Amigos da Alcova

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nesse bar repleto de idiotas nós dois

Paul Verlaine (1844-1896)



Nesse bar repleto de idiotas nós dois,
Só nós dois encarnávamos o tal horrível
Vício de “gostar de homem” e sem perceberem,
Íamos fodendo esses babacas de ar bem-posto,
Seus amores normais e sua moral fingida.
Enquanto isso tocávamos punheta a mil,
De lado, de frente, em diagonal, sem que
Ninguém se desse conta, envoltos em fumaça
Dos cachimbos (como certa vez Zeus com Hero).
Nossas picas, como narizes Karragheus*
Que nossas mãos secassem num gesto gostoso,
Espirravam jatos de porra sob a mesa.


(Trad. Heloisa Jahn)

(*) Personagem oriundo do teatro turco;
tipo esperto e vulgar, com um membro de grandes dimensões.

sábado, 14 de maio de 2011

Ânsia

Anne Lucy



Quero me enroscar nos teus braços
Mergulhar nos teus abraços
Percorrer tuas entranhas
Desfalecer em tua cama
Degustar tua saliva
Teus fluidos, tuas manias
Decorar teus movimentos
Tuas ações, teu lamentos
A tua pele quero comer
Quero cheirar, quero beber
Quero tua temperatura
Pra minha apatia derreter
Quero tua voz e tuas palavras
Penetrando-me em brasa
E o teu verdadeiro eu
Desnudando os segredos teus
Tenha coragem de me aceitar
Em troca prometo não te amar!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu te amo

Candida Alves



Colando o meu rosto
no pelo macio do teu peito
não posso encontrar
um defeito na vida

Meu corpo estreito
sem jeito
te cobre com força
e te beijo

Teu beijo
me escorre na cara
escancaras na boca
um bocejo

e dormes...

Respiro com calma
            com tara
me sento em teu colo
                  te olho
não fico com medo

Procuro teus dedos
que toco
e enrosco nos meus
pensando em voz alta
meu Deus eu amo esse cara
                            esse homem
então sinto fome...


Vou à geladeira
encontro uma pera
e como
sentada na pia

Um gato que mia lá fora
me lembra na hora
meu gato sozinho na cama

Eu corro e te encontro
com os olhos fechados,
suando
sonhando comigo talvez

e sigo te olhando, babando,
pensando

meu Deus como eu amo
e proclamo:
sou tua, sou tua
enquanto adormeço ao teu lado
tranquila
e completamente nua

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O ser e o não ser

Messody Benoliel (1933-2003)



Anseios incontidos se revelam
a cada instante em que sonho contigo
e os mares complicados não nivelam
as ondas escolhidas como abrigo.

As horas vão passando e as noites selam
os lúdicos orgasmos que fustigo
entre o ser e o não ser, pois se revelam,
prenunciando assim desejo antigo.

Espelhos não refletem tua imagem
tão bem guardada sobre o travesseiro,
passaporte seguro da mensagem

aos céus do meu prazer – ebulição –
onde serás o único e primeiro
e eu, súdita, coberta de tesão.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Zoofilia – Bode

Nei Leandro de Castro


Grande fornicador, o bode

cheira o mijo das cabras

arreganha os beiços

e fode fode fode fode.

sábado, 30 de abril de 2011

Soneto do século de ouro espanhol

.


– Que quer de mim, senhor? – Filha, foder-te.
– Diga com mais rodeios. – Cavalgar-te.
– Diga ao modo cortês. – Então, gozar-te.
– Diga ao modo pateta. – Merecer-te.

– Bem hajas que consigo compreender-te
e mal haja quem peça de tal arte.
Depois, o que farás? – Arregaçar-te
e com a pica alçada acometer-te.

– Tu sim hás de gozar meu paraíso.
– Que paraíso? Eu quero é minha porra
metida bem no fundo do teu racho.

– Com que rodeio o dizes, tão precioso!
– Caluda, amor, que de prazer já morra,
fodendo-te eu por cima, tu por baixo.


(Trad. José Paulo Paes)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Que me venha esse homem

Bruna Lombardi



Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.

Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco
que me venha esse homem
que me arranque do sono
que me machuque um pouco.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cera & Nata para Desdêmona

Glauco Mattoso
(pra não dizerem que não canto as fêmeas)



Oh minha doce amada,
minha goiabada,
tão conspícua
quão conspúcia,
inconstante e mamada,
desnaturada e desnatada!
Oh minha desdenhosa,
divina, demoníaca
diva doidivanas,
como amo
tuas anas
quando me envenenas
com teus ventos;
tuas xanas
planas e plenas
de corrimentos;
tua prepúcia
que não posso
arregaçar
e teu regaço
que não passo
sem cabaçar!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Itamaracá

Simão Pessoa


Do ri(s)o negro cariado
surge o segredo cifrado:
que tal aquele programa,
ó com pinta de bacana?

Nos becos escuros ao longo,
meninotas vão mostrando
os peitos quase à deriva,
as bundas cheias de estrias.

Pedem dinheiro, cigarro,
balançam chaves de quarto,
esboçam um risinho triste,
que não agrada, agride.

Debruçam-se, constrangidas,
recebem a goma lasciva,
logo logo voltam à luta.
Que vida filha da puta!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Meus Amores

Luiz Gama (1830-1882)

Pretidão de amor,
Tão leda a figura
Que a neve lhe jura,
Que mudara a cor.

Camões – Endechas


Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa crioula, ou Tétis negra
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o inverno gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.

Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.
A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se distila o grato olor.

O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
– É coisa de sentir, não de contar.

Quando a brisa veloz, por entre anáguas
Espaneja as cambraias escondidas,
Deixando ver aos olhos cobiçosos
As lisas pernas de ébano luzidas.

Santo embora, o mortal que a encontra pára;
Da cabeça lhe foge o bento siso;
Nervosa comoção as bragas rompe-lhe,
E fica como Adão no Paraíso.

Meus amores são lindos, cor da noite,
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa crioula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Ao ver no chão tocar seus pés mimosos,
Calçando de cetim alvas chinelas,
Quisera ser a terra em que ela pisa,
Torná-las em colher, comer com elas.

São minguados os séculos para amá-la,
De gigante a estrutura não bastara,
De Marte o coração, alma de Jove,
Que um seu lascivo olhar tudo prostrara.

Se a sorte caprichosa em vento, ao menos,
Me quisesse tornar, depois de morto;
Em bojuda fragata o corpo dela,
As saias em velame, a tumba em porto,

Como os Euros, zunindo dentre os mastros,
Eu quisera açoitar-lhe o pavilhão;
O velacho bolsar, bramir na proa,
Pela popa rojar, feito em tufão.

............................................................................

Dar cultos à beleza, amor aos peitos,
Sem vida que transponha a eternidade,
Bem que mostra que a sandice estava em voga
Quando Uranus gerou a humanidade.

Mas já que o fato iníquo não consente,
Que o amor, além da campa, faça vaza,
Ornemos de Cupido as santas aras,
Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa.

domingo, 10 de abril de 2011

platônica

Zemaria Pinto


ai, que já me arde a febre do desejo
volúpia de te ver, tocar, amavelmente
no ritual cotidiano das tardes mais banais

          como não sonhar com teu colo pálido
          e a sarda que se espalha
          pelo teu braço infinito?

          as minas de rosáceas do teu peito
          espalham nervos na sala entorpecida
          pela pressa de chegar de onde se vem

          sempre – cotidianamente
          a carne dos teus lábios
          roçagando minha barba por fazer

          a língua desfaz-se em fogo
          adivinhando tua língua de silêncios 
          meu coração delira preces pagãs

          a palavra – um convite? um carinho?
          desaba dentro de mim
          borboleta abatida a escopeta

          um helicóptero sobre minha cabeça
          cavalga walkírias & fúrias
          fim do expediente

(amor? amor um cacete
você não existe
o tesão não resiste

você não precisa saber
que a vida não vale nada
sem você!)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Soneto XX

Bocage (1765-1805)



Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo, de moças mil) num só momento,
Inimigo de hipócritas e frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.

domingo, 3 de abril de 2011

A boa dieta

Friedrich von Logau (1604-1655)



Carlota dissera ao seu doutor

Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,

Embora à noite a coisa fosse mais sadia.

Sendo ela prudente, resolveu

Fazê-lo duas vezes ao dia:

De manhã, por prazer

De noite, por dever.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 30 de março de 2011

No corpo feminino, esse retiro

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)



No corpo feminino, esse retiro
– a doce bunda – é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha – a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

domingo, 27 de março de 2011

Bacante III

Anibal Beça (1946-2009)



Leite de mulher amada
é como lua crescente ,
tetas de mel saliente,
feito de uva rosada.

