Amigos da Alcova

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A poesia do sexo

Marco Adolfs



Minhas mãos percorrem o teu tesão;
Falo primeiro, em penetração;
Meus sussurros são ácidos e metálicos;
Línguas em estalos priápicos;
Uma flor abre-se no meio do teu corpo;
Vermelha, orvalhada, cheirosa... segredo;
Vou entre carícias orquestradas e pensadas;
Fazendo-te derreter nos lençóis;
Meu falo, intacto no ato, é teu Sol;
Naquele movimento suave de vai-e-vem;
Em raios, suados...
Teus gritos; meus ditos; no vício de amar;
Na espera...hum!...na espera...ha!...
Do teu e do meu gozar...
Aaahhh!!!...O verbo Amar.

domingo, 24 de julho de 2011

Sob a lona

Leila Miccolis




Um dia a mulher barbada

me chamou.

Perguntou se eu não queria

umas entradas para o circo,

se eu preferia o palhaço ao anão,

se iria à tenda dela.

Desde então,

foi em seu peito cabeludo,

em suas barbas macias

que após o show, toda noite,

eu me afundava

e dormia.

terça-feira, 19 de julho de 2011

donzela, não temas

Hélio Póvoas Junior




donzela, não temas
meu assédio parco
em galanteios ébrios

donzela, não queiras
meu amargo trato
em questões ligeiras

donzela, não teimes
em quere-me fruto
de galhos inférteis

donzela, não sejas
assim tão donzela
de mim tão poeta

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Caminhos

Stela Fonseca



Sobre meu corpo

suas mãos


carinhos


abrem os caminhos

que levam ao prazer.

domingo, 10 de julho de 2011

Na lua cheia

Simão Pessoa



De madrugada

veio o boto e emprenhou

a empregada



Maior confusão

ver que o tal do boto

era o patrão

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Exigência

Leila Miccolis




Meu homem eu quero,

enquanto puder,

molhado e úmido

como mulher.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sonetos Luxuriosos – 26

Aretino (1492-1556)



Estes nossos sonetos do caralho,
Que falam só de cu, caralho, cona,
E feitos a caralho, a cu, a cona,
Semelham vossas caras de caralho.

Trouxestes cá, poetas do caralho,
As armas para por em cu e cona.
Sois feitos a caralho, a cu, a cona,
Produtos de grã cona e grã caralho.

E se furor, oh gente do caralho,
Vos falta, ficareis no pica-cona,
Como acontece amiúde co’o caralho.

Aqui termino esta questão da cona
P’ra não entrar no bando do caralho,
E, caralho, vos deixo em cu e cona.

Quem perversões tenciona
Aqui nestas asneiras logo as lê.
Que mau ano e mau tempo Deus lhe dê.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A carnal tentação desenfreada

Nicolau Tolentino (1740-1811)



A carnal tentação desenfreada
Que ao sangue quente alta justiça pede,
Fez com que eu, embrulhando-me na rede,
Subisse de uma puta a infame escada.


Ligeiras pulgas saltam de emboscada
Fartando em mim de sangue humano a sede;
Arde a vela pregada na parede,
Já de antigos morrões afogueada.


Saiu da alcova a desgrenhada fúria
Respirando venal sensualidade,
Vil desalinho, sórdida penúria:


Muito pode a pobreza e a porquidade;
Abati as bandeiras à luxúria,
Jurei no altar de Vênus castidade.

domingo, 26 de junho de 2011

Pornográfico

Leo Pinto



Todo mundo quer ler pornografia,
todo mundo quer ver, mas não assume,
e em mis enganos bobos se resume
nosso desejo pela putaria!

O que há de errado, pois, na sacanagem?
Se todo mundo gosta, que pudores
são estes que nos travam a engrenagem
do tesão em seus mais finos sabores?

Bucetas e caralhos, censurados,
desmascaram a tola realidade
de seres que, insistindo-se castrados,

destroem-se e, corroídos de vontade,
enquanto bons prazeres lhes escorrem,
perdidos em seus preconceitos morrem!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Soneto 374 Ninfeta

Glauco Mattoso


 
Dedico-te esta dádiva, ó Dolores,
musa divina, diva doidivanas!
Recebe de presente estes sacanas
bichinhos de pelúcia chupadores!
 
Serão teus companheiros quando fores
brincar de bestialismo. Sem as xanas
de tuas amiguinhas ou das manas,
te sentes tão sozinha e tens tremores!
 
Coitada da Dolô! Quem dera fosse
dotada duma mansa passarinha!
Mas não! É uma ninfômana precoce!
 
Já desde pequenina se entretinha
em jogos. Ao invés da bala doce,
chupava e era chupada na tetinha.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

No ritmo dessa festa

Bruna Lombardi



Vem cá, meu bonito
que eu te solto os arreios
que eu te faço, te encaro
e te alucino
a minha paixão não cabe no teu seio
não cabe no teu quarto
o meu destino.
Nem cabem na palma da minha mão
todas as linhas
que eu vou traçando nos caminhos
todas as contradições em que acredito
a liberdade que te proponho
a loucura de improvisar ninhos
e desprender os pássaros do sonho.

Que é que há, meu bonito
que medo é esse
que te segura à terra
te prende e até parece
que você não tem luar.
Vem pra cá te enfeitar de festa
que eu vou te esfregar com areia
que eu vou te marcar na testa.

Vou aprender teu jeito esquisito
de mexer com essas franjas
de balançar as arestas
te mostrar como se dança
o ritmo desse deboche
Tem que ter ferro e trato
Tem que ter desejo ardido
pra poder soltar esse bicho
escondido nesse mato.

Tem que soltar essa fera
que dentro do peito te amarra
pra dançar como se dança
no ritmo dessa farra.

Vem cá meu bonito prepara
o bote. Afia teu corpo pro corte
Vem, se larga se espalha
que eu sei lidar com teu porte
Vem, que eu sou da tua laia.

domingo, 12 de junho de 2011

Soneto IX

Bocage (1765-1805)



Arreitada donzela em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras sutis pachocho estreito.

De louro pelo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.

A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.

Como é ainda boçal, perde os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A uma mulher mal fodida, e, por isso, muito ranzinza e muito malvada

Paulo Franchetti



Mordendo o próprio rabo a pescadinha
É servida em Lisboa, pelas tascas;
Haja sol, faça frio, uivem borrascas,
E comida, co’o rabo na boquinha.

Ali encontrei u’a dona bem mesquinha,
Dos livros beliscando algumas lascas,
De alguns velhos papéis roendo as cascas,
Até julgar-se em seu saber rainha.

E era tão feia, que nem para freira
Servira. E escrota de corpo e tão fera
De humor, que alguém lhe disse um dia: “Espera!

Por que, ao invés de cuspir tanta asneira,
Já que ninguém te quer comer a cona,
Não tapas co’a bundinha essa bocona?”

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Poema d’amiga

Chico Doido de Caicó (1922-1991)



Amiga de bem trepar

Queres foder hoje

Até o mundo acabar?

Ou queres foder depois

Pros lados d’além-mar?

Amiga de bem querer

Queres ser chupada hoje

Até parar de chover?

Ou que queres ser chupada depois

Pra ser fodida e foder?

Oh amiga, minha amiga,

O que seria de mim sem você...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A rave

Marco Catalão



Só o ruído é real, só o vácuo existe
nessa estrambótica estroboscopia
que os jovens chamam rave, e que consiste
numa estridente agitação vazia.

