaram a tola realidade
de seres que, insistindo-se castrados,

destroem-se e, corroídos de vontade,
enquanto bons prazeres lhes escorrem,
perdidos em seus preconceitos morrem!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Soneto 374 Ninfeta

Glauco Mattoso


 
Dedico-te esta dádiva, ó Dolores,
musa divina, diva doidivanas!
Recebe de presente estes sacanas
bichinhos de pelúcia chupadores!
 
Serão teus companheiros quando fores
brincar de bestialismo. Sem as xanas
de tuas amiguinhas ou das manas,
te sentes tão sozinha e tens tremores!
 
Coitada da Dolô! Quem dera fosse
dotada duma mansa passarinha!
Mas não! É uma ninfômana precoce!
 
Já desde pequenina se entretinha
em jogos. Ao invés da bala doce,
chupava e era chupada na tetinha.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

No ritmo dessa festa

Bruna Lombardi



Vem cá, meu bonito
que eu te solto os arreios
que eu te faço, te encaro
e te alucino
a minha paixão não cabe no teu seio
não cabe no teu quarto
o meu destino.
Nem cabem na palma da minha mão
todas as linhas
que eu vou traçando nos caminhos
todas as contradições em que acredito
a liberdade que te proponho
a loucura de improvisar ninhos
e desprender os pássaros do sonho.

Que é que há, meu bonito
que medo é esse
que te segura à terra
te prende e até parece
que você não tem luar.
Vem pra cá te enfeitar de festa
que eu vou te esfregar com areia
que eu vou te marcar na testa.

Vou aprender teu jeito esquisito
de mexer com essas franjas
de balançar as arestas
te mostrar como se dança
o ritmo desse deboche
Tem que ter ferro e trato
Tem que ter desejo ardido
pra poder soltar esse bicho
escondido nesse mato.

Tem que soltar essa fera
que dentro do peito te amarra
pra dançar como se dança
no ritmo dessa farra.

Vem cá meu bonito prepara
o bote. Afia teu corpo pro corte
Vem, se larga se espalha
que eu sei lidar com teu porte
Vem, que eu sou da tua laia.

domingo, 12 de junho de 2011

Soneto IX

Bocage (1765-1805)



Arreitada donzela em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras sutis pachocho estreito.

De louro pelo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.

A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.

Como é ainda boçal, perde os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A uma mulher mal fodida, e, por isso, muito ranzinza e muito malvada

Paulo Franchetti



Mordendo o próprio rabo a pescadinha
É servida em Lisboa, pelas tascas;
Haja sol, faça frio, uivem borrascas,
E comida, co’o rabo na boquinha.

Ali encontrei u’a dona bem mesquinha,
Dos livros beliscando algumas lascas,
De alguns velhos papéis roendo as cascas,
Até julgar-se em seu saber rainha.

E era tão feia, que nem para freira
Servira. E escrota de corpo e tão fera
De humor, que alguém lhe disse um dia: “Espera!

Por que, ao invés de cuspir tanta asneira,
Já que ninguém te quer comer a cona,
Não tapas co’a bundinha essa bocona?”

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Poema d’amiga

Chico Doido de Caicó (1922-1991)



Amiga de bem trepar

Queres foder hoje

Até o mundo acabar?

Ou queres foder depois

Pros lados d’além-mar?

Amiga de bem querer

Queres ser chupada hoje

Até parar de chover?

Ou que queres ser chupada depois

Pra ser fodida e foder?

Oh amiga, minha amiga,

O que seria de mim sem você...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A rave

Marco Catalão



Só o ruído é real, só o vácuo existe
nessa estrambótica estroboscopia
que os jovens chamam rave, e que consiste
numa estridente agitação vazia.

Pois se não fosse assim, o que daria
aos rostos esse aspecto ansioso e triste?
Dançam, se drogam, beijam... Raia o dia,
e o intermitente bate-estaca insiste...

Mas que velho convence a juventude?
Sem medo, sem pudor, sem compromisso,
desperdiçando as forças e a saúde,

seguem na festa, em ritmo acelerado.
Mas o foda não é nem nada disso...
O foda é eu não ter sido convidado!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O beijo

Marcileudo Barros



O beijo não abre

toda válvula de escape

do desejo.

Até porque ele é o começo.

