Amigos da Alcova

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domingo, 30 de junho de 2019

Kama



                              Nei Leandro de Castro


a mulher oferta
sua antropofágica
flor aberta.
O homem aceita e recusa
aceita e recusa
aceita e recusa
aceita e recusa.
Não podendo mais,
toma-a de assalto
e morre em paz.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Allegro


Nei Leandro de Castro


Deixa crescer os pelos
do teu sovaco, amada.
Quero vê-los encachoeirados
recendendo a mar, a limonada
travo de coisa doce e amarga.
Quero vê-los saindo, com cheiro de sargaço,
dos dois esconderijos que trazes
no final dos braços.
Pensaste um dia nisso? Pensa.
Deixa que os pelos do teu sovaco
cresçam sem cortes, espontâneos,
alastrando-se numa mancha preta
como de resto crescem
os pelos de tua boceta.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Epigrama de amor


Nei Leandro de Castro



Minha amada tem os seios rijos.
O tempo ou mesmo Newton com suas leis
não conseguem derrubar
a rija beleza dos seios dela.
Eles são brancos, muito brancos
e tem pequenos bicos cor de rosa
que se eriçam sob os meus dedos
e a minha boca.
Eles são fortes.
Fortes como a convicção de minha amada
de que eu não devo jamais
penetrá-la por trás.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Zoofilia – Beija-flor

Nei Leandro de Castro




Quem já viu o beija-flor

fazer amor?

O bico onde é que fica?

Ele tem pica?

Nos movimentos que faz,

assim como nos voos,

ele vai pra frente e pra trás?

Ele trepa no ninho?

No arco-íris? Em pleno ar?

Ou só faz chupar flor?

Será?  

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Brasil versus Portugal ou Língua portuguesa inculta e bela

Nei Leandro de Castro


Vós tendes tetas
nós temos peitos
vós tendes conas
temos bocetas
vós tendes cus
nós temos bundas
e uma profunda
sinonímia
o que é cu
para nós outros:
boga, roscofe
frinfa, cequinho
lorto, cioba
cibió, foba
abre-e-fecha-sem-cordão
franzido, pisca-pisca
olho-da-goiaba
alvado, fiofó
pevide, viegas
zé-do-ó
zé-das-pregas
zé-do-peido
escurinho
fim de espinhaço
rego, poço
e eticétera.
A nossa língua
tal como a vossa
usa a francesa
faz o minete.
Mas a trombada
da nossa língua
não é trombada
é mais lambida
é mais chupada.
Vós tendes vós
temos vocês
por não sabermos
mais concordar
nossos plurais.
Vós e vossa excelência
sabem a ruibarbosa
ou indecência.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Zoofilia – Bode

Nei Leandro de Castro


Grande fornicador, o bode

cheira o mijo das cabras

arreganha os beiços

e fode fode fode fode.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Zoofilia – Abelhas

Nei Leandro de Castro


Será o zangão

um plebeu afortunado?

Ele fode a rainha, sim,

mas depois morre fulminado.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Musa de verão

Nei Leandro de Castro




Quero uma musa
nada obtusa
Que tenha os peitos
perfeitos de menina-moça
e acima dos quadris
aquelas duas pequenas poças.
Uma musa que saia
do mar de verão
como uma deusa
de anúncio de televisão.
Quero uma musa moderninha
que não faça questão
de ser só minha.
Que no gozo gema tão forte
que dê a impressão
dos estertores da morte.
Quero uma musa na medida
exata, na escala
do falo e da fala.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Zoofilia – Touro

Nei Leandro de Castro




O touro dá lições de sexo

ao puritano babaca.

Antes da belíssima trepada

ele lambe docemente

a boceta da vaca.

sábado, 4 de setembro de 2010

Soneto safado

Nei Leandro de Castro


Eram duas amigas muito boas
que botavam aranhas pra brigar.
Saíam de mãos dadas, bem à toa,
indo juntinhas a qualquer lugar.

Uma era jovem, a outra uma coroa
calçada em sapatões pra caminhar.
Nem ligavam às maldizentes loas
dos machões, que falavam ao passar

por elas, muito embevecidas, lindas,
olhos nos olhos, a paixão infinda
tão deslumbrante como o amor das rosas.

