Amigos da Alcova

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quinta-feira, 8 de março de 2012

Pedro Soriano ou a Torre de Babel ou A Porra do Soriano

Guerra Junqueiro (1850-1923)



Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar inteiro e o cantar bem
Precisava viver como Matusalém
Dez séculos!
Enfim, nesta pobreza métrica
Cantemos essa porra, porra quilométrica,
Donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
As nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

*

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
Que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
Mastro do leviatã! Eminência revel!
Estando murcho foi a Torre de Babel!
Caralho singular! É contemplá-lo!
É vê-lo
Teso! Atravessaria o quê?
O Sete-Estrelo!!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
Juro que ninguém viu tão formidável porra!
É uma porra, arquiporra!
É um caralhão atroz
Que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
E, ainda assim, fica o caralho preciso
Para foder, da Terra, Eva no Paraíso!

É uma porra infinita, é um caralho insonte
Que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.

*

Oh, caralho imortal! Glória destes lusos!
Tu poderias suprir todos os parafusos
Que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
Em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
─ Nada, nada contém a porra do Soriano!!


*

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
Que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
Esta porra infeliz, esta porra precita,
Judia errante atrás de uma crica infinita??
─ Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe há de abrir talvez um dia um terremoto
para que deságue, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha!!!

*

A porra do Soriano é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
Onde ela começa?
Onde é que termina
Essa porra, que estando em Braga, está na China,
Porra que corre mais que o próprio pensamento,
Porque é porra de pardal e porra de jumento??
Porra!
Mil vezes porra!
Porra de bruto
Que é capaz de foder o Cosmos num minuto!!!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Pátria

Guerra Junqueiro (1850-1923)


Cena XVI




O espectro de D. João V, velho, asqueroso, idiota, meio paralítico.
Tartamudeia desconexamente, embrulha a ladainha com a Martinhada,
engole uma hóstia santa, depois uma pastilha afrodisíaca,
geme, chora, dá um arroto, baba-se e desaparece.

               O DOIDO, na escuridão

Mora num convento, com onze mil freiras,
um bode doirado, chamado Sultão:
são moças as monjas, loiras ou trigueiras,
e o bode frascário como um garanhão.
Ao dar meia-noite, com fúria insensata,
na torre da igreja dobra o carrilhão;
martelam os sinos badalos de prata,
de imunda, de horrível configuração!...
Milheiros de luzes, brandões macerados
tremulam no templo.. Que imenso clarão!
Faíscam diamantes, lampejam brocados,
incenso da Arábia voa em turbilhão!
Os santos e as santas, alfaias e altares,
é tudo oiro virgem, que cintilação!
Crepitam os fogos de gemas solares,
topázios da Pérsia, rubis do Industão.
Debaixo dum pálio de lhama purpúrea
levanta-se um leito rútilo e pagão:
o leito do bode, Senhor da Luxúria,
com mais pedrarias que o de Salomão.
Já o órgão reboa, frementes e nuas,
as onze mil monjas vêm em procissão...
Os olhos de chama, traseiros de luas,
rezando palavras de abominação!...
Mitra coruscando, sedas fulgurosas,
a cruz sobre o peito, báculo na mão,
conduz a teoria das monjas ansiosas
um bispo castrado, que é seu guardião.
O bode rebrame no leito de pluma...
acercam-se as freiras... e o bispo capão
entrega-as ao bode, dá-lhas uma a uma,
com ar de respeito, com veneração...
São onze mil noivas, são onze mil bodas...
Formidavelmente gira o carrilhão...
E o monstro lascivo padreia-as todas,
num delirium tremens de fornicação!
Depois de execrando, bruto cavadoiro,
o bode, desfeito de devassidão,
toma um semicúpio numa concha de oiro,
em água benzida pelo capelão.
E, sinos calados, extintas as luzes,
entregues as freiras ao seu guardião,
persigna-se o bode, fazendo três cruzes,
e em paz adormece como bom cristão.
E ao cabo duns meses, final de tais contos,
as monjas nas celas, com toda a razão,
parem arcebispos, mitrados e prontos,
exemplo mui alto de grã devoção!...

Voyeurs desde o Natal de 2009