Pois se não fosse assim, o que daria
aos rostos esse aspecto ansioso e triste?
Dançam, se drogam, beijam... Raia o dia,
e o intermitente bate-estaca insiste...

Mas que velho convence a juventude?
Sem medo, sem pudor, sem compromisso,
desperdiçando as forças e a saúde,

seguem na festa, em ritmo acelerado.
Mas o foda não é nem nada disso...
O foda é eu não ter sido convidado!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O beijo

Marcileudo Barros



O beijo não abre

toda válvula de escape

do desejo.

Até porque ele é o começo.

E quando ele é o fecho,

a apoteose,

ou não temos o desejo

ou temos o gozo precoce.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Recado

Riany Leão


Pra quem não sabe:

a única perversão

é foder

sem ter vontade

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Cadela

Marise Pacheco



Há dias assim

em que me sinto como

uma pomba-gira

alucinada doida

no cio



e haja homem

e haja mulher

pra manchar os meus lençóis

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nesse bar repleto de idiotas nós dois

Paul Verlaine (1844-1896)



Nesse bar repleto de idiotas nós dois,
Só nós dois encarnávamos o tal horrível
Vício de “gostar de homem” e sem perceberem,
Íamos fodendo esses babacas de ar bem-posto,
Seus amores normais e sua moral fingida.
Enquanto isso tocávamos punheta a mil,
De lado, de frente, em diagonal, sem que
Ninguém se desse conta, envoltos em fumaça
Dos cachimbos (como certa vez Zeus com Hero).
Nossas picas, como narizes Karragheus*
Que nossas mãos secassem num gesto gostoso,
Espirravam jatos de porra sob a mesa.


(Trad. Heloisa Jahn)

(*) Personagem oriundo do teatro turco;
tipo esperto e vulgar, com um membro de grandes dimensões.

sábado, 14 de maio de 2011

Ânsia

Anne Lucy



Quero me enroscar nos teus braços
Mergulhar nos teus abraços
Percorrer tuas entranhas
Desfalecer em tua cama
Degustar tua saliva
Teus fluidos, tuas manias
Decorar teus movimentos
Tuas ações, teu lamentos
A tua pele quero comer
Quero cheirar, quero beber
Quero tua temperatura
Pra minha apatia derreter
Quero tua voz e tuas palavras
Penetrando-me em brasa
E o teu verdadeiro eu
Desnudando os segredos teus
Tenha coragem de me aceitar
Em troca prometo não te amar!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu te amo

Candida Alves



Colando o meu rosto
no pelo macio do teu peito
não posso encontrar
um defeito na vida

Meu corpo estreito
sem jeito
te cobre com força
e te beijo

Teu beijo
me escorre na cara
escancaras na boca
um bocejo

e dormes...

Respiro com calma
            com tara
me sento em teu colo
                  te olho
não fico com medo

Procuro teus dedos
que toco
e enrosco nos meus
pensando em voz alta
meu Deus eu amo esse cara
                            esse homem
então sinto fome...


Vou à geladeira
encontro uma pera
e como
sentada na pia

Um gato que mia lá fora
me lembra na hora
meu gato sozinho na cama

Eu corro e te encontro
com os olhos fechados,
suando
sonhando comigo talvez

e sigo te olhando, babando,
pensando

meu Deus como eu amo
e proclamo:
sou tua, sou tua
enquanto adormeço ao teu lado
tranquila
e completamente nua

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O ser e o não ser

Messody Benoliel (1933-2003)



Anseios incontidos se revelam
a cada instante em que sonho contigo
e os mares complicados não nivelam
as ondas escolhidas como abrigo.

As horas vão passando e as noites selam
os lúdicos orgasmos que fustigo
entre o ser e o não ser, pois se revelam,
prenunciando assim desejo antigo.

Espelhos não refletem tua imagem
tão bem guardada sobre o travesseiro,
passaporte seguro da mensagem

aos céus do meu prazer – ebulição –
onde serás o único e primeiro
e eu, súdita, coberta de tesão.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Zoofilia – Bode

Nei Leandro de Castro


Grande fornicador, o bode

cheira o mijo das cabras

arreganha os beiços

e fode fode fode fode.

sábado, 30 de abril de 2011

Soneto do século de ouro espanhol

.


– Que quer de mim, senhor? – Filha, foder-te.
– Diga com mais rodeios. – Cavalgar-te.
– Diga ao modo cortês. – Então, gozar-te.
– Diga ao modo pateta. – Merecer-te.

– Bem hajas que consigo compreender-te
e mal haja quem peça de tal arte.
Depois, o que farás? – Arregaçar-te
e com a pica alçada acometer-te.

– Tu sim hás de gozar meu paraíso.
– Que paraíso? Eu quero é minha porra
metida bem no fundo do teu racho.

– Com que rodeio o dizes, tão precioso!
– Caluda, amor, que de prazer já morra,
fodendo-te eu por cima, tu por baixo.


(Trad. José Paulo Paes)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Que me venha esse homem

Bruna Lombardi



Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco
que me venha esse homem
que me arranque do sono
que me machuque um pouco.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cera & Nata para Desdêmona

Glauco Mattoso
(pra não dizerem que não canto as fêmeas)



Oh minha doce amada,
minha goiabada,
tão conspícua
quão conspúcia,
inconstante e mamada,
desnaturada e desnatada!
Oh minha desdenhosa,
divina, demoníaca
diva doidivanas,
como amo
tuas anas
quando me envenenas
com teus ventos;
tuas xanas
planas e plenas
de corrimentos;
tua prepúcia
que não posso
arregaçar
e teu regaço
que não passo
sem cabaçar!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Itamaracá

Simão Pessoa


Do ri(s)o negro cariado
surge o segredo cifrado:
que tal aquele programa,
ó com pinta de bacana?

Nos becos escuros ao longo,
meninotas vão mostrando
os peitos quase à deriva,
as bundas cheias de estrias.

Pedem dinheiro, cigarro,
balançam chaves de quarto,
esboçam um risinho triste,
que não agrada, agride.

Debruçam-se, constrangidas,
recebem a goma lasciva,
logo logo voltam à luta.
Que vida filha da puta!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Meus Amores

Luiz Gama (1830-1882)

Pretidão de amor,
Tão leda a figura
Que a neve lhe jura,
Que mudara a cor.

Camões – Endechas


Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa crioula, ou Tétis negra
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o inverno gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.

Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.
A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se distila o grato olor.

O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
– É coisa de sentir, não de contar.

Quando a brisa veloz, por entre anáguas
Espaneja as cambraias escondidas,
Deixando ver aos olhos cobiçosos
As lisas pernas de ébano luzidas.

Santo embora, o mortal que a encontra pára;
Da cabeça lhe foge o bento siso;
Nervosa comoção as bragas rompe-lhe,
E fica como Adão no Paraíso.

Meus amores são lindos, cor da noite,
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa crioula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Ao ver no chão tocar seus pés mimosos,
Calçando de cetim alvas chinelas,
Quisera ser a terra em que ela pisa,
Torná-las em colher, comer com elas.

São minguados os séculos para amá-la,
De gigante a estrutura não bastara,
De Marte o coração, alma de Jove,
Que um seu lascivo olhar tudo prostrara.

Se a sorte caprichosa em vento, ao menos,
Me quisesse tornar, depois de morto;
Em bojuda fragata o corpo dela,
As saias em velame, a tumba em porto,

Como os Euros, zunindo dentre os mastros,
Eu quisera açoitar-lhe o pavilhão;
O velacho bolsar, bramir na proa,
Pela popa rojar, feito em tufão.