E quando ele é o fecho,

a apoteose,

ou não temos o desejo

ou temos o gozo precoce.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Recado

Riany Leão


Pra quem não sabe:

a única perversão

é foder

sem ter vontade

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cadela

Marise Pacheco



Há dias assim

em que me sinto como

uma pomba-gira

alucinada doida

no cio



e haja homem

e haja mulher

pra manchar os meus lençóis

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nesse bar repleto de idiotas nós dois

Paul Verlaine (1844-1896)



Nesse bar repleto de idiotas nós dois,
Só nós dois encarnávamos o tal horrível
Vício de “gostar de homem” e sem perceberem,
Íamos fodendo esses babacas de ar bem-posto,
Seus amores normais e sua moral fingida.
Enquanto isso tocávamos punheta a mil,
De lado, de frente, em diagonal, sem que
Ninguém se desse conta, envoltos em fumaça
Dos cachimbos (como certa vez Zeus com Hero).
Nossas picas, como narizes Karragheus*
Que nossas mãos secassem num gesto gostoso,
Espirravam jatos de porra sob a mesa.


(Trad. Heloisa Jahn)

(*) Personagem oriundo do teatro turco;
tipo esperto e vulgar, com um membro de grandes dimensões.

sábado, 14 de maio de 2011

Ânsia

Anne Lucy



Quero me enroscar nos teus braços
Mergulhar nos teus abraços
Percorrer tuas entranhas
Desfalecer em tua cama
Degustar tua saliva
Teus fluidos, tuas manias
Decorar teus movimentos
Tuas ações, teu lamentos
A tua pele quero comer
Quero cheirar, quero beber
Quero tua temperatura
Pra minha apatia derreter
Quero tua voz e tuas palavras
Penetrando-me em brasa
E o teu verdadeiro eu
Desnudando os segredos teus
Tenha coragem de me aceitar
Em troca prometo não te amar!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu te amo

Candida Alves



Colando o meu rosto
no pelo macio do teu peito
não posso encontrar
um defeito na vida

Meu corpo estreito
sem jeito
te cobre com força
e te beijo

Teu beijo
me escorre na cara
escancaras na boca
um bocejo

e dormes...

Respiro com calma
            com tara
me sento em teu colo
                  te olho
não fico com medo

Procuro teus dedos
que toco
e enrosco nos meus
pensando em voz alta
meu Deus eu amo esse cara
                            esse homem
então sinto fome...


Vou à geladeira
encontro uma pera
e como
sentada na pia

Um gato que mia lá fora
me lembra na hora
meu gato sozinho na cama

Eu corro e te encontro
com os olhos fechados,
suando
sonhando comigo talvez

e sigo te olhando, babando,
pensando

meu Deus como eu amo
e proclamo:
sou tua, sou tua
enquanto adormeço ao teu lado
tranquila
e completamente nua

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O ser e o não ser

Messody Benoliel (1933-2003)



Anseios incontidos se revelam
a cada instante em que sonho contigo
e os mares complicados não nivelam
as ondas escolhidas como abrigo.

As horas vão passando e as noites selam
os lúdicos orgasmos que fustigo
entre o ser e o não ser, pois se revelam,
prenunciando assim desejo antigo.

Espelhos não refletem tua imagem
tão bem guardada sobre o travesseiro,
passaporte seguro da mensagem

aos céus do meu prazer – ebulição –
onde serás o único e primeiro
e eu, súdita, coberta de tesão.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Zoofilia – Bode

Nei Leandro de Castro


Grande fornicador, o bode

cheira o mijo das cabras

arreganha os beiços

e fode fode fode fode.

sábado, 30 de abril de 2011

Soneto do século de ouro espanhol

.


– Que quer de mim, senhor? – Filha, foder-te.
– Diga com mais rodeios. – Cavalgar-te.
– Diga ao modo cortês. – Então, gozar-te.
– Diga ao modo pateta. – Merecer-te.

– Bem hajas que consigo compreender-te
e mal haja quem peça de tal arte.
Depois, o que farás? – Arregaçar-te
e com a pica alçada acometer-te.

– Tu sim hás de gozar meu paraíso.
– Que paraíso? Eu quero é minha porra
metida bem no fundo do teu racho.

– Com que rodeio o dizes, tão precioso!
– Caluda, amor, que de prazer já morra,
fodendo-te eu por cima, tu por baixo.


