Amigos da Alcova

domingo, 2 de maio de 2021

Os quatro elementos – O ar

 Vinicius de Moraes (1913-1980)

 

III – O ar

 

Com mão contente a Amada abre a janela

Sequiosa de vento no seu rosto

E o vento, folgazão, entra disposto

A comprazer-se com a vontade dela.

 

Mas ao tocá-la e constatar que bela

E que macia, e o corpo que bem-posto

O vento, de repente, toma gosto

E por ali põe-se a brincar com ela.

 

Eu a princípio, não percebo nada…

Mas ao notar depois que a Amada tem

Um ar confuso e uma expressão corada

 

A cada vez que o velho vento vem

Eu o expulso dali, e levo a Amada:

– Também brinco de vento muito bem!


 

domingo, 18 de abril de 2021

Os quatro elementos – A terra

 Vinicius de Moraes (1913-1980)


II – A terra

 

Um dia, estando nós em verdes prados

Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa

Ei-la que me detém nos meus agrados

E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

 

Com face cauta e olhos dissimulados

E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza

Como se os beijos meus fossem mal dados

E a minha mão não fosse mais precisa.

 

Irritado, me afasto; mas a Amada

À minha zanga, meiga, me entretém

Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

 

Mas eu que não sou bobo, digo nada…

Ah, é assim… (só penso) Muito bem:

Antes que a terra a coma, como eu.


 

domingo, 4 de abril de 2021

Os quatro elementos – O fogo

 Vinicius de Moraes (1913-1980)


I – O fogo

 

O sol, desrespeitoso do equinócio

Cobre o corpo da Amiga de desvelos

Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pelos

Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.

 

E ainda, ademais, deixa que a brisa roce

O seu rosto infantil e os seus cabelos

De modo que eu, por fim, vendo o negócio

Não me posso impedir de pôr-me em zelos.

 

E pego, encaro o Sol com ar de briga

Ao mesmo tempo que, num desafogo

Proíbo-a formalmente que prossiga

 

Com aquele dúbio e perigoso jogo…

E para protegê-la, cubro a Amiga

Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.


 

domingo, 14 de março de 2021

Marcileudas

          Zemaria Pinto

Para o Marcileudo Barros (1951-2015)

 

 

1

 

Meninas não querem menos

do que o mais que eu posso dar.

Isso gera um descompasso

entre o dar por amor

e o receber para amar.

 

2

 

O menino aos 13 anos

descobriu que era menina.

Hoje aos 15 ele definha

lembrando com amargura

a única vez na vida

que transou sem camisinha.

 

3

 

Meninas não têm tino

meninos não têm juízo.

Álcool, maconha, coca

fazem parte da rotina:

quando a cabeça não pensa

o cu padece e amofina.

 

4

 

Pelas esquinas, meninas

e meninos fazem ponto.

Luzes, cores, gargalhadas,

carrões parando pra ver,

são todos muito felizes...

Quem quiser que escreva um conto.

 

5

 

O trombadinha na esquina

deixa passar a velhinha

para então, como um felino,

tomar-lhe a bolsa e o cordão.

 

Na fuga, encontra uma Ronda,

que lhe dispara um balaço,

abrindo um baita buraco

na altura do coração.

 

O corpo no chão caído,

a velhinha se aproxima,

fazendo o sinal da cruz;

e com o dedo em riste aponta

 

o polícia matador,

balbuciando este mantra:

era só uma criança...

era só uma criança...

 

6

 

Xana, xibiu, xoxota

xereca, concha, xavasca

priquito, racha, tabaca

vulva, vagina, vaso

borboletinha, buceta

cona, crica, bacurinha...

 

São nomes que identificam

a fonte do mel da vida.

Entre todos eu prefiro

o que melhor qualifica:

me devora, perseguida!

 

7

 

Prisioneira em seu castelo,

a princesa conta os dias

para um príncipe encantado

em cururu transformado

vir resgatá-la dali.

