Amigos da Alcova

domingo, 13 de maio de 2018

Resposta da quinteira



António Maria Eusébio, O Calafate


Mote

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão.

Glosa

Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora,
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos;
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha;
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A Quinteira da Panasqueira



António Maria Eusébio, O Calafate


Mote

Fui apalpar as gamboas
que a quinteira tem na quinta,
já tem marmelos maduros,
o seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
quero e gosto das mais pessoas:
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pelos altos
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
num regato ao pé de um poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.

domingo, 15 de abril de 2018

Lembrança de maio




Adélia Prado


Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
É tão bom existir!
Seivas, vergônteas, virgens,
tépidos músculos
que sob a roupa rebelam-se.
No topo do altar ornado
com flores de papel e cetim
aspiro, vertigem de altura e gozo,
a poeira nas rosas, o afrodisíaco
incensado ar de velas.
A santa sobre os abismos –
à voz do padre abrasada
eu nada objeto,
lírica e poderosa.


domingo, 4 de março de 2018

enquanto um dedo esmaga




E. M. de Melo Castro 


enquanto um dedo esmaga
uma curva ou um aro
outros dedos distendem
os tendões que entendem

no súbito na água
a luz vértice faro
os membros que se fendem
lábios que dizem, rendem

quem diz cu diz a cona
em masculino estilo
as procuradas fendas afluentes

que no homem se excluem
na fêmea se completam
delta logo de lagos mijo nilo

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Balada das filhas do Zeca Tinga



Miguel de Souza

Das filhas do Zeca Tinga,
a que mais, no fundo, adoro?                 AS FILHAS DO ZECA TINGA                                    
Não a Maria das Dores,
essa, por ser a mais bela,                                         
a flor de todas as flores
da prole do Zeca Tinga.
Com seus olhinhos pretos,
Com seu cabelo franjinha,
 Arredondada a boquinha,
No pescoço, um amuleto;
Sua pele cor de neve,                                      MARIA DAS DORES
Qual toda garota deve:
Educada como ninguém.
Por ser tão bonita assim,
Acho, não é pra mim,
Mas sim, de outro alguém.
A segunda filha, Ivete.
Sua graça não me agrada,
E, além disso, ela se mete
A ser das três a danada!
Aquela que mais namora                        A SEGUNDA FILHA, IVETE
De todas mais desejada,
Aquela de quem primeiro,
Arrancaram-lhe o cabaço...
Foi no mês de fevereiro,
Ou terá sido em março?
Bem, isso pouco me importa!
Quando o hímen se rompeu
Houve gesto de dor/gozo,
No pênis dum tal Pompeu,
Que era metido a Dom Juan!
Já havia deflorado,
A filha do Seu Conrado,
E Dulcina, sua irmã.
Isso sem contar, é claro,
Com as outras investidas,
Como a filha do Seu Amaro,                           POMPEU, DOM JUAN
Daquelas bem enxeridas,
Que transam só por transar.
Mas, o pior fato se deu
Com a filha do Antenor
Que, por causa de seu amor,
A mesma, um dia, enlouqueceu.
Não sei se por força da lua,
Sai por aí, às vezes nua,
À procura do Pompeu.
A terceira filha, Dora,
Não era tão bela assim,
Mas sabia se embonitar,
Era branca, rubra, loura,                        A TERCEIRA FILHA, DORA
E todos os homens a fim,
Que havia no lugar,
Inclusive Dom Juan.
Ah, como eu queria a Dora!
Afagar sua tez branca,
Só de olhar as suas ancas,
Dava vontade de... Enfim...
Tê-la todinha pra mim!                          DO MEU DESEJO POR DORA
Saciar-me em sua cona,
Ser seu verdadeiro dono,
Ela, minha única dona.
Mas não foi bem assim.
Dora era a bola da vez,
No taco de Dom Juan,
Já tinha comido as irmãs,
Agora era a número três,                 DAS INVESTIDAS DE DOM JUAN
Para a sua investida.
Aí, o afamado Pompeu,
Encontrou certo obstáculo,
Ele por ser tão másculo,
Não encontrou mesmo guarida,                     
No bom coração de Dora.
Que se resguardava intacta,                     DO MOTIVO DE DORA
Para o príncipe encantado,
Seu prometido, seu amado,
Seu verdadeiro e único amor.
Das filhas do Zeca Tinga,
A que mais no fundo gosto,
É mesmo da amada Dora,
Que meu coração não xinga,
Ao contrário, só elogia!
E por isto, não se vinga                        DO MEU DESEJO POR DORA (l)
Por ter me dito um “não!”
Ah, como queria ser
O seu encantado Príncipe,
E do seu amor partícipe,
Dono do seu coração!


sábado, 20 de janeiro de 2018

Versos íntimos



Paulo Veloso (1909-1977)



Vês?! De que te serviu tamanho nabo
E esse par de colhões, tão volumoso?
Somente o meu caralho – esse guloso –
Foi amigo sincero do teu rabo.

