Amigos da Alcova

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domingo, 31 de outubro de 2021

Idílio chique

 Paul Verlaine (1844-1896)

 

A garotinha

sem vacilar

toca punheta

no garotão.

 

O felizardo,

com o tratamento,

goza e cuspinha

pra todo lado.

 

Vendo esse leite

a menina ri

e, curiosa

do que ele seja,

 

cheira uma gota

bem da pontinha.

Pronto! Se anima!

Agora azar!

 

Lambe e relambe

a linda ponta,

depois zás-trás,

põe-se a mamar!

 

Viscondezinho

de não-sei-quê,

não conte a história

pra muita gente,

 

a fina flor

sentimental

de tuas férias

do ano 90:

 

pois tais tumultos

pelos castelos

os teus amigos,

mesmo os mais tolos,

 

bem que podiam,

caso quisessem,

contar-te às dúzias,

sem invenções;

 

e as priminhas,

anjos caídos,

dessas cozinhas

e desses sumos

 

Já são freguesas,

as coitadinhas,

desde que fazem

a comunhão:

 

isso, amiguinhos,

só pra ensaiar

os adultérios

que ainda virão.

 

(Trad. Heloisa Jahn)


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Soneto do olho do cu

Paul Verlaine (1844-1896) e Arthur Rimbaud (1854-1891)*


Obscuro e franzido como um cravo roxo,
Humilde ele respira escondido na espuma,
Úmido ainda do amor que pelas curvas suaves
Dos glúteos brancos desce à orla de sua auréola.

Uns filamentos, como lágrimas de leite,
Choraram, ao vento inclemente que os expulsa,
Passando por calhaus de uma argila vermelha,
Para escorrer, por fim, ao longo das encostas.

Muita vez minha boca uniu-se a essa ventosa;
Sem poder ter o coito material, minha alma
Fez dele um lacrimário, um ninho de soluços.

Ele é a tonta azeitona, a flauta carinhosa,
Tudo por onde desce a divina pralina,
Canaã feminino que eclode na umidade.

 

(Trad. Heloisa Jahn)

 

(*) Os quartetos são atribuídos a Verlaine e os tercetos a Rimbaud.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nesse bar repleto de idiotas nós dois

Paul Verlaine (1844-1896)



Nesse bar repleto de idiotas nós dois,
Só nós dois encarnávamos o tal horrível
Vício de “gostar de homem” e sem perceberem,
Íamos fodendo esses babacas de ar bem-posto,
Seus amores normais e sua moral fingida.
Enquanto isso tocávamos punheta a mil,
De lado, de frente, em diagonal, sem que
Ninguém se desse conta, envoltos em fumaça
Dos cachimbos (como certa vez Zeus com Hero).
Nossas picas, como narizes Karragheus*
Que nossas mãos secassem num gesto gostoso,
Espirravam jatos de porra sob a mesa.


(Trad. Heloisa Jahn)

(*) Personagem oriundo do teatro turco;
tipo esperto e vulgar, com um membro de grandes dimensões.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ouverture

Paul Verlaine (1844-1896)


Quero me abstrair nessas coxas e bundas,
Putas maduras, jovens, noviças, professas,
Do único vero Deus, sacerdotisas veras:
Ah, não sair mais dessas fendas e riscas!

Que pés maravilhosos: vão para o amante,
Voltam só com o amante, descansam apenas
Durante o amor, no leito, depois de gentis mimam
Os pés do amante, que exausto, lasso, se encolhe.

Premidos, aflorados, beijados, lambidos
Das plantas aos dedos, chupados um a um,
Aos tornozelos, aos lagos de veias lentas,
Pés mais belos que os pés de apóstolos e heróis.

Me encanta vossa boca e seus jogos graciosos,
Os da língua, os dos lábios e ainda os dos dentes,
Que mordem nossa língua e às vezes mesmo mais:
Coisas quase tão boas quanto pôr lá dentro;

E vossos seios, montes de orgulho e luxúria,
Entre os quais se iça às vezes meu viril orgulho
Para poder a contento crescer e roçar-se
Tal como um javali entre o Parnaso e o Pindo.

E os braços, que adoro também, belos e brancos,
Macios e firmes, gorduchos, nervosos, belos
E brancos como as bundas, quase tão tesudos;
Quentes no amor, depois, porém, frescos jazigos.

E as mãos que pendem desses braços, ah engoli-las!
Ungidas com o dom do afago e da preguiça,
Extratoras da glande transida que escapa,
Punheteiras de solicitudes infindas.

Mas ora, o que é isso tudo, Putas, perto dos
Vossos cus e bucetas, cujos visão, gosto,
Odor e tato transformam fiéis em eleitos,
Tabernáculos, relicários do impudor.

Por isso, minhas irmãs, nessas coxas e bundas
Quero abstrair-me todo, únicas companheiras,
Belas maduras, jovens, noviças, professas,
E nunca mais sair dessas fendas e riscas.


(Trad. Heloisa Jahn)

Voyeurs desde o Natal de 2009