 

No castelo o que não falta

é cururu dando sopa:

de tanto beijar os sapos,

a princesa agora ostenta

a flor de um câncer na boca...

 

 

Manaus, 30 de setembro de 2015


domingo, 31 de janeiro de 2021

O beco estreito

                                          Leandro Gomes de Barros (1865-1918)

 

 

Mote

Qual será o beco estreito

que três não podem cruzar?

Só entre um, ficam dois,

ajudando a trabalhar!

 

Glosa

Frei Bedegueba dizia

a Frei Manzapo, em disputa:

– Existe uma certa Gruta

onde hei de ter moradia.

Hei de conhece-la um dia,

embora quebre o Preceito.

Vou penetrá-la direito,

para a verdade saber,

pois preciso conhecer

qual será o beco estreito.

 

Dizem que tem pouca altura

e fica no pé dum Monte.

A entrada é uma Fonte:

vou medir sua largura!

Para saber-lhe a fundura

vou lá dentro mergulhar.

Para me certificar,

não podendo entrar os três,

só entra o Cabo-pedrês,

que três não podem cruzar.

 

Um Padre já me contou

que foi dar uma caçada

e, nessa Mata fechada,

viu um Bicho e não matou!

De dentro, uma Voz gritou:

– Padre, dizei-me quem sois!

Podereis entrar depois,

Respondendo ao que pergunto:

Mas, dos três que vejo juntos,

só entre um, ficam dois!

 

Um Monge, de lisa fronte,

também já contou a mim:

– Já brinquei nesse Capim,

já ressonei nesse Monte!

Quase sempre a essa Fonte

Venho eu e mais um Par:

os dois não podendo entrar,

por serem moles e bambos,

entro só, ficam ambos

ajudando a trabalhar!



sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

De volta do baile

Olavo Bilac (1865-1918)

 

Chega do baile. Descansa.

Move a ebúrnea ventarola.

Que aroma de sua trança

Voluptuoso se evola!

 

Ao vê-la, a alcova deserta

E muda até então, em roda

Sentindo-a, treme, desperta,

E é festa e delírio toda.

 

Despe-se. O manto primeiro

Retira, as luvas agora,

Agora as joias, chuveiro

De pedras da cor da aurora.

 

E pelas pérolas, pelos

Rubins de fogo e diamantes,

Faiscando nos seus cabelos

Como estrelas coruscantes.

 

Pelos colares em dobras

Enrolados, pelos finos

Braceletes, como cobras

Mordendo os braços divinos,

 

Pela grinalda de flores,

Pelas sedas que se agitam

Murmurando e as várias cores

Vivas do arco-íris imitam,

 

– Por tudo, as mãos inquietas

Se movem rapidamente,

Como um par de borboletas

Sobre um jardim florescente.

 

Voando em torno, infinitas,

Precipitadas, vão, soltas,

Revoltas nuvens de fitas,

Nuvens de rendas revoltas.

 

E, de entre as rendas e o arminho,

Saltam seus seios rosados,

Como de dentro de um ninho

Dois pássaros assustados.

 

E da lâmpada suspensa

Treme o clarão; e há por tudo

Uma agitação imensa,

Um êxtase imenso e mudo.

 

E, como que por encanto,

Num longo rumor de beijos,

Há vozes em cada canto

E em cada canto desejos…

 

Mais um gesto… E, vagarosa,

Dos ombros solta, a camisa

Pelo seu corpo, amorosa

E sensualmente, desliza.

 

E o tronco altivo e direito,

O braço, a curva macia

Da espádua, o talhe do peito

Que de tão branco irradia;

 

O ventre que, como a neve,

Firme e alvíssimo se arqueia

E apenas embaixo um leve

Buço dourado sombreia;

 

A coxa firme, que desce

Curvamente, a perna, o artelho;

Todo o seu corpo aparece

Subitamente no espelho…

 

Mas logo um deslumbramento

Se espalha na alcova inteira:

Com um rápido movimento

Destouca-se a cabeleira.