Acostuma-te sempre ao meu peru.
O puto que, no mundo miserável,
Mora entre machos, sente inevitável
Necessidade de tomar no cu.

Toma um ovo. Segura esta pichorra.
A foda, amigo, é a véspera da porra.
O pau que fode é o mesmo que se esporra.

Se acaso no teu cu dei algum talho,
Peida no pau a tít'lo de desforra
E caga na cabeça do caralho.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Maria tem vinte amantes!


Olavo Bilac (1865-1918)


Maria tem vinte amantes!
Uns tortos, outros direitos;
Todos eles são galantes,
Todos vivem satisfeitos…

Mulher de recursos fartos!
Como é que esta impenitente,
Tendo no corpo dois quartos,
Dá pousada a tanta gente?

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O amor ardendo em mel



Max Martins (1926-2009)


Morder! morder o
hímen adocicado
– frêmito de lâmina
entre duas coxas
do polo ao pólen.
E o apolo laminar morder.
Morder os bicos dos figos
antes que murchos
antes dos dentes
sempre morder
e jamais sugar
da lua a sua ferrugem.
Morder somente a sua semente
antes de agora
antes da aurora
morder
e arder em mel
o amor.


domingo, 3 de dezembro de 2017

Não me toques


Sosígenes Costa (1901-1968)


Ô Maria Madalena,
não deites mirra em meu corpo
que tenho a pele cortada
e estou com o peito ferido.

Não gastes tantos perfumes
que Judas pode falar.

Eu quero apenas um beijo
da tua boca vermelha,
pois ela tem mais aroma
do que cem libras de mirra.

Não deixes que as pombas venham
pousar aqui no meu ombro
pois o meu ombro é uma chaga
e estou com o peito sangrando.

Por que tu és tão romântica
e vives me perfumando
com esse nardo celeste
lá dos jardins de Engadi?

Por que me tratas, Maria,
como se eu fosse as gazelas
que estão nos montes de aromas?

Ô Maria Madalena
que vens com a brisa da aurora,
tu és uma prostituta
e eu gosto tanto de ti!


domingo, 19 de novembro de 2017

Araras versáteis



Hilda Hilst (1930-2004)


Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii…
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.


domingo, 5 de novembro de 2017

Limeiriques


Bráulio Tavares


1
Era uma vez um rapaz de Caruaru
que era doido pra comer o próprio cu.
Dizia, fora de si:
“Pra que um pau em forma de ‘I’?
Pra alcançar o ‘O’, tinha que ser um ‘U’!!!”

2
Era uma vez uma moça de Cuba
desse tipo que apenas se masturba;
Dizia: “o ato sexual
só é aceitável e normal
a sós – a dois, já é suruba!”

3
Havia uma moça chamada Virgínia
que foi trepar com um crioulão da Abissínia.
Muito vaidoso ele ficou
pensando que a deflorou...
mas apenas esqueceu de tirar-lhe a calcinha!

4
Havia um cangaceiro chamado Corisco
machão, sisudo, cabreiro e arisco.
Dormia ao lado de Lampião
pegando seu pau com a mão...
para saber que não corria nenhum risco.

5
Pra cultivar o limeirique
basta ter rimas raras, muito pique,
boa noção de suspense
dois dedinhos de nonsense
e uma mente turpilóquia (SIC).

sábado, 14 de outubro de 2017

Gotas


Alice Ruiz

gotas
caem em golpes
a terra sorve
em grandes goles

chuva
que a pele não enxuga
lágrima
a caminho de uma ruga

água viva
água vulva

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Preâmbulo do meu desejo


Anne Lucy 


Com a minúcia de um ritual, beije meus pés
Depois massageie-os
Beije meus joelhos, os dois
Beije minhas coxas interna e externamente

Pule para meu umbigo
Passe a língua ao seu redor suavemente
Não deixe muita saliva
Use seus sentidos – todos
Sinta o odor que cada parte do meu corpo exala

Me vire bruscamente, mas com cuidado
Resvale seu nariz no córrego das minhas costas
Deslize as pontas dos dedos em minhas costelas
Me deixe com bolinhas por todo o corpo

Olhe, cheire, deguste, ouça meus seios
Depois beije um por um que é para não rolar ciúmes
Muita atenção ao pescoço
Ele tem o poder de arrepiar todos os meus pelos

Beije meu queixo, bochechas e suas covas
Minhas olheiras tão marcadas por te esperar
Meus olhos acostumados de te ver no pensamento
Minha testa como um pedido respeitoso
Para que eu abra minhas portas

Encha suas mãos com os meus cabelos
Memorize o nível de sua maciez
Embriague-se com o seu cheiro

Só então, depois de percorrer meus mundos
Beije meus lábios: o primeiro e os segundos...

Voyeurs desde o Natal de 2009