Amigos da Alcova

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Preâmbulo do meu desejo


Anne Lucy 


Com a minúcia de um ritual, beije meus pés
Depois massageie-os
Beije meus joelhos, os dois
Beije minhas coxas interna e externamente

Pule para meu umbigo
Passe a língua ao seu redor suavemente
Não deixe muita saliva
Use seus sentidos – todos
Sinta o odor que cada parte do meu corpo exala

Me vire bruscamente, mas com cuidado
Resvale seu nariz no córrego das minhas costas
Deslize as pontas dos dedos em minhas costelas
Me deixe com bolinhas por todo o corpo

Olhe, cheire, deguste, ouça meus seios
Depois beije um por um que é para não rolar ciúmes
Muita atenção ao pescoço
Ele tem o poder de arrepiar todos os meus pelos

Beije meu queixo, bochechas e suas covas
Minhas olheiras tão marcadas por te esperar
Meus olhos acostumados de te ver no pensamento
Minha testa como um pedido respeitoso
Para que eu abra minhas portas

Encha suas mãos com os meus cabelos
Memorize o nível de sua maciez
Embriague-se com o seu cheiro

Só então, depois de percorrer meus mundos
Beije meus lábios: o primeiro e os segundos...

domingo, 20 de agosto de 2017

O jardim das delícias



Roberto Piva (1937-2010)


Teu sopro no corrimão anatômico sobre meus olhos
aquelas serpente com escamas de cicuta sacudida entre
tuas coxas de megatons
É um meio seguro de não mais aconchegar a mais serena
catástrofe
como um espelho de vingança acordado por um bater
de asas
& um piano que rola até o limite de doces raízes
onde se completam as cachoeiras das trepanações
TEUS OLHOS SÃO GRITOS DEMASIADO REDONDOS
Meu circuito de trincheiras pela mesma razão de ninho
de águia
tempo em que os 12 andares do sexo correm persianas
de galalite
relâmpagos do mesmo líquen magnético de tua boca
de quinze anos
quando não vais à escola para assistires Flash Gordon
& ler Oto Rank nas esquinas
o mundo continua sendo um breve colapso logo que as
pálpebras baixem
& meu amor por ti uma profanação consciente de eternas
estrelas de rapina


sábado, 5 de agosto de 2017

Episódio sentimental


Pedro Nava (1903-1984)


No terreiro tinha o mamoeiro só.
Na casa tinha a moça só
E a moça era minha namorada...

A moça cantava
de dia e de noite.
Às vezes dançava.

Se os mamões eram verdes,
ela era verde.
Se os mamões eram amarelos,
ela era amarela.
Mas eu cogitava nos seios da moça...
Seriam tetas? Seriam mamões?
Estariam verdes? Estariam maduros?

Chegavam pássaros,
bicavam os mamões:
se estavam verdes, esguichavam leite
se estavam maduros, corria açúcar.
E nos seios da moça
ai! ninguém bicava...
Um era amarelo: teria açúcar?
um era verde: teria leite?
O mamoeiro crescia,
a moça crescia,
meu amor crescia,
a moça dançava
e os seios subiam,
eu namorava
e os mamões caíam...

Os pássaros vinham,
os dias fugiam...

Ela dançou tanto que os seios caíram...
Seriam seios? Seriam mamões?

Depois o Bicho Urucutum comeu o mamoeiro...
Comeu de mansinho
o tronco e raízes,
os mamões e as tetas.
O Bicho Urucutum era enorme e vagaroso!

Ela nunca mais dançou
eu nunca mais olhei,
nosso amor se acabou.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

não vem de fora


                                  Sandra Camurça


não vem de fora
vem de dentro
esse fogo que me come
assim, tão lento

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Tô cansada


                                  Paula Taitelbaum


Tô cansada
de foda
cronometrada
queria horas
e mais horas
de cravada
depois dormir
em concha
encaixada
com a xota
cheia
e toda
inchada.

sábado, 6 de maio de 2017

hosana ao grelo


Sylvio Back


tudo no grelo é
favo e inflável

tudo no grelo é
molusco e clava

tudo no grelo é
hígido e vibrátil

tudo no grelo é
hóstia e tugúrio

tudo no grelo é
mírreo e anseio

o grelo é ninfeu

sábado, 22 de abril de 2017

Boceta



Arnaldo Antunes


da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba

entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba
o tempo

domingo, 2 de abril de 2017

Poema da carne


Wenceslau de Queiroz (1865-1921)


Da carne rosada e branca
Do teu corpo primoroso
O prazer férvido arranca
Os arrepios do gozo...

Como um par de negras cobras,
Lambem-te o dorso umas tranças,
Que há muito tempo em mil dobras
Prenderam-me as esperanças.

Tuas cálidas narinas
Arfam – quando, ardente e louca,
Como folhas de cravinas,
Rolam-te os beijos da boca...

Latejam-te as fontes; todo
O delírio que tu sentes
Aflora de estranho modo
À luz de teus olhos crentes.

A sensação mais fugaz
Perfuma-te as róseas pomas,
Como se alguém destampasse
Um frasco cheio de aromas.

Tua pele povoada
De inumeráveis desejos
Treme e retrai-se irritada
À atroz pressão de meus beijos.

Quebra-te a voz na garganta
A titilação nervosa,
Que excita, que te quebranta
O corpo, Laís formosa.

Teus braços como cadeias
Cingem-me sempre... os sentidos
Imperam sobre as ideias,
Como um rei sobre os vencidos.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Pudica



Medeiros e Albuquerque (1867-1934)


Nua. Lambendo-lhe a epiderme lisa,
por sob a qual o sangue tumultua,
caiu-lhe aos pés, em flocos, a camisa,
deixando-a nua... inteiramente nua...