 

Que riquíssimo tesouro

Naqueles fios dardeja!

É como uma nuvem de ouro

Que a envolve, e, em zelos, a beija.

 

Toda, contorno a contorno,

Da fronte aos pés, cerca-a; e em ondas

Fulvas derrama-se em torno

De suas formas redondas:

 

E, depois de apaixonada

Beijá-la linha por linha,

Cai-lhe às costas, desdobrada

Como um manto de rainha…

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Eu sinto que nasci para o pecado

Gilka Machado (1893-1980)

  

Eu sinto que nasci para o pecado,

se é pecado, na Terra, amar o Amor;

anseios me atravessam, lado a lado,

numa ternura que não posso expor.

 

Filha de um louco amor desventurado,

trago nas veias lírico fervor,

e se meus dias à abstinência hei dado,

amei como ninguém pode supor.

 

Fiz do silêncio meu constante brado,

e ao que quero costumo sempre opor

o que devo, no rumo que hei traçado.

 

Será maior meu gozo ou minha dor,

ante a alegria de não ter pecado

e a mágoa da renúncia deste amor?!…


sábado, 14 de novembro de 2020

Se tu viesses ver-me...

Florbela Espanca (1894-1930)

 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços...

 

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca... o eco dos teus passos...

O teu riso de fonte... os teus abraços...

Os teus beijos... a tua mão na minha...

 

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

 

E é como um cravo ao sol a minha boca...

Quando os olhos se me cerram de desejo...

E os meus braços se estendem para ti...


domingo, 25 de outubro de 2020

Moreninha


Bruno Seabra (1837-1876)


– Moreninha, dás-me um beijo?
– E o que me dá, meu senhor?
– Este cravo...
– Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei de agora, meu senhor,
dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.

– Dá-me o beijo, moreninha,
dou-te um corte de cambraia.
– Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera co’a flor;
tanto pano por um beijo...
sai-lhe caro, meu senhor.

– Anda cá... ouve um segredo...
– Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre; eu falo muito,
toda mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo...
Pelos modos que lhe vejo
quer o meu beijo de graça.
Um segredo por um beijo?...

– Quero dizer-te aos ouvidos
que tu és uma rainha...
– Acha, pois? E o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?
– Quem dera que tu quisesses...
– Não duvide, que o farei;
meu senhor, case com ela,
a rainha o fará rei...

Casar-me?... Inda sou tão moço...
– Como é criança esta ovelha!
Pois eu p’ra beijar crianças,
adeusinho, já sou velha!



segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Opiniões

Guimarães Passos (1867-1909)

 

Um filósofo dizia

A um seu amigo querido,

Que jamais compreendia

Como um amante queria

Sempre o gozo repetido.

 

“É um abuso! E eu sempre vejo

A mesma coisa gozada

Ter sempre maior desejo,

Pois se o beijo é o mesmo beijo,

O beijo não vale nada...

 

Onde está a novidade?

O que ontem foi, hoje é.

Falo com sinceridade:

Não compreendo a vontade...

Você, que diz, seu José?”

 

Diz o outro: “Seu Raimundo,

Cada qual tem sua norma

De gozar por este mundo:

A mesma coisa no fundo,

É diferente na forma”.

 

 

domingo, 20 de setembro de 2020

Décima IV

António Lobo de Carvalho (1730-1787)

Improvisado na igreja da Madalena, assistindo com um seu amigo à pomposa festa que aí faziam as colarejas de Lisboa

 

Todos quantos aqui estão,

excepto somente nós,

são do vício mais atroz

a mais perversa união:

o que é homem é cabrão;

as mulheres, sem disputas,

têm três diversas condutas:

as velhas são feiticeiras,

as outras, alcoviteiras,

as raparigas são putas.



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