Amigos da Alcova

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Tô cansada


Paula Taitelbaum


Tô cansada
de foda
cronometrada
queria horas
e mais horas
de cravada
depois dormir
em concha
encaixada
com a xota
cheia
e toda
inchada.

sábado, 6 de maio de 2017

hosana ao grelo


Sylvio Back


tudo no grelo é
favo e inflável

tudo no grelo é
molusco e clava

tudo no grelo é
hígido e vibrátil

tudo no grelo é
hóstia e tugúrio

tudo no grelo é
mírreo e anseio

o grelo é ninfeu

sábado, 22 de abril de 2017

Boceta



Arnaldo Antunes


da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba

entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba
o tempo

domingo, 2 de abril de 2017

Poema da carne


Wenceslau de Queiroz (1865-1921)


Da carne rosada e branca
Do teu corpo primoroso
O prazer férvido arranca
Os arrepios do gozo...

Como um par de negras cobras,
Lambem-te o dorso umas tranças,
Que há muito tempo em mil dobras
Prenderam-me as esperanças.

Tuas cálidas narinas
Arfam – quando, ardente e louca,
Como folhas de cravinas,
Rolam-te os beijos da boca...

Latejam-te as fontes; todo
O delírio que tu sentes
Aflora de estranho modo
À luz de teus olhos crentes.

A sensação mais fugaz
Perfuma-te as róseas pomas,
Como se alguém destampasse
Um frasco cheio de aromas.

Tua pele povoada
De inumeráveis desejos
Treme e retrai-se irritada
À atroz pressão de meus beijos.

Quebra-te a voz na garganta
A titilação nervosa,
Que excita, que te quebranta
O corpo, Laís formosa.

Teus braços como cadeias
Cingem-me sempre... os sentidos
Imperam sobre as ideias,
Como um rei sobre os vencidos.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Pudica



Medeiros e Albuquerque (1867-1934)


Nua. Lambendo-lhe a epiderme lisa,
por sob a qual o sangue tumultua,
caiu-lhe aos pés, em flocos, a camisa,
deixando-a nua... inteiramente nua...

O pé, que a alvura do banheiro pisa,
mal os dedinhos róseos insinua
na água, que em largos círculos se frisa,
logo, fugindo lépido, recua...

Passa por todo o corpo um arrepio.
Duros e brancos, hirtam-se de frio
seus dois peitinhos. Tímida, medrosa,

corre a mão sobre o ventre torneado...
Nisto, lembrando, acaso, o namorado,
toda se tinge de um rubor de rosa...

domingo, 26 de fevereiro de 2017

sossegue coração


Paulo Leminski (1944-1989)


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa



domingo, 5 de fevereiro de 2017

A mulata quando fode parece querer voar



Francisco Moniz Barreto (1804-1868)


Se é das de buço ou bigode
E cor bem agarapada,
Mais se torna endiabrada
A mulata, quando fode.
À ponta da lança acode
Com ardideza sem par;
E, depois de se espetar
Toda nela, em doce fúria,
Como águia de luxúria,
Parece querer voar.

Abrasa, agita, sacode
O vivente pelos ares,
De Vênus nos crespos mares,
A mulata, quando fode.
Por baixo, ou por cima rode
Da porra, nesse rodar,
Mal — que na base do altar
Sente bater-lhe os colhões,
Fazendo deles balões,
Parece querer voar.

Só a mulata um pagode
Completo of’rece ao caralho;
É princesa de serralho
A mulata, quando fode.
Branca ou negra, não a pode
No rebolado igualar;
Quando, ardente, a se esporrar
A mulata principia,
Na asas da putaria
Parece querer voar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Vem, amado, vem


Omar Khouri


Vem, amado, vem.
Faze de mim o que queiras:
Arregaça-me toda, se puderes.
Por que pudores tolos,
Se o tempo, agindo como um rolo,
Comprimirá xoxota,
Rola, ânus, peitos, boca,
Deixando tudo de fazer dó,
Transformando tudo em pó?


Voyeurs desde o Natal de 2009