(Trad. José Paulo Paes)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Que me venha esse homem

Bruna Lombardi



Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco
que me venha esse homem
que me arranque do sono
que me machuque um pouco.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cera & Nata para Desdêmona

Glauco Mattoso
(pra não dizerem que não canto as fêmeas)



Oh minha doce amada,
minha goiabada,
tão conspícua
quão conspúcia,
inconstante e mamada,
desnaturada e desnatada!
Oh minha desdenhosa,
divina, demoníaca
diva doidivanas,
como amo
tuas anas
quando me envenenas
com teus ventos;
tuas xanas
planas e plenas
de corrimentos;
tua prepúcia
que não posso
arregaçar
e teu regaço
que não passo
sem cabaçar!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Itamaracá

Simão Pessoa


Do ri(s)o negro cariado
surge o segredo cifrado:
que tal aquele programa,
ó com pinta de bacana?

Nos becos escuros ao longo,
meninotas vão mostrando
os peitos quase à deriva,
as bundas cheias de estrias.

Pedem dinheiro, cigarro,
balançam chaves de quarto,
esboçam um risinho triste,
que não agrada, agride.

Debruçam-se, constrangidas,
recebem a goma lasciva,
logo logo voltam à luta.
Que vida filha da puta!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Meus Amores

Luiz Gama (1830-1882)

Pretidão de amor,
Tão leda a figura
Que a neve lhe jura,
Que mudara a cor.

Camões – Endechas


Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa crioula, ou Tétis negra
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o inverno gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.

Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.
A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se distila o grato olor.

O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
– É coisa de sentir, não de contar.

Quando a brisa veloz, por entre anáguas
Espaneja as cambraias escondidas,
Deixando ver aos olhos cobiçosos
As lisas pernas de ébano luzidas.

Santo embora, o mortal que a encontra pára;
Da cabeça lhe foge o bento siso;
Nervosa comoção as bragas rompe-lhe,
E fica como Adão no Paraíso.

Meus amores são lindos, cor da noite,
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa crioula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Ao ver no chão tocar seus pés mimosos,
Calçando de cetim alvas chinelas,
Quisera ser a terra em que ela pisa,
Torná-las em colher, comer com elas.

São minguados os séculos para amá-la,
De gigante a estrutura não bastara,
De Marte o coração, alma de Jove,
Que um seu lascivo olhar tudo prostrara.

Se a sorte caprichosa em vento, ao menos,
Me quisesse tornar, depois de morto;
Em bojuda fragata o corpo dela,
As saias em velame, a tumba em porto,

Como os Euros, zunindo dentre os mastros,
Eu quisera açoitar-lhe o pavilhão;
O velacho bolsar, bramir na proa,
Pela popa rojar, feito em tufão.

............................................................................

Dar cultos à beleza, amor aos peitos,
Sem vida que transponha a eternidade,
Bem que mostra que a sandice estava em voga
Quando Uranus gerou a humanidade.

Mas já que o fato iníquo não consente,
Que o amor, além da campa, faça vaza,
Ornemos de Cupido as santas aras,
Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa.

domingo, 10 de abril de 2011

platônica

Zemaria Pinto


ai, que já me arde a febre do desejo
volúpia de te ver, tocar, amavelmente
no ritual cotidiano das tardes mais banais

          como não sonhar com teu colo pálido
          e a sarda que se espalha
          pelo teu braço infinito?

          as minas de rosáceas do teu peito
          espalham nervos na sala entorpecida
          pela pressa de chegar de onde se vem

          sempre – cotidianamente
          a carne dos teus lábios
          roçagando minha barba por fazer

          a língua desfaz-se em fogo
          adivinhando tua língua de silêncios 
          meu coração delira preces pagãs

          a palavra – um convite? um carinho?
          desaba dentro de mim
          borboleta abatida a escopeta

          um helicóptero sobre minha cabeça
          cavalga walkírias & fúrias
          fim do expediente

(amor? amor um cacete
você não existe
o tesão não resiste

você não precisa saber
que a vida não vale nada
sem você!)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Soneto XX

Bocage (1765-1805)



Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo, de moças mil) num só momento,
Inimigo de hipócritas e frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.

domingo, 3 de abril de 2011

A boa dieta

Friedrich von Logau (1604-1655)



Carlota dissera ao seu doutor

Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,

Embora à noite a coisa fosse mais sadia.