............................................................................

Dar cultos à beleza, amor aos peitos,
Sem vida que transponha a eternidade,
Bem que mostra que a sandice estava em voga
Quando Uranus gerou a humanidade.

Mas já que o fato iníquo não consente,
Que o amor, além da campa, faça vaza,
Ornemos de Cupido as santas aras,
Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa.

domingo, 10 de abril de 2011

platônica

Zemaria Pinto


ai, que já me arde a febre do desejo
volúpia de te ver, tocar, amavelmente
no ritual cotidiano das tardes mais banais

          como não sonhar com teu colo pálido
          e a sarda que se espalha
          pelo teu braço infinito?

          as minas de rosáceas do teu peito
          espalham nervos na sala entorpecida
          pela pressa de chegar de onde se vem

          sempre – cotidianamente
          a carne dos teus lábios
          roçagando minha barba por fazer

          a língua desfaz-se em fogo
          adivinhando tua língua de silêncios 
          meu coração delira preces pagãs

          a palavra – um convite? um carinho?
          desaba dentro de mim
          borboleta abatida a escopeta

          um helicóptero sobre minha cabeça
          cavalga walkírias & fúrias
          fim do expediente

(amor? amor um cacete
você não existe
o tesão não resiste

você não precisa saber
que a vida não vale nada
sem você!)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Soneto XX

Bocage (1765-1805)



Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo, de moças mil) num só momento,
Inimigo de hipócritas e frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.

domingo, 3 de abril de 2011

A boa dieta

Friedrich von Logau (1604-1655)



Carlota dissera ao seu doutor

Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,

Embora à noite a coisa fosse mais sadia.

Sendo ela prudente, resolveu

Fazê-lo duas vezes ao dia:

De manhã, por prazer

De noite, por dever.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 30 de março de 2011

No corpo feminino, esse retiro

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)



No corpo feminino, esse retiro
– a doce bunda – é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha – a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

domingo, 27 de março de 2011

Bacante III

Anibal Beça (1946-2009)



Leite de mulher amada
é como lua crescente ,
tetas de mel saliente,
feito de uva rosada.

Mais belo em sua nascente
rio de torrente domada;
solo de frauta doirada
delírio vivo de crente.

Por bebê-lo, hei renascer,
no olor de louro buquê:
vinho suave de beber.

Bom na Germânia, porque
de origem, nas videiras
ouve-se a uva crescer!

terça-feira, 22 de março de 2011

A boca do meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)


Amo cada parte do teu corpo.
Mas tua boca, meu amor, a tua boca
Priva-me dos sentidos no torpor da excitação.
Teus lábios quando tocam os meus...
Arde em mim o desejo de entregar-te
O meu corpo, como se fosse a primeira vez.

Tua voz sussurrando em meu ouvido
Palavras ternas, obscenas, sacanagens
Me conduzindo a momentos selvagens,
Me deixa hipnotizada, de vontade de te ter.
Te ouço chamar meu nome: eu me rendo,
Estou no teu enlace, sou tua, faz amor comigo, faz...

Teu hálito. Ah!, teu hálito, meu amor
Como é bom acordar com a brisa fresca
Que tua boca emana pela manhã
Esse cheiro de aurora, de despertar, de tesão,
Cheiro que perfuma meu corpo, meu dia
Minha vida. Não me canso de cheirar tua boca!

E a tua língua. Tua língua na minha face
Sôfrega, me lambendo, regando a minha pele
Com tua saliva doce, de lúpulo e hortelã.
Tua língua no meu sexo, me lavando e me levando
Ao delírio do prazer: eu grito eu gemo eu choro e gozo
Na tua boca – e sorves o meu mel, teu alimento.

Na tua boca, meu amor, eu me perco. Não quero
Nunca me encontrar, nem beijar outra boca
Que não seja a tua, onde no teu beijo eu sou feliz
E em cada palavra pronunciada, regada de tesão
Misturada ao teu hálito fresco, eu me dou sem medo
Pedindo mais e mais a tua língua dentro de mim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Futuro do pretérito

Eliane Stoducto (?-2007)



Eu poderia ficar horas te escutando
tuas piadas, teus projetos, teus enganos.

Eu poderia te olhar horas a fio,
enquanto tu fosses desfiando
as histórias da avó e dos teus filhos...

E ficaria horas contemplando
o teu jeito meio bobo e te adorando...

Ah, eu ficaria, sei que ficaria...

Com a atenção dispersando eu te olharia
sorrindo com ternura e simpatia,
a mente vagueando em outros planos,
ansiosa, procurando a fantasia
de te ter dentro de mim...

Ah, eu faria tudo isso. Ah, se eu faria!

Depois, quando calasses, eu te levaria
para os brancos lençóis,
então serias o meu dono...

Mas, hoje não, meu querido,
estou com sono...

domingo, 13 de março de 2011

Não era mole – dois poemas do tempo da ditadura

Na moita
Teresa Jardim




botou tudo pra fora
meteu o pau
no corpo federal
e saiu todo faceiro
do banheiro
o soldado com o general



Artigo de fundo
Bráulio Tavares



Eu quero é a orgia!
A safadeza!
A indecência!

Deixo pros padres
e pros militares
               a continência!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Sonetos Luxuriosos – 4

Aretino (1492-1556)



Este caralho é mais do que um tesouro!
É o bem que pode me fazer feliz!
Este sim é que é bem de Imperatriz!
Vale esta gema mais que um poço de ouro!

Acode-me, caralho, que eu estouro!
Vê se encontras o fundo da matriz;
Um caralho pequeno se desdiz
Quando na cona quer guardar decoro.

Estás dizendo a verdade, ó mulher;
Quem caralho pequeno em cona enfia
Merece, de água fresca, um bom clister.

Esses devem foder cu, noite e dia.
Já quem o tem, como eu, brutal, feroz,
Somente na boceta se sacia.

                             Sim, é verdade. Mas
O caralho nos dá tanta alegria
Que nossa gula o quer na frente e atrás.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Zoofilia – Abelhas

Nei Leandro de Castro


Será o zangão

um plebeu afortunado?

Ele fode a rainha, sim,

mas depois morre fulminado.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Soneto 287 utópico

Glauco Mattoso



No fundo, o grande sonho masculino
é conseguir chupar a própria tora,
coisa que o chimpanzé faz toda hora,
e o homem tenta, em vão, desde menino.

Seja porque seu membro é pequenino,
ou porque o corpanzil não colabora,
o fato é que o machão lamenta e chora
o irônico, anatômico destino.

Parece que a utopia nua e crua
resume-se numa autofelação,
quem sabe a autofagia, que jejua...