De noite, entre suspiros e artimanhas,
ficavam nuazinhas. E as aranhas
comiam-se nas teias pegajosas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Bodas

Nei Leandro de Castro



Com os dedos, quase bruto, vou tocar
a carnadura dos teus grandes lábios
e vou além explorador abrindo
as redondas clareiras do teu gozo,
onde entrarei com o ímpeto sereno
de macho que afaga e que deflora.
Quero te ver no cio, putana, virgem,
me machucando com os teus caninos,
afiando as garras no meu lombo.
Em represália, eu te parto ao meio,
coisa frágil que és, corça de louça,
que fustigada investe com tal fúria,
me engole todo, me mata, me mastiga
e me devolve trapo: homem após gozo.

domingo, 27 de junho de 2010

Cantata

Nei Leandro de Castro


Farei tudo que você quiser.
Serei palhaço, ladrão de mulher,
encantador de serpentes,
travesti: usarei tua calcinha e sutiã
para te ver rasgá-los com violência
e violentar-me numa suave manhã.
Serei besta, sodomita, uma fera
selvagem, em urros e pinotes
com os quadris lanhados de chicote.
Terno, dócil, cordeiro de Deus,
lamberei todos os teus pecados:
o feno e a palha dos teus pentelhos,
a fonte de sal dos teus sovacos,
o cheiro de curral amanhecido do teu sexo,
o poço profundo do teu ânus, agnus serei.
E serei fauno com flauta mágica,
vibrador, punho cerrado, pênis,
dedos da mão, dedos dos pés, língua ouriçada
pra não te deixar um só minuto descansada.
Demônio, Satanás, Lúcifer, Belzebu,
te farei anjo sob todas as tentações
de te entregares todinha, mesmo o cu
que talvez queiras preservar para a eternidade.
A minha língua serão duas, dez, cem
para entrar, serpente, beija-flor, em todos
os orifícios que o teu corpo contém. Alicate
de torturador, os meus dedos
vão arrancar teu gozo, confissões,
gritos de dor e de prazer: – Me mate!
Vou cavalgar a tua bunda e o teu ventre
e tu também cavalgarás em mim, sem fim,
égua no cio, cavalo, ginete, centauro,
seremos dois perseguindo a mesma caça:
o estertor do gozo, a explosão da graça
de foder com luxúria e com a amor.
Vem. Farei tudo o que você quiser,
seja o que for.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mitologia erótica 4 – Orfeu

Nei Leandro de Castro




Depois de perder Eurídice

na saída de um inferninho,

Orfeu deu.

Castigo ou não de Zeus,

consta que Orfeu

jamais se arrependeu.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Mitologia erótica 3 – Narciso

Nei Leandro de Castro




Narciso só tinha olhos

para o seu rosto perfeito

e tremia de tesão

pelo seu corpo de macho.

Numa manhã de verão

Narciso se viu na fonte

e quis beijar os seus lábios

e afogar-se em desejos,

enquanto uma cotovia

– o coraçãozinho aos saltos –

se balançava e cantava

entre ramos de narciso.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mitologia erótica 2 – Eros

Nei Leandro de Castro




Eros nasceu do Caos – é o que dizem.

Outras fontes o apontam

como resultado de uma homérica suruba.

Seria filho de Íris ou de Ilítia

ou de Artemis Ctônia com Hermes.

Outra versão: filho de Afrodite

(Afrodite era fogo) com Hermes.

O poeta não tem nenhuma obrigação

de saber essas mitologias todas.

Só sabe que nos puteiros romanos

Eros era conhecido como Cupido

e tinha o pênis assim pequenininho

como de um anjo barroco.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Mitologia erótica 1 – Príapo

Nei Leandro de Castro




Príapo, filho de Dioniso em Afrodite,

tinha um pau descomunal e sempre duro.

Guardava pomares, vinhedos e jardins

e vivia se escondendo com Onan

que não entra em nenhuma mitologia.