Mais belo em sua nascente
rio de torrente domada;
solo de frauta doirada
delírio vivo de crente.

Por bebê-lo, hei renascer,
no olor de louro buquê:
vinho suave de beber.

Bom na Germânia, porque
de origem, nas videiras
ouve-se a uva crescer!

terça-feira, 22 de março de 2011

A boca do meu homem

Angelica de Lis (1984-2009)


Amo cada parte do teu corpo.
Mas tua boca, meu amor, a tua boca
Priva-me dos sentidos no torpor da excitação.
Teus lábios quando tocam os meus...
Arde em mim o desejo de entregar-te
O meu corpo, como se fosse a primeira vez.

Tua voz sussurrando em meu ouvido
Palavras ternas, obscenas, sacanagens
Me conduzindo a momentos selvagens,
Me deixa hipnotizada, de vontade de te ter.
Te ouço chamar meu nome: eu me rendo,
Estou no teu enlace, sou tua, faz amor comigo, faz...

Teu hálito. Ah!, teu hálito, meu amor
Como é bom acordar com a brisa fresca
Que tua boca emana pela manhã
Esse cheiro de aurora, de despertar, de tesão,
Cheiro que perfuma meu corpo, meu dia
Minha vida. Não me canso de cheirar tua boca!

E a tua língua. Tua língua na minha face
Sôfrega, me lambendo, regando a minha pele
Com tua saliva doce, de lúpulo e hortelã.
Tua língua no meu sexo, me lavando e me levando
Ao delírio do prazer: eu grito eu gemo eu choro e gozo
Na tua boca – e sorves o meu mel, teu alimento.

Na tua boca, meu amor, eu me perco. Não quero
Nunca me encontrar, nem beijar outra boca
Que não seja a tua, onde no teu beijo eu sou feliz
E em cada palavra pronunciada, regada de tesão
Misturada ao teu hálito fresco, eu me dou sem medo
Pedindo mais e mais a tua língua dentro de mim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Futuro do pretérito

Eliane Stoducto (?-2007)



Eu poderia ficar horas te escutando
tuas piadas, teus projetos, teus enganos.

Eu poderia te olhar horas a fio,
enquanto tu fosses desfiando
as histórias da avó e dos teus filhos...

E ficaria horas contemplando
o teu jeito meio bobo e te adorando...

Ah, eu ficaria, sei que ficaria...

Com a atenção dispersando eu te olharia
sorrindo com ternura e simpatia,
a mente vagueando em outros planos,
ansiosa, procurando a fantasia
de te ter dentro de mim...

Ah, eu faria tudo isso. Ah, se eu faria!

Depois, quando calasses, eu te levaria
para os brancos lençóis,
então serias o meu dono...

Mas, hoje não, meu querido,
estou com sono...

domingo, 13 de março de 2011

Não era mole – dois poemas do tempo da ditadura

Na moita
Teresa Jardim




botou tudo pra fora
meteu o pau
no corpo federal
e saiu todo faceiro
do banheiro
o soldado com o general



Artigo de fundo
Bráulio Tavares



Eu quero é a orgia!
A safadeza!
A indecência!

Deixo pros padres
e pros militares
               a continência!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Sonetos Luxuriosos – 4

Aretino (1492-1556)



Este caralho é mais do que um tesouro!
É o bem que pode me fazer feliz!
Este sim é que é bem de Imperatriz!
Vale esta gema mais que um poço de ouro!

Acode-me, caralho, que eu estouro!
Vê se encontras o fundo da matriz;
Um caralho pequeno se desdiz
Quando na cona quer guardar decoro.

Estás dizendo a verdade, ó mulher;
Quem caralho pequeno em cona enfia
Merece, de água fresca, um bom clister.

Esses devem foder cu, noite e dia.
Já quem o tem, como eu, brutal, feroz,
Somente na boceta se sacia.

                             Sim, é verdade. Mas
O caralho nos dá tanta alegria
Que nossa gula o quer na frente e atrás.


(Trad. José Paulo Paes)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Zoofilia – Abelhas

Nei Leandro de Castro


Será o zangão

um plebeu afortunado?

Ele fode a rainha, sim,

mas depois morre fulminado.

Voyeurs desde o Natal de 2009