Sendo ela prudente, resolveu

Fazê-lo duas vezes ao dia:

De manhã, por prazer

De noite, por dever.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 30 de março de 2011

No corpo feminino, esse retiro

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)



No corpo feminino, esse retiro
– a doce bunda – é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha – a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

domingo, 27 de março de 2011

Bacante III

Anibal Beça (1946-2009)



Leite de mulher amada
é como lua crescente ,
tetas de mel saliente,
feito de uva rosada.

Mais belo em sua nascente
rio de torrente domada;
solo de frauta doirada
delírio vivo de crente.

Por bebê-lo, hei renascer,
no olor de louro buquê:
vinho suave de beber.

Bom na Germânia, porque
de origem, nas videiras
ouve-se a uva crescer!

terça-feira, 22 de março de 2011

A boca do meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)


Amo cada parte do teu corpo.
Mas tua boca, meu amor, a tua boca
Priva-me dos sentidos no torpor da excitação.
Teus lábios quando tocam os meus...
Arde em mim o desejo de entregar-te
O meu corpo, como se fosse a primeira vez.

Tua voz sussurrando em meu ouvido
Palavras ternas, obscenas, sacanagens
Me conduzindo a momentos selvagens,
Me deixa hipnotizada, de vontade de te ter.
Te ouço chamar meu nome: eu me rendo,
Estou no teu enlace, sou tua, faz amor comigo, faz...

Teu hálito. Ah!, teu hálito, meu amor
Como é bom acordar com a brisa fresca
Que tua boca emana pela manhã
Esse cheiro de aurora, de despertar, de tesão,
Cheiro que perfuma meu corpo, meu dia
Minha vida. Não me canso de cheirar tua boca!

E a tua língua. Tua língua na minha face
Sôfrega, me lambendo, regando a minha pele
Com tua saliva doce, de lúpulo e hortelã.
Tua língua no meu sexo, me lavando e me levando
Ao delírio do prazer: eu grito eu gemo eu choro e gozo
Na tua boca – e sorves o meu mel, teu alimento.

Na tua boca, meu amor, eu me perco. Não quero
Nunca me encontrar, nem beijar outra boca
Que não seja a tua, onde no teu beijo eu sou feliz
E em cada palavra pronunciada, regada de tesão
Misturada ao teu hálito fresco, eu me dou sem medo
Pedindo mais e mais a tua língua dentro de mim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Futuro do pretérito

Eliane Stoducto (?-2007)



Eu poderia ficar horas te escutando
tuas piadas, teus projetos, teus enganos.

Eu poderia te olhar horas a fio,
enquanto tu fosses desfiando
as histórias da avó e dos teus filhos...

E ficaria horas contemplando
o teu jeito meio bobo e te adorando...

Ah, eu ficaria, sei que ficaria...

Com a atenção dispersando eu te olharia
sorrindo com ternura e simpatia,
a mente vagueando em outros planos,
ansiosa, procurando a fantasia
de te ter dentro de mim...

Ah, eu faria tudo isso. Ah, se eu faria!

Depois, quando calasses, eu te levaria
para os brancos lençóis,
então serias o meu dono...

Mas, hoje não, meu querido,
estou com sono...

domingo, 13 de março de 2011

Não era mole – dois poemas do tempo da ditadura

Na moita
Teresa Jardim




botou tudo pra fora
meteu o pau
no corpo federal
e saiu todo faceiro
do banheiro
o soldado com o general



Artigo de fundo
Bráulio Tavares



Eu quero é a orgia!
A safadeza!
A indecência!

Deixo pros padres
e pros militares
               a continência!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Sonetos Luxuriosos – 4

Aretino (1492-1556)



Este caralho é mais do que um tesouro!
É o bem que pode me fazer feliz!
Este sim é que é bem de Imperatriz!
Vale esta gema mais que um poço de ouro!

Acode-me, caralho, que eu estouro!
Vê se encontras o fundo da matriz;
Um caralho pequeno se desdiz
Quando na cona quer guardar decoro.

Estás dizendo a verdade, ó mulher;
Quem caralho pequeno em cona enfia
Merece, de água fresca, um bom clister.

Esses devem foder cu, noite e dia.
Já quem o tem, como eu, brutal, feroz,
Somente na boceta se sacia.

                             Sim, é verdade. Mas
O caralho nos dá tanta alegria
Que nossa gula o quer na frente e atrás.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Zoofilia – Abelhas

Nei Leandro de Castro


Será o zangão

um plebeu afortunado?