Outros dizem que Hera, a megera,

numa cena suburbana de ciúme,

teria apertado o ventre de Afrodite

que a corneou com Zeus. Resultado:

o filho nasceu priápico.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Oração ao pé feminino

Nei Leandro de Castro


A Henfil, apóstolo dos pés.



Vem com pés de lã passear pelo meu peito,
vem de manso ou de repente, pé de anjo,
vem de qualquer jeito
domar o meu espanto de ser subjugado
sob os pilotis das coxas do objeto amado.
Vem com uma pulseira de cobre nos artelhos,
exorcizar os mil demônios
que se enroscam entre os meus pentelhos.
Vem ser lambido lambuzado entre os dedos,
vem girar os calcanhares no meu rosto,
torturador sádico querendo extorquir segredos.
Vem me submeter a tua tirania sem idade,
vem violentar e ser violentado,
cair de pé, em pé de igualdade.
Vem, com teu exército de dedos sobre mim perplexo.
Vem, pedestal. Vem sereníssimo,
esmagar a cabeça de serpente do meu sexo.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Primeira canção à bunda

Nei Leandro de Castro


Mundo dividido
em dois hemisférios, mundo
cortado por um suave regato
e um poço profundo.
Animal semovente
animalzinho
que se arrepia
ao menor carinho.
Cálice redondo, invertido
embalado nas sedas
do vestido.
Todas as bundas:
a da Raimunda,
a feia feliz
que só precisa de plástica
no queixo e no nariz.
A bunda de estrias
da maternidade
que desdobrou fibra por fibra
em tenra idade.
Vê:
a bundinha marcada
pela branca cicatriz
em V
da tanguinha de nada,
virando-se ao sol
como um comestível girassol.
Bunda achatada, tristebunda,
nas cadeiras da burocracia
que jamais terá aumento:
bunda mais-valia.
Bumbum da secretária
particular
que faz o executivo
ejacular.
Bunda fabricada
de silicone
do andrógino que uiva
insone, à procura
do fuzileiro naval
que tem maus modos
mas não faz mal.
Bunda mulata, abundante
orgulho de qualquer amante.
Bunda incrível, mágica
irreal, cheia de arte,
que faz o velho sátiro
morrer de enfarte.
Bunda negra, negritude,
de ébano, dura,
natureza viva
sob a negra moldura.

Bunda, glútea redoma
que guarda todo o fogo
de Sodoma.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Crônica familiar

Nei Leandro de Castro


Havia o marido e sua mulher.
Ela, Maria. O homem, José.

Maria, mais jovem, era de prendas
domésticas. Fazia rendas

e sob as agulhas guardava um segredo
que mesmo sonhá-lo causava-lhe medo.

Maria era jovem e tinha tesão.
O homem, mais velho, não tinha não.

Maria sonhava com falos suaves
ocultos em plumas, como o das aves.

José carpintava e de noite, cansado,
beijava-lhe o rosto, virava pro lado.

Na varanda da casa, José com a enxó
trabalhava um carvalho. Maria era só

desejo incontido, desejos impuros
(foder com um bruto, de pé, contra o muro).

Maria benzia-se, afastando da mente
o pecado mortal e inconsequente.

José labutava sobre a madeira.
Estava fazendo uma nova cadeira

para encostar o corpo reumático
nas noites em claro de homem asmático.

Um pombo azul, recendendo a lavanda,
pousou bem de leve naquela varanda.

Maria abismou-se na sua beleza,
a força selvagem sob a leveza

das plumas azuis. O rolo de lã
caiu do seu colo nessa manhã.

De pernas abertas, Maria sentiu
um leve arrepio de febre e de frio.

Sentiu que o pombo lhe penetrava
e vezes seguidas ejaculava

um sêmen translúcido nas suas entranhas.
E veio o gozo, com força tamanha,

que Maria se viu levitando além
das nuvens, do céu, do horizonte. E sem

perceber que José estava por perto,
deu um grito de gozo, de peito aberto.

José suspendeu o serrote no ar.
O pombo sumiu. Maria, ao voltar

a si, se compôs, arrumou o vestido
e olhou com ternura para o marido.

Ainda sentindo os mamilos em riste,
perguntou a José: por que estás triste?

Voyeurs desde o Natal de 2009