O jeito vem a ser masturbação,
e o sonho sensual se perpetua,
enquanto a mulher crê que dá tesão...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Quem nunca chupou buceta não sabe o que está perdendo

Allan Sales



Há muito, eu desconhecia
Uma coisa tão gostosa
Divina e maravilhosa
Que nos dá só alegria
Renova nossa energia
Pois fique o amigo sabendo
Que pra quem vive sofrendo
E morrendo na punheta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

É tão sadio e gostoso
Degustar, lamber a xota
Pois só mesmo um idiota
Acha feio e perigoso
Quem for preconceituoso
Dessa parada correndo
Achando que é um ato horrendo
Desconhece tal faceta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Eu mesmo já fui assim
Desconhecendo tal fato
Mas hoje eu sou muito grato
Pois deram o toque pra mim
Pensava que era ruim
A seiva ficar bebendo
Pentelhos ficar comendo
Chupar grelo feito teta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Babacas deste Brasil
Idiotas puritanos
Vão tomar nos vossos ânus
Vão pra puta que os pariu
Pois só mesmo um imbecil
Acaba não percebendo
Como é bom ficar lambendo
A buça de uma ninfeta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Sei que a igreja condena
E muitos acham um horror
Os sábios lhe dão valor
Pois sabem que vale a pena
É diversão tão amena
Quando num tamo fudendo
É como fogo ardendo
Saborear sem careta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Chato é tirar dos dentes
Os insistentes pentelhos
Lambendo os lábios vermelhos
Das vulvas incandescentes
Gemem mulheres ardentes
Gozando, os lábios mordendo
Nos buscam sempre querendo
Tal brincadeira porreta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Os sapatões é que adoram
Pois não possuem um pau
É um ato universal
Mas que tantos ignoram
Se as xoxotas não devoram
A todos eu recomendo
Tal prazer é bom fazendo
Encarar a cara preta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Até D. Pedro I
O nosso monarca luso
Era um craque nesse uso
Nisso foi um costumeiro
A marquesa por inteiro
Ele chupava tremendo
Ficava a língua doendo
De fazer a carrapeta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Na certa não é errado
Também nojento não é
Pois quem gosta de mulher
Aprecia extasiado
Aqui dou meu atestado
Por isso sigo fazendo
Chupando vou aprendendo
A deixar de ser careta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

Aqui me despeço amigos
Pois já dei o meu recado
Chupar nunca foi pecado
Assino embaixo o que digo
Um palmo abaixo do umbigo
Há um prazer estupendo
Que é de degustar morrendo
Encarar a cara preta
Quem nunca chupou buceta
Não sabe o que está perdendo

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Lubricidade

Cruz e Sousa (1861-1898)



Quisera ser a serpe venenosa
Que dá-te medo e dá-te pesadelos
Para envolverem, ó Flor maravilhosa,
Nos flavos turbilhões dos teus cabelos.

Quisera ser a serpe veludosa
Para, enroscada em múltiplos novelos,
Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
E babujá-los e depois mordê-los...

Talvez que o sangue impuro e flamejante
Do teu lânguido corpo de bacante,
Da langue ondulação de águas do Reno

Estranhamente se purificasse...
Pois que um veneno de áspide vorace
Deve ser morto com igual veneno...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Teu sêmen na minha boca

Clara Nihil



semente do meu amor
repasto do meu desejo
sumo do meu prazer

alimento dos meus dias
pão da minha liberdade
mel da minha paixão

néctar da minha alegria
sal da minha temperança
água da minha sede

vinho da minha euforia
seiva da minha bonança
minha felicidade

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A primeira vez que nos amamos

João Sebastião
(para Angélica de Lis, doce memória)



A primeira vez que nos amamos
senti vibrar teu corpo de alegria
apesar de uma lágrima furtiva
e do teu rosto contraído
numa singela expressão de dor.

A primeira vez que nos amamos
havia música barroca no ar
pontuando a estranha melancolia
e a fortuita liberdade
que nem tu nem eu sabíamos explicar.

A primeira vez que nos amamos
e que nossos corpos se envolveram com paixão
nem a dor nem o sangue ou o suor
macularam a inocência de um encontro
forjado pela febre do desejo mútuo.

A primeira vez que nos amamos
havia pássaros nos laranjais
trilando melodias merencórias
um tom acima do coro de anjos
que em nossa cela nos abençoava.

A primeira vez que nos amamos
um poema em teu corpo eu tatuei
com minhas mãos meus lábios e meu sexo
e te amei como nunca amei ninguém
e tu me amaste como Eva amou Adão.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O cheiro do teu cu amanhecido

João Sebastião



O cheiro do teu cu amanhecido
tem as harmonias da Nona Sinfonia
a simetria do dantesco Inferno
e o labiríntico enredo do Édipo Rei

O cheiro do teu cu amanhecido
muito mais que o Flamengo campeão
é a Mangueira descendo na avenida
é ganhar a Copa no Maracanã

O cheiro do teu cu amanhecido
mais suave que um pássaro de Niemeyer
é mais gostoso que cuscuz com mel
pamonha doce e creme de cupu

O cheiro do teu cu amanhecido
é mais barroco que os profetas de Congonhas
mais modernista que o Abaporu
e mais pós-tudo que o luxo do lixo

O cheiro do teu cu amanhecido
vem de uma página do Rubaiyat
tem o tanino dos melhores tintos
com notas de alcaçuz e framboesa

O cheiro do teu cu amanhecido
é muito muito mais do que qualquer engenho
em que a métrica se perca nas sinestesias
e o desconcerto do poema se desvele

O cheiro do teu cu amanhecido
tem ânsias de infinito e partes com o eterno
é meu muiraquitã minha uiara
é minha metafísica meu nada

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Homem maduro

Cacilda Barbosa



Como eu te amo, homem
nos poucos cabelos
que o tempo te deixou
no sorriso bonito que a juventude
em ti regravou.

Homem, eu te amo tanto
quando toco teu corpo maduro
vejo o brilho em teus olhos
já um tanto apagado
me afogo em carícias
no peito cheiroso, de branco mesclado.

Sinto pecado ao olhar teu andar
majestoso e macio, de gato cansado.
As mãos ágeis buscando recantos
tirando poesia, música louca
de meus encantos.
No gozo alucinado, no abraço sensual
no urro conjunto saindo de nosso peito
no perfume molhado que deixas em meus pelos
em teu sexo que o tempo
fez mais que perfeito.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O meu amor

Chico Buarque




O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh’alma se sentir beijada

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos
Lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca
Com a barba mal feita
E de pousar as coxas
Entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Círculo vicioso

Marco Catalão




No ônibus cheio, a diarista reclamava:
– Quem dera a minha vida fosse mansa e boa,
com carrão e piscina, como a da patroa!
Mas a patroa dizia ao marido, brava:

– Não fosse o nosso filho, eu bem que te largava,
e ia viver igual à tua amante, à toa,
sem dívida que vence, sem cheque que voa!
Mas a amante, sem conseguir dormir, sonhava:

“Ah, se eu tivesse sido menos azarada,
já estava no apogeu da carreira de artista!”.
Mas a artista, no quinto café, entediada

enquanto concedia a décima entrevista,
num momento de lucidez inusitada,
pensava: “Foda mesmo era ser diarista!”

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

De que valeu-me ser tua cadela

Samantha Rios



De que valeu-me ser tua cadela,
Ser tua fêmea, estar sempre no cio,
Ter da volúpia um caudaloso rio
Ser tua égua atrelada numa sela?

De que valeu-me abrir minha cancela,
Da vergonha perder o íntegro brio,
Atender teu chamado de assobio,
Ter minha vida à tua paralela?

De que valeu-me a anulação completa
De taras, de vontades, de desejos,
E uma vida levar toda incorreta,

Se teu amor não foi mais que lampejos,
E se tinhas apenas como meta
Matar a tua fome com meus beijos?

domingo, 30 de janeiro de 2011

A mulher e a casa

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)




Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente de dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra:
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Epigrama

Marcial (40?-104?)




Corre o rumor, Quione: nunca foste fodida,

e nada mais puro existe que tua cona.

Nessa parte (por vestes velada) nem te lavas.

Se é pudor, desnuda a cona e vela a face.