Ele fode a rainha, sim,

mas depois morre fulminado.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Soneto 287 utópico

Glauco Mattoso



No fundo, o grande sonho masculino
é conseguir chupar a própria tora,
coisa que o chimpanzé faz toda hora,
e o homem tenta, em vão, desde menino.

Seja porque seu membro é pequenino,
ou porque o corpanzil não colabora,
o fato é que o machão lamenta e chora
o irônico, anatômico destino.

Parece que a utopia nua e crua
resume-se numa autofelação,
quem sabe a autofagia, que jejua...

O jeito vem a ser masturbação,
e o sonho sensual se perpetua,
enquanto a mulher crê que dá tesão...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Quem nunca chupou buceta não sabe o que está perdendo

Allan Sales



Há muito, eu desconhecia
Uma coisa tão gostosa
Divina e maravilhosa
Que nos dá só alegria
Renova nossa energia
Pois fique o amigo sabendo
Que pra quem vive sofrendo
E morrendo na punheta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

É tão sadio e gostoso
Degustar, lamber a xota
Pois só mesmo um idiota
Acha feio e perigoso
Quem for preconceituoso
Dessa parada correndo
Achando que é um ato horrendo
Desconhece tal faceta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Eu mesmo já fui assim
Desconhecendo tal fato
Mas hoje eu sou muito grato
Pois deram o toque pra mim
Pensava que era ruim
A seiva ficar bebendo
Pentelhos ficar comendo
Chupar grelo feito teta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Babacas deste Brasil
Idiotas puritanos
Vão tomar nos vossos ânus
Vão pra puta que os pariu
Pois só mesmo um imbecil
Acaba não percebendo
Como é bom ficar lambendo
A buça de uma ninfeta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Sei que a igreja condena
E muitos acham um horror
Os sábios lhe dão valor
Pois sabem que vale a pena
É diversão tão amena
Quando num tamo fudendo
É como fogo ardendo
Saborear sem careta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Chato é tirar dos dentes
Os insistentes pentelhos
Lambendo os lábios vermelhos
Das vulvas incandescentes
Gemem mulheres ardentes
Gozando, os lábios mordendo
Nos buscam sempre querendo
Tal brincadeira porreta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Os sapatões é que adoram
Pois não possuem um pau
É um ato universal
Mas que tantos ignoram
Se as xoxotas não devoram
A todos eu recomendo
Tal prazer é bom fazendo
Encarar a cara preta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Até D. Pedro I
O nosso monarca luso
Era um craque nesse uso
Nisso foi um costumeiro
A marquesa por inteiro
Ele chupava tremendo
Ficava a língua doendo
De fazer a carrapeta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Na certa não é errado
Também nojento não é
Pois quem gosta de mulher
Aprecia extasiado
Aqui dou meu atestado
Por isso sigo fazendo
Chupando vou aprendendo
A deixar de ser careta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Aqui me despeço amigos
Pois já dei o meu recado
Chupar nunca foi pecado
Assino embaixo o que digo
Um palmo abaixo do umbigo
Há um prazer estupendo
Que é de degustar morrendo
Encarar a cara preta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lubricidade

Cruz e Sousa (1861-1898)



Quisera ser a serpe venenosa
Que dá-te medo e dá-te pesadelos
Para envolverem, ó Flor maravilhosa,
Nos flavos turbilhões dos teus cabelos.

Quisera ser a serpe veludosa
Para, enroscada em múltiplos novelos,
Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
E babujá-los e depois mordê-los...

Talvez que o sangue impuro e flamejante
Do teu lânguido corpo de bacante,
Da langue ondulação de águas do Reno

Estranhamente se purificasse...
Pois que um veneno de áspide vorace
Deve ser morto com igual veneno...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Teu sêmen na minha boca

Clara Nihil



semente do meu amor
repasto do meu desejo
sumo do meu prazer

alimento dos meus dias
pão da minha liberdade
mel da minha paixão

néctar da minha alegria
sal da minha temperança
água da minha sede

vinho da minha euforia
seiva da minha bonança
minha felicidade

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A primeira vez que nos amamos

João Sebastião
(para Angélica de Lis, doce memória)



A primeira vez que nos amamos
senti vibrar teu corpo de alegria
apesar de uma lágrima furtiva
e do teu rosto contraído
numa singela expressão de dor.

