Amigos da Alcova

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domingo, 5 de outubro de 2025

Poema vertigem

 

Roberto Piva (1937-2010)

 

Eu sou a viagem de ácido

nos barcos da noite

Eu sou o garoto que se masturba

na montanha

Eu sou tecno pagão

Eu sou Reich, Ferenczi & Jung

Eu sou o Eterno Retorno

Eu sou o espaço cibernético

Eu sou a floresta virgem

das garotas convulsivas

Eu sou o disco voador tatuado

Eu sou o garoto e a garota

Casa Grande & Senzala

Eu sou a orgia com o

garoto loiro e sua namorada

de vagina colorida

(ele vestia a calcinha dela

& dançava feito Shiva

no meu corpo)

Eu sou o nômade de Orgônio

Eu sou a Ilha de Veludo

Eu sou a Invenção de Orfeu

Eu sou os olhos pescadores

Eu sou o Tambor do Xamã

(& o Xamã coberto

de peles e andrógino)

Eu sou o beijo de Urânio

de Al Capone

Eu sou uma metralhadora em

estado de graça

Eu sou a pombagira do Absoluto

Ilha Comprida, 1991

 

domingo, 30 de abril de 2023

Os anjos de Sodoma

 

Roberto Piva (1937-2010)

 

Eu vi os anjos de Sodoma escalando

um monte até o céu

E suas asas destruídas pelo fogo

abanavam o ar da tarde

Eu vi os anjos de Sodoma semeando

prodígios para a criação não

perder o ritmo de harpas

Eu vi os anjos de Sodoma lambendo

as feridas dos que morreram sem

alarde, dos suplicantes, dos suicidas

e dos jovens mortos

Eu vi os anjos de Sodoma crescendo

com o fogo e de suas bocas saltavam

medusas cegas

Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e

violentos aniquilando os mercadores,

roubando o sono das virgens,

criando palavras turbulentas

Eu vi os anjos de Sodoma inventando

a loucura e o arrependimento de Deus

 

sábado, 1 de janeiro de 2022

A Coreia é na esquina

  

Roberto Piva (1937-2010)

 

Assim não dá meu tesão

eu começo a sonhar com você todas as tardes

& você lá em Santos

comendo amendoim

vendo anjos nas cebolas do mercado

navios entram & saem do porto polidos

eu corto as veias & rego meu queijo Minas

você me ama eu sei & me envaideço

amoras jorram a beleza anarquista de suas

              coxas molhadas

o peixe-espada pode lhe declarar amor

eu penso nessas ilhas perfumadas

mas o caminho de volta eu só conto

a este urubu em carne viva

que grasna na sacada.

 

domingo, 20 de agosto de 2017

O jardim das delícias



Roberto Piva (1937-2010)


Teu sopro no corrimão anatômico sobre meus olhos
aquelas serpente com escamas de cicuta sacudida entre
tuas coxas de megatons
É um meio seguro de não mais aconchegar a mais serena
catástrofe
como um espelho de vingança acordado por um bater
de asas
& um piano que rola até o limite de doces raízes
onde se completam as cachoeiras das trepanações
TEUS OLHOS SÃO GRITOS DEMASIADO REDONDOS
Meu circuito de trincheiras pela mesma razão de ninho
de águia
tempo em que os 12 andares do sexo correm persianas
de galalite
relâmpagos do mesmo líquen magnético de tua boca
de quinze anos
quando não vais à escola para assistires Flash Gordon
& ler Oto Rank nas esquinas
o mundo continua sendo um breve colapso logo que as
pálpebras baixem
& meu amor por ti uma profanação consciente de eternas
estrelas de rapina


sábado, 26 de novembro de 2011

Poema com brócolis

Roberto Piva (1937-2010)



o cacique tomava chá com seu corpo pintado.

o pajé dançava com a casca do

gambá.

você brincava com meu caralho.

Macunaíma & Alice no país da

Cobra Grande.

mesma estrutura narra-ação &

barroco elétrico pinçando

estilhaços de visões.

palmeiras de cobre.

meu cu como bandeira

do navio pirata.

a lua começa a cantar.

sábado, 15 de outubro de 2011

Soneto 241 Ensaístico

Glauco Mattoso


Chamemo-la de fase iconoclasta,
à minha poesia antes de cego.
Pintei, bordei. Porém não a renego.
Forçou-me a invalidez a dar um basta.

A nova não é casta, nem contrasta
com velhas anarquias. Só me entrego
ao pé, onde em soneto a língua esfrego.
Chamemo-la de fase podorasta.

Mas nem por isso é menos transgressiva.
Impõe-se um paradoxo na medida
da forma e da temática obsessiva:

Na universalidade presumida,
igualo-me a Bocage, Botto e Piva.
Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Chovia no teu coração de merda

Roberto Piva (25/09/1937-03/07/2010)



Big Jim Colosimo / metranca do Saber / Aureus asinus against Catilina / Bugios no quintal / Ida & volta do Cu Constelado / Mambo no sintetizador do Timbuctu / varíola entre os piratas / varrido pelos piratas / Long John Silver / 15 homens no baú do morto / Exu Gargarejo / fodendo o garoto no buritizal / cachaça & vaselina / espelhos nascendo num outro tremor / anjo doente & licoroso / luas de bolso / Riobaldo & Diadorim: heróis-escaravelhos / com quantos punhais construiremos o quarteirão da Paixão? / cuíca-cascavel / garoto bêbado chupando pau do travesti / Santa Cecília by night / cafungando / Jorge de Lima com seu girassol de coalhada fresca / Batuque / Exu comeu Tarubá / John Cage & a violeta de Parma / deus submerso / de manhã estrelas verdes / Vous êtes de faux négres.

sábado, 8 de maio de 2010

Visão de São Paulo à noite

Poema Antropófago sob Narcótico

Roberto Piva



Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
          acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
          chupando-se como raízes

Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
          feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
          definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apoia em nada
eu não me apoio em nada

sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cu nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos

beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
          enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola

eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
          partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
          vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
          abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
          colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta

chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopeias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
          correrias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
          entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
          e o Estrondo

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Em 68 só fiz 69


Roberto Piva


Coleridge /canção do velho marinheiro / pena de pavão pavoneia o pálio / carnèfice / Netuno & sua tribo / boa festa verão / medusas & mercados abandonados / Guido Cavalcanti / lo piacer mi stringe tanto / na gandaia & na missa dos tarados / cachos de glória & ouro / gatos tranquilos / comunas dando o cu pela primeira vez / hortelã-pimenta / águias noturnas / mascates mascarados / Verhaeren no banho quente / última aparição de Demeter em Delfos / folhas amarelas no retrato / lebres / cabeleira de amianto das sereias / javalis no largo da Pólvora.

Voyeurs desde o Natal de 2009