Amigos da Alcova

sábado, 18 de julho de 2026

Amar em aparelhos

 

Alex Polari

 

Era uma coisa louca

trepar naquele quarto

com a cama suspensa

por quatro latas

com o fino lençol

todo ele impresso

pelo valor de teu corpo

e a tinta do mimeógrafo.

 

Era uma loucura

se despedir da coberta

ainda escuro

fazer o café

e a descoberta

de te amar

apesar dos pernilongos

e a consciência

de que a mentira

tem pernas curtas.

 

Não era fácil

fazer o amor

entre tantas metralhadoras

panfletos, bombas

apreensões fatais

e os cinzeiros abarrotados

eternamente com o teu Continental,

preferência nacional.

 

Era tão irracional

gemer de prazer

nas vésperas de nossos crimes

contra a segurança nacional

era duro rimar orgasmo

com guerrilha

e esperar um tiro

na próxima esquina.

 

Era difícil

jurar amor eterno

estando com a cabeça

a prêmio

pois a vida podia terminar

antes do amor.

 


sábado, 20 de junho de 2026

Vida cava

 

Maria Lúcia Dal Farra

 

Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.

 

Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê —
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.

Ah que saudade desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!

 

 

domingo, 3 de maio de 2026

Sereníssima

 

Para Jack Kerouac,

in memorian

 

Ele me chupando

A vida está no prelo

Ela parindo

A vida está no prelo

Carregando todo peso do mundo

A vida está no prelo

Borrando a maquilagem

A vida está no prelo

Afiando os dentes

A vida está no prelo

Abençoando as putas

A vida está no prelo

 

Desdentados sorrindo

A vida está no prelo

Escritor sem teto

A vida está no prelo

Por minutos, no banho

A vida está no prelo

Escritor na montanha

A vida está no prelo

Recluso

A vida está no prelo

 

Coelhinha da Playboy

A vida está no prelo

Vomitando suas joias

A vida está no prelo

Atravessando a rua

A vida está no prelo

 

Pagando as dívidas

A vida está no prelo

Comprando conforto

A vida está no prelo

Conhecimento é poder

A vida está no prelo

Poder vem com política

A vida está no prelo

 

O que me mata não me fortalece

A vida está no prelo

Eu sei de toda dor

A vida está no prelo

Que me consome com vermes invisíveis

A vida está no prelo

Por isso não chego perto do deus platinado

A vida está no prelo

 

Porque continuo a arder

...ON THE ROAD.

 

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Teu corpo é lua e eu sou luar, na areia

 Walmir Ayala (1933-1991)

 

Teu corpo é lua e eu sou luar, na areia

passeamos o ardor que se extenua

no céu concreto de uma forma nua

que empalidece no que se incendeia.

 

O espaço metafísico da rua

deserta, onde projeto a nossa teia

de mútua solidão, ao céu se alteia

onde eu sendo luar teu corpo é lua.

 

E infiltro-me em teu ser como doença,

e te sugo o vigor, a própria rosa

do sangue, e te conduzo à renascença.

 

E o vampirismo em que este ardor se dosa

prolonga-se em febril convalescença

e te restaura o viço enquanto goza.

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Coito

 

Ferreira Gullar (1930-2016)

  

Todos os movimentos
           do amor
           são noturnos
mesmo quando praticados
           à luz do dia

Vem de ti o sinal
           no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
           em seu fosso:
           na treva, lento,
           se desenrola
                       e desliza
em direção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
envolve-te
em seus anéis
corredios
beija-te
a boca em flor
e por baixo
com seu esporão
te fende te fode

e se fundem
no gozo
depois
desenfia-se de ti

a teu lado
na cama
recupero a minha forma usual


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