A primeira vez que nos amamos
havia música barroca no ar
pontuando a estranha melancolia
e a fortuita liberdade
que nem tu nem eu sabíamos explicar.

A primeira vez que nos amamos
e que nossos corpos se envolveram com paixão
nem a dor nem o sangue ou o suor
macularam a inocência de um encontro
forjado pela febre do desejo mútuo.

A primeira vez que nos amamos
havia pássaros nos laranjais
trilando melodias merencórias
um tom acima do coro de anjos
que em nossa cela nos abençoava.

A primeira vez que nos amamos
um poema em teu corpo eu tatuei
com minhas mãos meus lábios e meu sexo
e te amei como nunca amei ninguém
e tu me amaste como Eva amou Adão.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O cheiro do teu cu amanhecido

João Sebastião



O cheiro do teu cu amanhecido
tem as harmonias da Nona Sinfonia
a simetria do dantesco Inferno
e o labiríntico enredo do Édipo Rei

O cheiro do teu cu amanhecido
muito mais que o Flamengo campeão
é a Mangueira descendo na avenida
é ganhar a Copa no Maracanã

O cheiro do teu cu amanhecido
mais suave que um pássaro de Niemeyer
é mais gostoso que cuscuz com mel
pamonha doce e creme de cupu

O cheiro do teu cu amanhecido
é mais barroco que os profetas de Congonhas
mais modernista que o Abaporu
e mais pós-tudo que o luxo do lixo

O cheiro do teu cu amanhecido
vem de uma página do Rubaiyat
tem o tanino dos melhores tintos
com notas de alcaçuz e framboesa

O cheiro do teu cu amanhecido
é muito muito mais do que qualquer engenho
em que a métrica se perca nas sinestesias
e o desconcerto do poema se desvele

O cheiro do teu cu amanhecido
tem ânsias de infinito e partes com o eterno
é meu muiraquitã minha uiara
é minha metafísica meu nada

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Homem maduro

Cacilda Barbosa



Como eu te amo, homem
nos poucos cabelos
que o tempo te deixou
no sorriso bonito que a juventude
em ti regravou.

Homem, eu te amo tanto
quando toco teu corpo maduro
vejo o brilho em teus olhos
já um tanto apagado
me afogo em carícias
no peito cheiroso, de branco mesclado.

Sinto pecado ao olhar teu andar
majestoso e macio, de gato cansado.
As mãos ágeis buscando recantos
tirando poesia, música louca
de meus encantos.
No gozo alucinado, no abraço sensual
no urro conjunto saindo de nosso peito
no perfume molhado que deixas em meus pelos
em teu sexo que o tempo
fez mais que perfeito.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O meu amor

Chico Buarque




O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh’alma se sentir beijada

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos
Lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca
Com a barba mal feita
E de pousar as coxas
Entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Círculo vicioso

Marco Catalão




No ônibus cheio, a diarista reclamava:
– Quem dera a minha vida fosse mansa e boa,
com carrão e piscina, como a da patroa!
Mas a patroa dizia ao marido, brava:

– Não fosse o nosso filho, eu bem que te largava,
e ia viver igual à tua amante, à toa,
sem dívida que vence, sem cheque que voa!
Mas a amante, sem conseguir dormir, sonhava:

“Ah, se eu tivesse sido menos azarada,
já estava no apogeu da carreira de artista!”.
Mas a artista, no quinto café, entediada

enquanto concedia a décima entrevista,
num momento de lucidez inusitada,
pensava: “Foda mesmo era ser diarista!”

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

De que valeu-me ser tua cadela

Samantha Rios



De que valeu-me ser tua cadela,
Ser tua fêmea, estar sempre no cio,
Ter da volúpia um caudaloso rio
Ser tua égua atrelada numa sela?

De que valeu-me abrir minha cancela,
Da vergonha perder o íntegro brio,
Atender teu chamado de assobio,
Ter minha vida à tua paralela?

De que valeu-me a anulação completa
De taras, de vontades, de desejos,
E uma vida levar toda incorreta,

Se teu amor não foi mais que lampejos,
E se tinhas apenas como meta
Matar a tua fome com meus beijos?

domingo, 30 de janeiro de 2011

A mulher e a casa

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)




Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente de dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra:
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Epigrama

Marcial (40?-104?)




