Amigos da Alcova

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domingo, 27 de março de 2011

Bacante III

Anibal Beça (1946-2009)



Leite de mulher amada
é como lua crescente ,
tetas de mel saliente,
feito de uva rosada.

Mais belo em sua nascente
rio de torrente domada;
solo de frauta doirada
delírio vivo de crente.

Por bebê-lo, hei renascer,
no olor de louro buquê:
vinho suave de beber.

Bom na Germânia, porque
de origem, nas videiras
ouve-se a uva crescer!

domingo, 15 de agosto de 2010

Ária Più Soave

Anibal Beça (1946-2009)



As minhas mãos são pentagramas
acordando sons no teu corpo.
Ponta de dedos ímã o tato se vai
percutindo notas descobrindo poros
um toque de cheiro no silêncio úmido.

Nos teus cabelos teço a fina partitura
feita de duas claves:
A mão direita
sola um sol agudíssimo
na tua verbena escondida;
a esquerda se faz em fá
o grave fado
o gesto do teu tesão
fala no meu pulsar.

(Um sopro morno fala baixo
no bafo abafado em tua boca)

O suor dos nossos corpos
– enquanto garoa no lençol –
lava por um instante
o tempo de um ritmo sem metrônomo
um cheiro concreto de amêndoas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Bacante I

.
Anibal Beça (1946-2009)


O mar lava a concha cava
e cava concha lava o mar
como a língua limpa lava
tua concha antes de amar.

Delírio da estrela-d’alva
mistério da preamar
vinda e volta abrindo a aldrava
da concha do paladar.

Oh minhas parcas de mel!
Eu me afogo em mar de vinho
à espera de algum batel.

Sou cantador de cordel:
estórias sabor marinho
bacantes da moscatel.

Voyeurs desde o Natal de 2009