(Trad.: Luiz Antônio de Figueiredo e Ênio Aloísio Fonda)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Corpoenigma – bunda

Zemaria Pinto




luas hemisféricas

sob o sol resplandecente

– altar da paixão



castelos erguidos

em terras de fantasia

– volúpia e vertigem



ondas cavalgadas

nos limites do infinito

– relâmpago sob o sol

domingo, 23 de janeiro de 2011

Romeu e eu

Glauco Mattoso
(conto dialético e, ipso facto, poema romântico)



Eu quero brincar com você.
Papai não deixa.
O Diretor proíbe.
A Esquerda se opõe.

Você me chama
e eu morro de vontade.
Papai me ameaça.
O Diretor me intima.
A Esquerda me aterroriza.

Saio escondido,
procuro por você,
mas eles me acham.
Papai me bate.
O Diretor me põe de castigo.
A Esquerda atenta contra mim.

Fico esperando,
você me procura,
nos encontramos no escuro,
nos pegam em flagrante.
Papai me expulsa.
O Diretor me interna.
A Esquerda me sequestra.

Escapo e sobrevivo,
mas você não está livre.
É filho de seu Papai.
Disciplinado ao seu Diretor.
Prosélito da sua Esquerda.

Vivo solitário, você prisioneiro,
e não podemos brincar.
Castram nossa infância
porque você é igual a mim,
sua vontade igual à minha,
mas nos fazem diferentes.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sonetos Luxuriosos – 14

Aretino (1492-1556)



Ai, minha cona, ai! Cruel, que fazes
Com caralho tão grosso, tão horrendo?
Caluda, coração, que assim gemendo
Teu senhor não recreias nem aprazes.

E se no meu foder não te comprazes,
Abre espaço bastante que te atendo,
O pau até os colhões em ti metendo
Para dar-te prazer dos mais verazes.

Eis-me aqui pronta, oh, fido servo caro,
Faz como queiras e em afadigar-te
Por bem servir não te mostres avaro.

Não duvida, meu bem, que quero dar-te
Fodida tão gostosa, em modo raro,
Que inveja sentirão Vênus e Marte.

                          Podia a cona entrar-te,
Diz por favor, o mais soberbo nabo?
A cona sim, mas Deus me guarde o rabo.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Corpoenigma – costas

Zemaria Pinto




campo iluminado

pelo fogo do desejo

– prenúncio do dia



plano dividido,

planície que se completa

nas ondas do vento



longa travessia,

repousa o corpo em silêncio

– porto calmaria

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sugar e ser sugado pelo amor

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)




Sugar e ser sugado pelo amor

no mesmo instante      boca milvalente

o corpo dois em um        o gozo pleno

que não pertence a mim nem te pertence

um gozo de fusão difusa transfusão

o lamber o chupar e ser chupado

            no mesmo espasmo

é tudo boca boca boca boca

sessenta e nove vezes boquilíngua.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Saudades do meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)




Sinto saudades das nossas intensas horas de amor
dos arrepios que tuas carícias me provocam,
me deixando assim molhada, excitada, querendo o teu calor.
E, no meu corpo, sentir esse fogo queimando-me.

Sinto saudades de quando exploras o meu corpo
e descobres os pontos prazerosos que me levam
aos gritos e gemidos, ao inferno e ao paraíso,
eu sem defesa e tu sem piedade possuindo-me.

Tua língua em todos os orifícios do meu corpo,
senti-la quente e furiosa dentro de mim levando-me
ao ponto inalcançável do prazer, me faz querer que
permaneças dentro de mim, alimentando-se do meu gozo.

Teu membro a penetrar-me, tuas mãos em fúrias nos meus seios,
tua boca a procura da minha língua, sugando-me, como
se de nossas salivas, dependessem as nossas vidas.

Que saudades de quando na madrugada fria nossos
corpos quentes se encontram e se amam, teus beijos docemente
acordam-me e eu me rendo a esse amor.

Que saudades da transa debaixo do chuveiro, água fria,
corpos quentes, eu e você banhando-nos em gozo.
Teu olhar procurando-me e eu querendo-te
dentro de mim.

Que vontade de entregar-te o meu corpo,
e ser escrava do seu desejo.
Que saudades de você.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Corpoenigma – nuca

Zemaria Pinto



marmor cinzelado

sobre o torso transluzente

– cadeia do tempo



armam-se guerreiros

sobre a torre de alabastro

– pelos perfilados



rosa tatuada

sob os pelos eriçados

– meigo nosferatu

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Bicho papão

Almir Graça




– Vai...

– Vai tu...

– Vai tu primeiro!

– Eu não! Vai tu!...



Ainda com os mamilos empinados

olhou para os dois,

pegou a calcinha e o sutiã

– Vão se foder, seus viados!

domingo, 9 de janeiro de 2011

Da natureza da bunda

Simão Pessoa




Diferente do seio, a bunda
Possui uma função distinta:
Na bunda, a gente lambuza,
No seio, a gente bolina.

Na bunda, um riacho fundo
Corta seu duplo hemisfério:
No seio seu duplo ornamento
É bússola de curso aéreo.

Também há na gótica catedral
Em que a bunda se camufla
Uma auréola como a do seio
Mas de finalidade bem outra.

Enquanto a auréola do seio
Parece extensão do bico,
A auréola da bunda prefere
Sombrear certo orifício.

E é nesse duto intestino,
Da casa grande, a senzala,
Que o macho se queda aflito
Por enfiar-lhe a espada.

Mas se a função principal
Do duto não é receber
Por que diabos insistimos
Em nesse poço descer?

Quem foi criança se lembra
Das brincadeiras com fezes:
Adulto, aperfeiçoamos o jogo.
(Ou assim é se lhe parece.)

Trampolim do felizardo
Que no poço se projeta,
Nos dois cálices da bunda
Está o caminho das pedras

Quanto mais fornida for
Mais a bunda é desejada:
Só precisa estar tinindo
Quem pretende penetrá-la.

As medianas são melhores
E pelas curvas se conhece:
Qualquer pau pode dar conta
Sem precisar pintar o sete.

De bom tom são as pequenas
Mas que sejam expressivas:
Não basta ter um buraco
Por onde entre uma pica.

Na falsa magra, entretanto,
O equilíbrio está no jeito:
Quando montada, sua bunda
Tem um encaixe perfeito.

Há ainda as bundas magras
De uma magreza de doer:
Por serem pouco cantadas
São as mais fáceis de comer.

E toda mulher dá a bunda
Sem que perca sua honra:
Basta o sujeito insistir
E prometer que não conta.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Corpoenigma – pés

Zemaria Pinto



devassam fronteiras

na construção da manhã

sonhando mensagens



caminho traçado,

espaço e tempo à mercê

– asas do desejo



pássaros pousados

sobre o limo do caminho

buscando o verão

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Amante do meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)




Quero ser a mais completa das amantes
não quero casar e nem que me cubras de diamantes,
não quero filhos e nem mesadas: só boas trepadas,
regadas a muito gozo, sendo sempre enrabada...

Não quero usar aliança e nem assinar com teu nome,
só peço que nunca deixes de ser o meu homem.
Não quero cozinhar, muito menos lavar e passar,
quero apenas ser tua comida – enrabada e fodida...

Não quero ouvir teus problemas, nem tuas irritações,
não quero palavras ternas úmidas de emoções,
quero apenas muito sexo, palavras sem nexo,
sem compromissos, momentos completos...