Corre o rumor, Quione: nunca foste fodida,

e nada mais puro existe que tua cona.

Nessa parte (por vestes velada) nem te lavas.

Se é pudor, desnuda a cona e vela a face.



(Trad.: Luiz Antônio de Figueiredo e Ênio Aloísio Fonda)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Corpoenigma – bunda

Zemaria Pinto




luas hemisféricas

sob o sol resplandecente

– altar da paixão



castelos erguidos

em terras de fantasia

– volúpia e vertigem



ondas cavalgadas

nos limites do infinito

– relâmpago sob o sol

domingo, 23 de janeiro de 2011

Romeu e eu

Glauco Mattoso
(conto dialético e, ipso facto, poema romântico)



Eu quero brincar com você.
Papai não deixa.
O Diretor proíbe.
A Esquerda se opõe.

Você me chama
e eu morro de vontade.
Papai me ameaça.
O Diretor me intima.
A Esquerda me aterroriza.

Saio escondido,
procuro por você,
mas eles me acham.
Papai me bate.
O Diretor me põe de castigo.
A Esquerda atenta contra mim.

Fico esperando,
você me procura,
nos encontramos no escuro,
nos pegam em flagrante.
Papai me expulsa.
O Diretor me interna.
A Esquerda me sequestra.

Escapo e sobrevivo,
mas você não está livre.
É filho de seu Papai.
Disciplinado ao seu Diretor.
Prosélito da sua Esquerda.

Vivo solitário, você prisioneiro,
e não podemos brincar.
Castram nossa infância
porque você é igual a mim,
sua vontade igual à minha,
mas nos fazem diferentes.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sonetos Luxuriosos – 14

Aretino (1492-1556)



Ai, minha cona, ai! Cruel, que fazes
Com caralho tão grosso, tão horrendo?
Caluda, coração, que assim gemendo
Teu senhor não recreias nem aprazes.

E se no meu foder não te comprazes,
Abre espaço bastante que te atendo,
O pau até os colhões em ti metendo
Para dar-te prazer dos mais verazes.

Eis-me aqui pronta, oh, fido servo caro,
Faz como queiras e em afadigar-te
Por bem servir não te mostres avaro.

Não duvida, meu bem, que quero dar-te
Fodida tão gostosa, em modo raro,
Que inveja sentirão Vênus e Marte.

                          Podia a cona entrar-te,
Diz por favor, o mais soberbo nabo?
A cona sim, mas Deus me guarde o rabo.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Corpoenigma – costas

Zemaria Pinto




campo iluminado

pelo fogo do desejo

– prenúncio do dia



plano dividido,

planície que se completa

nas ondas do vento



longa travessia,

repousa o corpo em silêncio

– porto calmaria

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sugar e ser sugado pelo amor

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)




Sugar e ser sugado pelo amor

no mesmo instante      boca milvalente

o corpo dois em um        o gozo pleno

que não pertence a mim nem te pertence

um gozo de fusão difusa transfusão

o lamber o chupar e ser chupado

            no mesmo espasmo

é tudo boca boca boca boca

sessenta e nove vezes boquilíngua.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Saudades do meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)




Sinto saudades das nossas intensas horas de amor
dos arrepios que tuas carícias me provocam,
me deixando assim molhada, excitada, querendo o teu calor.
E, no meu corpo, sentir esse fogo queimando-me.

Sinto saudades de quando exploras o meu corpo
e descobres os pontos prazerosos que me levam
aos gritos e gemidos, ao inferno e ao paraíso,
eu sem defesa e tu sem piedade possuindo-me.

Tua língua em todos os orifícios do meu corpo,
senti-la quente e furiosa dentro de mim levando-me
ao ponto inalcançável do prazer, me faz querer que
permaneças dentro de mim, alimentando-se do meu gozo.

Teu membro a penetrar-me, tuas mãos em fúrias nos meus seios,
tua boca a procura da minha língua, sugando-me, como
se de nossas salivas, dependessem as nossas vidas.

Que saudades de quando na madrugada fria nossos
corpos quentes se encontram e se amam, teus beijos docemente
acordam-me e eu me rendo a esse amor.

Que saudades da transa debaixo do chuveiro, água fria,
corpos quentes, eu e você banhando-nos em gozo.
Teu olhar procurando-me e eu querendo-te
dentro de mim.

