Amigos da Alcova

sábado, 5 de agosto de 2017

Episódio sentimental


Pedro Nava (1903-1984)


No terreiro tinha o mamoeiro só.
Na casa tinha a moça só
E a moça era minha namorada...

A moça cantava
de dia e de noite.
Às vezes dançava.

Se os mamões eram verdes,
ela era verde.
Se os mamões eram amarelos,
ela era amarela.
Mas eu cogitava nos seios da moça...
Seriam tetas? Seriam mamões?
Estariam verdes? Estariam maduros?

Chegavam pássaros,
bicavam os mamões:
se estavam verdes, esguichavam leite
se estavam maduros, corria açúcar.
E nos seios da moça
ai! ninguém bicava...
Um era amarelo: teria açúcar?
um era verde: teria leite?
O mamoeiro crescia,
a moça crescia,
meu amor crescia,
a moça dançava
e os seios subiam,
eu namorava
e os mamões caíam...

Os pássaros vinham,
os dias fugiam...

Ela dançou tanto que os seios caíram...
Seriam seios? Seriam mamões?

Depois o Bicho Urucutum comeu o mamoeiro...
Comeu de mansinho
o tronco e raízes,
os mamões e as tetas.
O Bicho Urucutum era enorme e vagaroso!

Ela nunca mais dançou
eu nunca mais olhei,
nosso amor se acabou.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

não vem de fora


                                  Sandra Camurça


não vem de fora
vem de dentro
esse fogo que me come
assim, tão lento

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Tô cansada


                                  Paula Taitelbaum


Tô cansada
de foda
cronometrada
queria horas
e mais horas
de cravada
depois dormir
em concha
encaixada
com a xota
cheia
e toda
inchada.

sábado, 6 de maio de 2017

hosana ao grelo


Sylvio Back


tudo no grelo é
favo e inflável

tudo no grelo é
molusco e clava

tudo no grelo é
hígido e vibrátil

tudo no grelo é
hóstia e tugúrio

tudo no grelo é
mírreo e anseio

o grelo é ninfeu

sábado, 22 de abril de 2017

Boceta



Arnaldo Antunes


da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba

entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba
o tempo

domingo, 2 de abril de 2017

Poema da carne


Wenceslau de Queiroz (1865-1921)


Da carne rosada e branca
Do teu corpo primoroso
O prazer férvido arranca
Os arrepios do gozo...

Como um par de negras cobras,
Lambem-te o dorso umas tranças,
Que há muito tempo em mil dobras
Prenderam-me as esperanças.

Tuas cálidas narinas
Arfam – quando, ardente e louca,
Como folhas de cravinas,
Rolam-te os beijos da boca...

Latejam-te as fontes; todo
O delírio que tu sentes
Aflora de estranho modo
À luz de teus olhos crentes.

A sensação mais fugaz
Perfuma-te as róseas pomas,
Como se alguém destampasse
Um frasco cheio de aromas.

Tua pele povoada
De inumeráveis desejos
Treme e retrai-se irritada
À atroz pressão de meus beijos.

Quebra-te a voz na garganta
A titilação nervosa,
Que excita, que te quebranta
O corpo, Laís formosa.

Teus braços como cadeias
Cingem-me sempre... os sentidos
Imperam sobre as ideias,
Como um rei sobre os vencidos.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Pudica



Medeiros e Albuquerque (1867-1934)


Nua. Lambendo-lhe a epiderme lisa,
por sob a qual o sangue tumultua,
caiu-lhe aos pés, em flocos, a camisa,
deixando-a nua... inteiramente nua...

O pé, que a alvura do banheiro pisa,
mal os dedinhos róseos insinua
na água, que em largos círculos se frisa,
logo, fugindo lépido, recua...

Passa por todo o corpo um arrepio.
Duros e brancos, hirtam-se de frio
seus dois peitinhos. Tímida, medrosa,

corre a mão sobre o ventre torneado...
Nisto, lembrando, acaso, o namorado,
toda se tinge de um rubor de rosa...

domingo, 26 de fevereiro de 2017

sossegue coração


Paulo Leminski (1944-1989)


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa



domingo, 5 de fevereiro de 2017

A mulata quando fode parece querer voar



Francisco Moniz Barreto (1804-1868)


Se é das de buço ou bigode
E cor bem agarapada,
Mais se torna endiabrada
A mulata, quando fode.
À ponta da lança acode
Com ardideza sem par;
E, depois de se espetar
Toda nela, em doce fúria,
Como águia de luxúria,
Parece querer voar.

Abrasa, agita, sacode
O vivente pelos ares,
De Vênus nos crespos mares,
A mulata, quando fode.
Por baixo, ou por cima rode
Da porra, nesse rodar,
Mal — que na base do altar
Sente bater-lhe os colhões,
Fazendo deles balões,
Parece querer voar.

Só a mulata um pagode
Completo of’rece ao caralho;
É princesa de serralho
A mulata, quando fode.
Branca ou negra, não a pode
No rebolado igualar;
Quando, ardente, a se esporrar
A mulata principia,
Na asas da putaria
Parece querer voar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Vem, amado, vem


                                     Omar Khouri


Vem, amado, vem.
Faze de mim o que queiras:
Arregaça-me toda, se puderes.
Por que pudores tolos,
Se o tempo, agindo como um rolo,
Comprimirá xoxota,
Rola, ânus, peitos, boca,
Deixando tudo de fazer dó,
Transformando tudo em pó?


Voyeurs desde o Natal de 2009