Repletos de muito sexo, sem restrições, sem frescura,
sem carinho e sem amor... Apenas muita loucura...
Não quero ser a mulher perfeita, a esposa boa o bastante,
de suportar traições etc... Quero apenas ser tua amante!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Musa de verão

Nei Leandro de Castro




Quero uma musa
nada obtusa
Que tenha os peitos
perfeitos de menina-moça
e acima dos quadris
aquelas duas pequenas poças.
Uma musa que saia
do mar de verão
como uma deusa
de anúncio de televisão.
Quero uma musa moderninha
que não faça questão
de ser só minha.
Que no gozo gema tão forte
que dê a impressão
dos estertores da morte.
Quero uma musa na medida
exata, na escala
do falo e da fala.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Corpoenigma – pernas

Zemaria Pinto



asas da manhã

flutuando à luz difusa

na pele do vento



garças de algodão

sob o véu acetinado

da manhã nascente



torres definindo

a arquitetura do passo

– caminhos do sol

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O anão triste

Hilda Hilst (1930-2004)




De pau em riste
O anão Cidão
Vivia triste.
Além do chato de ser anão
Nunca podia
Meter o ganso na tia
Nem na rodela do negrão.
É que havia um problema:
O porongo era longo
Feito um bastão.
E quando ativado
Virava... a terceira perna do anão.
Um dia... sentou-se o anão triste
Numa pedra preta e fria.
Fez então uma reza
Que assim dizia:
Se me livrasses, Senhor,
Dessa estrovenga
Prometo grana em penca
Pras vossas igrejas.
Foi atendido.
No mesmo instante
Evaporou-se-lhe
O mastruço gigante.
Nenhum tico de pau
Nem bimba nem berimbau
Pra contar o ocorrido.
E agora
Além do chato de ser anão
Sem mastruço, nem fole
Foi-se-lhe todo o tesão.
Um douto bradou: ó céus!
Por que no pedido que fizeste
Não especificaste pras Alturas
Que te deixasse um resto?
Porque Pra Deus
O anão respondeu
Qualquer dica
É compreensão segura.
Ah, é, negão? Então procura.

E até hoje
Sentado na pedra preta
O anão procura as partes pudendas,
Olhando a manhã fria.

Moral da estória:
Ao pedir, especifique tamanho
grossura e quantia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A imagem do meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)



No espelho o reflexo da paixão.
O seu corpo sob o meu, os toques,
Suas mãos, nos olhos a expressão
Do desejo, do fogo queimando,
O suor, as faces, o cheiro, os pelos,
O beijo, os gritos, o tesão,
– O nosso gozo.

Nossa imagem
O reflexo do desejo que nos une
O calor que queima nossos corpos, nossas almas
A minha fome insaciável
Meu sexo que nunca se cansa
Teu sexo a me penetrar,
Teu sexo me fazendo gozar.

Nossa imagem
A segunda metade de nós
Onde eu vejo meu sorriso brilhando por te ter dentro de mim.
Eu olhando em teus olhos enquanto me penetras.

Nossa imagem
Nosso amor
Refletido no espelho
A miragem da cena sagrada
– do deleite, da expressão de nos corpos, nossas faces,
Olhando nosso amor.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Corpoenigma – coxas

Zemaria Pinto




portal dos segredos

intraduzíveis do tempo

– delírio e torpor



colinas que se erguem

num poema de Neruda

– rochedos de sonho



colunas de fogo

no fulcro das catedrais

– mistério e paixão

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Safo e Alceu, 3

Rogel Samuel



deitaram-se nuas
no meio da noite
as meninas virgens

deitaram-se nuas
as doces meninas
e ainda eram virgens

e os seus esposos
acenaram logo
com as mãos erguidas

e logo chegaram
no meio da noite
como que perdidos

deitaram-se nuas
todas as meninas
escondendo as graças

e os seus consortes
logo as sucederam
e imprimiram o selo

estavam tão nuas
e eram mais puras
que longínqua estrela

e na amena noite
só fugiu o tempo
envolto num lenço

e depois de amor
daquele conúbio
choveram diamantes

o fecundo hino
daquelas meninas
musas citadinas

naquela noite toda
caem as flores finas
deusas fesceninas

e os seus amigos
inventaram lira
e os seus caprichos

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Pivete

Cândida Alves




Na ponte velha da sete

esbarrei com um pivete

cheirando cola

e tocando punheta



Com o olhão arregalado

dando pinta de careta

resmungou todo abusado

hummm! Senti cheiro de boceta!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Coito in/ver/tido 2

Marcus Accioly




por detrás o prazer é diferente
do gozo pela frente (e pela boca
e nas mãos e nas) toda a carne é pouca

para tanto desejo (pela frente
o amor ao próprio amor se satisfaz)
mas é diverso o coito por detrás

da fêmea (é como os animais copulam)
existe um cio por detrás (um jeito
de puxar os cabelos quando ondulam
como crinas) e o gozo insatisfeito

precisa de mais gozo para ser
em sua plenitude e goza mais
(se uma só vez o amor acontecer
é preciso que seja por detrás)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Corpoenigma – púbis

Zemaria Pinto




secreta jazida

lavada em lava e desejo

– sacrário do corpo



poema emoldurado

pelos pelos da manhã

– chispas da paixão



vale natural

universo em movimento

– essências e mel

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Erótica batalha

Sebastião Nunes



Tua latejante buceta palpitante.

Meu amargo cacete perfilado.

Ovos batem continência à beira do saco.

Como um guerreiro de merda

o cu recua ante a dura ofensiva.

Grandes e pequenos lábios

batem palmas e riem.

Meu cacete é a bandeira nacional.

A guerra é santa e eu avanço.

domingo, 12 de dezembro de 2010

a metafísica é uma mocinha

Simão Pessoa          



                  a metafísica é uma mocinha

muito bonita e prendada

não tivesse um caso nebuloso

com o processo ôntico do tempo

                  juro que trepava com ela

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Corpoenigma – ventre

Zemaria Pinto



verbo aprisionado

nas fronteiras do indizível

– mística metáfora




seara do tempo

tecida em gestos de amor

– sementes de luz




nicho de esperanças

desenhadas sob o sol

– repouso do sonho

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Corisco

Bruna Lombardi



Vem pra cá cavalo doido
que eu vou te beber todo
atravessa esse meu fogo
te arremessa nesse jogo
de cabeça.
Que cresça a tua vontade
que seja feita a tua vaidade
nessa terra de homens e mistério.
Te quero
na relva molhada
me quero ver derrubada
me transpassa
a arco e flecha
lança e mordaça.
Te fecha o trinco
Te tranca
barra a passagem. Espanta
a última solidão que te ameaça
– que o ritual comece –
(ah se eu fosse se eu pudesse)
que este tal de amor se faça.
Vem pra cá cavalo doido
que eu vou te fazer a festa
que eu vou conhecer a tua raça
Cigano. Mestiço.
Teu pulso arisco
o risco do teu jugo
o perigo de tua caça
eu arrisco.
Me faça que eu fico contigo
me cobre no dia da graça.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sonetos Luxuriosos – 3

Aretino (1492-1556)



Para gozar Europa, em boi mudou-se
Jove, pelo desejo compelido,
E em mais formas bestiais, posta no olvido
A sua divindade, transformou-se.

Marte perdeu também aquele doce
Repouso a um Deus somente consentido.
Por seu muito trepar foi bem punido,
Qual rato que na rede embaraçou-se.

Este que ora mirais, em contradita,
Podendo, sem perigo, a vida inteira
Trepar, a cu nem cona se habilita.

Por isso, que é sem dúvida uma asneira
Inaudita, solene, verdadeira,
Nunca mais neste mundo se repita.

                               Insossa brincadeira!
Pois não sabes, meu puto, que é malsão
Fazer boceta e cu da própria mão?