Que vontade de entregar-te o meu corpo,
e ser escrava do seu desejo.
Que saudades de você.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Corpoenigma – nuca

Zemaria Pinto



marmor cinzelado

sobre o torso transluzente

– cadeia do tempo



armam-se guerreiros

sobre a torre de alabastro

– pelos perfilados



rosa tatuada

sob os pelos eriçados

– meigo nosferatu

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Bicho papão

Almir Graça




– Vai...

– Vai tu...

– Vai tu primeiro!

– Eu não! Vai tu!...



Ainda com os mamilos empinados

olhou para os dois,

pegou a calcinha e o sutiã

– Vão se foder, seus viados!

domingo, 9 de janeiro de 2011

Da natureza da bunda

Simão Pessoa




Diferente do seio, a bunda
Possui uma função distinta:
Na bunda, a gente lambuza,
No seio, a gente bolina.

Na bunda, um riacho fundo
Corta seu duplo hemisfério:
No seio seu duplo ornamento
É bússola de curso aéreo.

Também há na gótica catedral
Em que a bunda se camufla
Uma auréola como a do seio
Mas de finalidade bem outra.

Enquanto a auréola do seio
Parece extensão do bico,
A auréola da bunda prefere
Sombrear certo orifício.

E é nesse duto intestino,
Da casa grande, a senzala,
Que o macho se queda aflito
Por enfiar-lhe a espada.

Mas se a função principal
Do duto não é receber
Por que diabos insistimos
Em nesse poço descer?

Quem foi criança se lembra
Das brincadeiras com fezes:
Adulto, aperfeiçoamos o jogo.
(Ou assim é se lhe parece.)

Trampolim do felizardo
Que no poço se projeta,
Nos dois cálices da bunda
Está o caminho das pedras

Quanto mais fornida for
Mais a bunda é desejada:
Só precisa estar tinindo
Quem pretende penetrá-la.

As medianas são melhores
E pelas curvas se conhece:
Qualquer pau pode dar conta
Sem precisar pintar o sete.

De bom tom são as pequenas
Mas que sejam expressivas:
Não basta ter um buraco
Por onde entre uma pica.

Na falsa magra, entretanto,
O equilíbrio está no jeito:
Quando montada, sua bunda
Tem um encaixe perfeito.

Há ainda as bundas magras
De uma magreza de doer:
Por serem pouco cantadas
São as mais fáceis de comer.

E toda mulher dá a bunda
Sem que perca sua honra:
Basta o sujeito insistir
E prometer que não conta.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Corpoenigma – pés

Zemaria Pinto



devassam fronteiras

na construção da manhã

sonhando mensagens



caminho traçado,

espaço e tempo à mercê

– asas do desejo



pássaros pousados

sobre o limo do caminho

buscando o verão

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Amante do meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)




Quero ser a mais completa das amantes
não quero casar e nem que me cubras de diamantes,
não quero filhos e nem mesadas: só boas trepadas,
regadas a muito gozo, sendo sempre enrabada...

Não quero usar aliança e nem assinar com teu nome,
só peço que nunca deixes de ser o meu homem.
Não quero cozinhar, muito menos lavar e passar,
quero apenas ser tua comida – enrabada e fodida...

Não quero ouvir teus problemas, nem tuas irritações,
não quero palavras ternas úmidas de emoções,
quero apenas muito sexo, palavras sem nexo,
sem compromissos, momentos completos...

Repletos de muito sexo, sem restrições, sem frescura,
sem carinho e sem amor... Apenas muita loucura...
Não quero ser a mulher perfeita, a esposa boa o bastante,
de suportar traições etc... Quero apenas ser tua amante!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Musa de verão

Nei Leandro de Castro




Quero uma musa
nada obtusa
Que tenha os peitos
perfeitos de menina-moça
e acima dos quadris
aquelas duas pequenas poças.
Uma musa que saia
do mar de verão
como uma deusa
de anúncio de televisão.
Quero uma musa moderninha
que não faça questão
de ser só minha.
Que no gozo gema tão forte
que dê a impressão
dos estertores da morte.
Quero uma musa na medida
exata, na escala
do falo e da fala.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Corpoenigma – pernas

Zemaria Pinto



asas da manhã

flutuando à luz difusa

na pele do vento



garças de algodão

sob o véu acetinado

da manhã nascente



torres definindo

a arquitetura do passo

– caminhos do sol

Voyeurs desde o Natal de 2009