O pé, que a alvura do banheiro pisa,
mal os dedinhos róseos insinua
na água, que em largos círculos se frisa,
logo, fugindo lépido, recua...

Passa por todo o corpo um arrepio.
Duros e brancos, hirtam-se de frio
seus dois peitinhos. Tímida, medrosa,

corre a mão sobre o ventre torneado...
Nisto, lembrando, acaso, o namorado,
toda se tinge de um rubor de rosa...

domingo, 26 de fevereiro de 2017

sossegue coração


Paulo Leminski (1944-1989)


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa



domingo, 5 de fevereiro de 2017

A mulata quando fode parece querer voar



Francisco Moniz Barreto (1804-1868)


Se é das de buço ou bigode
E cor bem agarapada,
Mais se torna endiabrada
A mulata, quando fode.
À ponta da lança acode
Com ardideza sem par;
E, depois de se espetar
Toda nela, em doce fúria,
Como águia de luxúria,
Parece querer voar.

Abrasa, agita, sacode
O vivente pelos ares,
De Vênus nos crespos mares,
A mulata, quando fode.
Por baixo, ou por cima rode
Da porra, nesse rodar,
Mal — que na base do altar
Sente bater-lhe os colhões,
Fazendo deles balões,
Parece querer voar.

Só a mulata um pagode
Completo of’rece ao caralho;
É princesa de serralho
A mulata, quando fode.
Branca ou negra, não a pode
No rebolado igualar;
Quando, ardente, a se esporrar
A mulata principia,
Na asas da putaria
Parece querer voar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Vem, amado, vem


                                     Omar Khouri


Vem, amado, vem.
Faze de mim o que queiras:
Arregaça-me toda, se puderes.
Por que pudores tolos,
Se o tempo, agindo como um rolo,
Comprimirá xoxota,
Rola, ânus, peitos, boca,
Deixando tudo de fazer dó,
Transformando tudo em pó?


domingo, 25 de dezembro de 2016

Súcubo


Emiliano Pernetta (1866-1921)


Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...

Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...

E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!

Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

As you like it



Guimarães Passos (1867-1909)

A Fontoura Xavier

Tu tens quinze anos, apenas...
Com diferença de meses;
E eu quase quinze... duas vezes.
‘Stou velho! Não tem que ver...
Tu entras a primavera
Com todo o galhardo entorno,
E eu vejo o amarelo outono
Os braços a me estender.

As rosas fulgem-te às faces,
Estás na estação das flores;
Teus lábios furtam as cores
Que as rosas das faces têm.
O nardo nos teus cabelos
Desprende um cheiro tão doce!...
Um homem aproximou-se
Ficou cheirando também...

Que lírios não se envergonham
Se às tuas mãos se comparam?
Os lábios que te beijaram...
Não! Tal ninguém nunca fez...
Beijasse-os alguém e eu juro:
Tal néctar encontraria,
Que, com certeza morria...
Se não os beijasse outra vez.

Que um beijo mata é verdade;
Porém, outro beijo cura,
É o caso da mordedura,
Da mordedura do cão;
Um só transtorna a cabeça,
Mas, se outro em cima se emite,
Provoca mais o apetite,
Mas faz bem ao coração.

Eu, nessa história de beijos,
Posso falar de cadeira:
Que, ou beijo por brincadeira,
Ou beijo com tal furor,
Que, quando o sutil veneno
Pensa encontrar-me disposto,
Já beijei tanto por gosto,
Que beijo então por favor.

Voltemos à vaca fria...
Não queres me ouvir?! Pudera!
Tu estás na primavera...
Vamos lá: no outono estou.
Tu tens as flores mais frescas,
Tens os lírios impolutos
E vês que eu gosto de frutos...
(Me culpe quem não gostou!)

Fiquemos ambos tranquilos!
As estações respeitemos!
É bom que nos evitemos,
Por muitíssimas razões.
Uma delas, a mais forte
Talvez, ou das mais felizes,
É mesmo, como tu dizes,
O choque das estações.

Então, primavera e outono
Ardem num fogo de estio...
Vem depois um doce frio,
Uns tremores anormais...
E, quando os olhos abrimos,
Nós, que os fechamos serenos,
Que vês? Uma flor de menos...
Que vejo? Um fruto de mais...


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Plena nudez


Raimundo Correia (1859-1911)


Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios

Nus... toda nua, da cabeça aos pés!

sábado, 29 de outubro de 2016

Encarnação



Cruz e Sousa (1861-1898)


Carnais, sejam carnais tantos desejos,
Carnais, sejam carnais tantos anseios,
Palpitações e frêmitos e enleios,
Das harpas da emoção tantos arpejos...

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
À noite, ao luar, entumescer os seios
Lácteos, de finos e azulados veios
De virgindade, de pudor, de pejos...

Sejam carnais todos os sonhos brumos
De estranhos, vagos, estrelados rumos
Onde as Visões do amor dormem geladas...

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
Formem, com claridades e fragrâncias, 
A encarnação das lívidas Amadas!

domingo, 9 de outubro de 2016

Unde salus?


Múcio Teixeira (1857-1928)


Meu caralho murchei na foda insana
Dos cus e conos em que me esporrava;
Ai, louco eu cria e crédulo esperava
Ser em mim imortal potência humana!

De quantos cus – de fêmea e de sacana –
No constante calor eu me esquentava!
Mas, eis que tenho a pobre porra escrava
Do mal que o gálico em caralhos dana.

Conos, escravos meus, e meus senhores;
O que mais ergue as pontas do bigode,
Menos levanta o facho dos amores.

Ninguém nesta impotência aqui me acode;
Recolha espinhos quem colheu mais flores;
Tome no cu – quem fornicar não pode.

Voyeurs desde o Natal de 2009