(Trad. José Paulo Paes)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Corpoenigma – seios

Zemaria Pinto



expostas ao sol,

transparências de alabastro

latejam vulcões



raízes plantadas

no vasto campo do corpo

– casulo de sonhos



úmidas de orvalho

na floração matinal

– pétalas rosáceas

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Rapaz de libra

Clotilde Tavares




Seu destino

é ser amado por toda a vida

por uma sagitariana maluca

com ancas de besta

e boca de menina.

domingo, 28 de novembro de 2010

Soneto 344 Feminista

Glauco Mattoso


“Mulher tem que chupar sem reclamar!”
A banda de Brasília não perdoa.
Seu rock a fêmea humilha, e o que apregoa
reflete algum machismo em cada lar.

“Mulher tem que gemer! Tem que apanhar!”
Insiste o rock, e zoa, inda que doa
na séria consciência da pessoa
humana, que não cabe em seu lugar.

Parir, amamentar, dar gozo, é tudo
que os homens lhe concedem, grita a dita,
afora o afã doméstico, que é mudo.

Às vezes, uma ou outra se habilita
nas artes, no poder, no amor, no estudo...
Mas só se faz capaz se for bonita.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Corpoenigma – boca

Zemaria Pinto



tecida em cetim

no jardim que desabrocha

– veludo carmim



florais do desejo

inauguram a manhã

na febre do beijo



sangrando, o morango

desfaz-se em cor e volúpia

submisso ao marfim

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Bicho Arredio

Anne Lucy



Eu sou um bicho arredio
passo fome, passo frio
mas nunca desamor

Fui criada mal amada
desci morro, subi escada
pra aprender a não ter paz

Sou mistura de índia-branca
com o resto de outras raças
pra ser sempre tua caça

Sou feroz e sou mansa
silvestre e doméstica
de brincar nunca se cansa

Em dias que estou no cio
nego fogo, quero o rio
pra acalmar os demônios

E nessa busca insana
por parca racionalidade
aonde há só instinto selvagem

Um corre outro alcança
e se enroscam nessa dança
de acasalar bobagens.

Lua de mel

Leila Miccolis



Nossa primeira noite foi a melhor de todas.

Preparei-te cicuta no café,

espalhaste tarântulas pela cama.

Apagada a luz,

eu esperava, de quatro, que viessem mil homens

trazendo em cada mão seus vibradores.

Por fim, a violação:

em posições exóticas

pelos cinco sentidos te gozei,

currei-te sete vezes e mais sete,

e me arrancaste o hímen com gilete.

sábado, 20 de novembro de 2010

Soneto XXXV

Bocage (1765-1805)



Se tu visses, Josino, a minha amada
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto
Às mais formosas não inveja nada:

Na sua boca Vênus faz morada:
Nos olhos tem Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela, enfim, tudo encanta, tudo agrada:

Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!

Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: "Fode, fode!"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Poemeto erótico

Manuel Bandeira (1886-1968)



Teu corpo claro e perfeito,
– Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...

Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...

É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Quem em cantigas se derrama...

Volúpia da água e da chama...

A todo o momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Teus seios

Eno Theodoro Wanke (1929-2001)



Não posso me esquecer, por mais que tente,
dos teus seinhos, numa nostalgia
de tê-los, de aninhar na mão vazia
a doce redondez, macia e quente.

E que ternura quando, humildemente,
a minha rude mão te acaricia....
– A carne do teu seio é tão macia,
e que meiguice linda põe na gente!...

Porém, se afago em minha ardente mão
teus seios, maus presságios te atormentam
e choras... mas não tens porque chorar!

– Adoro-te, e na minha devoção
os meus pobres carinhos representam
meu rito, e teus seios, meu altar!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Quero

Anne Lucy



Quero teu gosto suave
Na minha boca a derreter
Quero tua pele macia
Pro meu corpo aquecer

Quero ser o motivo
Do teu enrijecimento
Quero te guardar por inteiro
E realizar cada lamento

Vou virar concubina, freira
Seja o que for estarei a seu dispor
Serei carne exposta na feira

Leve-me aonde sabes me fazer chegar
Sem mais delongas
Vem me fazer suspirar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Soneto CL

Antônio Lobo de Carvalho (1730-1787)
                                                 
                                                           A certo alferes, cuja mulher tinha mais maridos.


Não me quero calar, senão abafo:
Eu declaro quem és, ó bode humano,
Que da cobiça vil no altar profano
Sacrificando estás de injúria gafo:

Eu declaro quem és, eu já te estafo,
E com raivosas sátiras te esgano;
Depois mijando em ti, cuco magano,
Deixo os cabrões, e com os tafuis me safo:

Não me posso conter, e sem suborno,
Digo que és dos alferes lixo e borra,
Oh tu, que trazes militar adorno!

Ora quero aprontar antes que morra
Dois mimos; – para ti, corno e mais corno;
Para tua mulher, porra e mais porra.

domingo, 7 de novembro de 2010

A medida para o malho

Gregório de Matos (1633-1696)

                                           Mote: Não quero mais do que tenho.



A medida para o malho,

Pela taxa da Cafeira,

Que tem do malho a craveira,

São dois palmos de caralho:

Não quer nisto dar um talho,

E eu zombo do seu empenho,

Pois tendo um palmo de lenho,

Com que outras putas desalmo,

Inda que tenha um só palmo,

Não quero mais do que tenho.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Amor em japonês

Eliakin Rufino



Aí você me convidou
para beber saquê
e eu saquei seu astral.

Percebi
que nós íamos ter
uma noite oriental.

Retirei do quarto a cama
arranjei um ikebana
escrevi um haikai.

Arrumei o tatami
fiz um origami
podei o bonsai.

Acendi a lanterna
esquentei o saquê
servi o sushi.

O cheiro do incenso
até parecia
que o Japão é aqui.

O vento do outono
abriu teu quimono
pela primeira vez.

Bebendo saquê
fizemos amor
em japonês.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Trepada trepidante

Eduardo Kac



quando você me chupa toda
eu adoro te beijar
e respirar na tua boca
cheiro de xereca

uma lambida de lambuja
uma linguada na libido
eu quero tudo que é proibido

molha o meu cu a tua língua
o prazer não conhece o nojo
e eu te beijo em pleno gozo

uma lambida de lambuja
uma linguada na libido
eu quero tudo que é proibido

Aaaiiiii..., que trepada tttrrreeepppiiidddaaannnttteee

sábado, 30 de outubro de 2010

Ela é uma delícia

Claufe Rodrigues (Baby the Billy)



Ela tem curvas que nem Oscar Niemeyer ousaria imaginar...
Provocante, passa a língua sobre os lábios,
lambuzados de chantilly.
Os seios são sorvetes de morango,
onde pousam duas estrelas.
Um mago míope, observando,
pensou que fossem rubis.
Os cabelos de seda e luz dão de ombros para os mortais,
e nem as Dez Mais desfilam com tanta elegância.
...Sem falar na xoxotinha,
que por várias vezes eu tive o prazer de desfrutar!...
Ela é uma delícia!
Mais inteligente que a Lúcia,
mais estimulante que a Márcia,
mais ardente que a Patrícia.
Mas é uma gata difícil,
cheia de tiques nervosos,
ataques de riso,
não sabe o que diz, o que faz,
o que quer de nós dois.
Todos os homens babam de prazer
só de vê-la passear pela orla marítima.
Quem será a próxima vítima
da sua luxúria?
Quantos rapazes serão capazes de domar
a sua fúria sexual?
Estas e outras perguntas
ficarão flanando na estratosfera,
só mesmo um cara fera em astrologia
poderá um dia decifrar.
Enquanto isso
eu cuido das minhas plantas,
esqueço as contas, preparo a janta
e espero ela chegar...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Soneto da cópula, gozos e coitos...

Alaor Tristante



Há uma fera capciosa em mim
que de quando em quando é amansada
que de quando em quando bem mais ousada
retorna desejosa e mais a fim.

Tem gente que a chama sem-vergonhice
minha puta me chama troglodita
mas com a fera não tem pieguice
some num ímpeto e após ressuscita.

Seus gestos loucos são sempre incontidos
cega por inteira não dá ouvidos
sobrevém sorrateira e cospe fogo.

Deixando-me abstrato após o logro
feições de bobo e com cara-de-pau
faz-me crer que sou mesmo um animal.

domingo, 24 de outubro de 2010

Soneto

François de Malherbe (1555-1628)



Quinze anos eu passara, os primeiros da vida,
Sem ter sabido nunca o que era esse furor
Em que a dança do cu deixa na alma um torpor
Após a ânsia viril na cona ser remida.

Não que a morte tão doce e tão apetecida
Não me impelisse um forte, juvenil ardor,
Mas o membro que eu tinha, embora lutador
Não chegava a deixar a Dama bem servida.

Trabalho desde então com pertinácia rara
Por compensar a perda e o tempo que não pára,
Pois o sol no Poente ameaça os meus dias.

Oh Deus, venho rogar-te, meu zelo ajudai:
Para tão doce agir, meus anos alongai
Ou devolvei-me o tempo em que inda eu não fodia!


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Eu vi um muiraquitã

João Sebastião



               I


Eu vi um muiraquitã
no colo duma caboca.

Aquele bicho verdoso
era promessa de foda,

de foda duma caboca
de corpo mui feiticeiro

peitos, ancas, coxas, bunda
– nada falto, tudo farto –

amazona dos meus sonhos
princesa dos meus desejos.

Meu cacete latejou.
Tomou-me uma ânsia louca:

dominar aquele corpo
viajar naquela dona

me lambuzar no seu mel
me afogar na sua cona

lamber-lhe a flor do cuzinho
me derreter de carinho

e no auge da agonia
esporrar na sua boca.


               II


Como um lobo solitário
acerquei-me da potranca.

Uns cinco chopes depois
somos amigos de infância.

A língua que me lambia
os lábios que me chupavam

os dentes que me mordiam
os braços que me prendiam

os membros se confundindo
no doce embate dos corpos:

pau no cu, pau na boceta
e enfim o gozo gritado!

Um banho reconfortante
e a caboca estava intata

insaciável, sedenta
esfregando em minha cara

boca, língua, cu, boceta
– e eu só língua, dedo e pau...

A refrega enfim se finda
com os corpos desfalecidos...


               III


Na hora do desenlace
a caboca desatou

de seu colo de bacaba
a pedra muiraquitã

e prendeu-a em meu pescoço
dizendo que voltaria

desde que eu estivesse usando
aquele símbolo mago.

Lambeu-me a cara e os mamilos
e beijou o muiraquitã.

Passaram-se já 3 anos
e a malvada não voltou...

Não há um dia que passe
sem que eu lembre da caboca;

sem eu lembre da mulher
da foda mais prazerosa;

sem que eu lembre da alegria
que eu senti quando, um dia,

no colo duma caboca
eu vi um muiraquitã.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uma noite com meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)



Eu quero ser tua esta noite.
Quero que me possuas sem pudor,
sem carinho, sem medo de me machucar
e até mesmo sem amor.
Quero te entregar o meu corpo, o meu sangue e a minha carne,
e não quero que sintas dó e nem piedade,
quero apenas que me enrabes.

Que na minha boceta teu pau seja realizado,
e jorre em mim todo o teu gozo, deixando o meu tesão saciado.
E enquanto me penetras, quero ouvir sacanagens,
bobagens, loucuras que só se diz
numa foda selvagem.

Que todos os dedos de tuas mãos em mim sejam introduzidos,
que procurem em meus orifícios o prazer desconhecido.
Que tuas mãos, depois de me baterem, deixem seus sinais.
– A lembrança marcada no meu corpo, depois de nossos uis e ais.

Que minha boceta seja chupada, lambida, mordida,
que tua língua me deixe enlouquecida,
pedindo que me enterre teu pau e teus medos.
– Esta noite eu quero gozar, fodendo de todos os jeitos.

domingo, 17 de outubro de 2010

Vem sentar-te

Marcus Vinicius de Freitas



Vem sentar-te comigo, Lídia, ali
no canto mais escuro da varanda.
O refrescante cheiro da vianda
tornará chã a Arcádia de rubi

inventada por poetas eunucos
a quem bastava a mão na tua mão.
Para mim, vale muito mais o muco
da tua boceta ardida de tesão.

O toque da tua mão seria bom
se fosse, segurando no cacete,
para tocar punheta infinita.

E o leite escorreria num filete
que beberias, licor de bombom,
balindo – árcade – como cabrita.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Zoofilia – Touro

Nei Leandro de Castro




O touro dá lições de sexo

ao puritano babaca.

Antes da belíssima trepada

ele lambe docemente

a boceta da vaca.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Alguns gostam de fiofó

Chico Doido de Caicó (1922-1991)




Alguns gostam de fiofó

Outros de suco de mangaba

Eu, mais modesto,

Gosto mesmo é de uma

Xiranhanhanhanhã em noite de luar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A gueixa I

Paulo Franchetti




Uma gueixa velhota, tosca e burra,
Um dia quis bater uma punheta.
Como buscasse em vão alguma curra
E não achasse pinto, fez mutreta:

Enfiou pelo cu vasto salame,
Agasalhou um nabo bem folhudo,
Um cru pedaço de toucinho, inhame,
E um braço de japona de veludo.

Guarda-chuva, abajur, pano de prato,
Pé de cadeira, cabo de martelo,
Torneira, mangueirinha, telefone:

Tudo comeu seu velho rabo ingrato,
Sem lhe dar paz, sem se aplacar o anelo
De tal olho, voraz como um ciclone!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ah, uma bunda branca...

Marcus Vinicius de Freitas




Ah, uma bunda branca me emociona!
O traço, a curva, desenho preciso.
Matemático muro, alvo e liso,
estandarte e brasão da bela dona.

A bunda-ícone, bunda de neve,
onde a luz da seda sinta-se sombra,
onde o corpo role pela alfombra
e viva de prazer, que a vida é breve.

Oh, praça onde danço em apoteose!
Que geômetra te sonhou na bruma?
Estou tonto e quero mais, mais uma dose

dessa bunda-mulher que me desanca.
Se digo anca, a arma se apruma:
quem diz anca, diz bunda, bunda branca.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Coito in/ver/tido

Marcus Accioly



Sobre duzentas almofadas postas
em seu colchão (já livre de mil panos)
o amor se deita e (sob mim) de costas
deixa que eu tente possuir seu ânus

(vou penetrando devagar) molhado
está meu pênis de saliva (desço
pelo avesso da carne) do outro lado
(a dois dedos da vulva) eu reconheço

que aquela região (o amor suporta
a dor do seu prazer) estava intata
e (violento) arrombo a sua porta

como se fosse um bárbaro (se fosse
no seu corpo um aríete) “ó mata-
me” (diz o amor) “que o gozo dói de doce”

Voyeurs desde o Natal de 2009