Amigos da Alcova

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Metempsicose



Antero de Quental (1842-1893)


Ardentes filhas do prazer, dizei-me!
Vossos sonhos quais são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
do que fostes em vós se agita e freme?

Noutra vida e outra esfera, aonde geme
outro vento, e se acende um outro dia,
que corpo tínheis? Que matéria fria
vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes, nas florestas, bravas feras,
arrastando, leoas ou panteras,
de dentadas de amor um corpo exangue...

Mordei, pois, esta carne palpitante,
feras feitas de gaze flutuante...
Lobas! Leoas! Sim, bebei meu sangue!

domingo, 21 de julho de 2019

O labirinto das vulvas



Claudio Rodríguez Fer


Todo labirinto sai do meio das virilhas,
onde os centro se bifurcam em ípsilon
para a morada matriz, vagina e vulva.

Nunca muros nos óvulos do universo
e nunca túneis para vermes de luz:
o machado ritual de dois gumes
batendo nos lábios das vulvas vasilhas
com as suas asas de borboleta urgente
até que estalam rizomas de açafrão infinito.

Touros brancos ruminam tempo e espaço
de donas das bestas com felinos na testa:
a das serpes no colo e nos braços,
a das cobras apanhadas com as mãos,
a dos peitos da vida oferendada
pelo ubres das vacas do leite preto.

São as bestas vermelhas do lírio
queimando o fio do novelo dos fluxos
nas ondas telúricas da vagina da terra,
onde voam as golfinhas nuas,
onde nadam as perdizes despidas,
onde pasce estrelas o minotauro azul.

Útero labirinto das vulvas,
labareda de lábeis lábios
em limiares de limiares sem limites.
(Cnossos, Creta)

(Trad. Saturnino Valladares)



domingo, 30 de junho de 2019

Kama



                              Nei Leandro de Castro


a mulher oferta
sua antropofágica
flor aberta.
O homem aceita e recusa
aceita e recusa
aceita e recusa
aceita e recusa.
Não podendo mais,
toma-a de assalto
e morre em paz.

domingo, 26 de maio de 2019

Mim dobra!



Múcio Teixeira (1857-1928)


Eu vi-a dormindo, com as mãos entre as coxas,
as nádegas roxas, a crica a pingar...
E vinham-lhe ao ventre quebrar-se em desmaios
os pálidos raios de um morno luar.

Que noite!... Que foda! Que leite de pica
no fundo da crica lhe fui entornar!...
Que anseios! Que gostos! Por vê-la fodida,
de crista caída – fiquei a babar...

E a porra sumia-se... e eu tinha desejos
de encher-lhe de beijos o cono vermelho.
Porém a potência já vai me faltando,
e eu, triste, brochando, penteava o pentelho...

Quando ela pedia mais uma, gemendo,
cheguei-me tremendo, já quase a tocá-la;
propícia era a hora, pois amanhecia...
e eu sinto de dia mais gosto na gala...

Mas, antes da porra se erguer novamente,
senti de repente que o sol já fulgia:
a triste banhou-se, vestiu-se, zangada...
e a porra, qual nada! Mais murcha pendia...

E eu vi-a dormindo, com as mãos entre as coxas,
as nádegas roxas, a crica a pingar...
nem mesmo o de mijo tesão matutino
me enrija o pepino depois de acabar.



sábado, 11 de maio de 2019

Adormecida


Castro Alves (1847-1871)


Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço de horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos – beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava, ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P’ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!
Virgem! – tu és a flor de minha vida!...”



domingo, 7 de abril de 2019

Passeio no campo



Florbela Espanca (1894-1930)


Meu Amor! Meu Amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
– Vamos correr e rir por entre o trigo! 

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...

domingo, 10 de março de 2019

Depois do pecado



Sosígenes Costa (1901-1968)


Deus fez a folha da vinha
para cobrir a nudez
do elegante almofadinha
e do rude camponês.

E, dentre as folhas da parra,
Deus fez uma cor-de-rosa
para cobrir mais bizarra
o corpo da melindrosa.

Deus fez a folha da uva.
Porém Satã não gostou
e fez então a saúva

que essa folha esburacou.
A linda folha celeste
ficou portanto escabrosa.

Eis porque a melindrosa
quando agora a folha veste
fica tão indecorosa.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Respeito é bom, e eu gosto!



Leila Miccolis


A sonhos imorais
eu não sou dada:
até minhas curras
são bem-comportadas...

domingo, 13 de janeiro de 2019

Célio, nossa Lésbia



Catulo (87-54 a.C.) 

Célio, nossa Lésbia,
Lésbia,
a Lésbia que Catulo amou
mais do que a si mesmo e do que aos seus
agora
em becos e bibocas
suga os membros
(gulosa)
da estirpe magnânima de Remo.

(Trad. Haroldo de Campos)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Particularidades


Gilka Machado (1893-1980)


Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pelos...

Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, às boas, à peliça...

O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.

***

Tudo quanto é macio os meus ímpetos doma,
e flexuosa me torna e me torna felina.
Amo do pessegueiro a pubescente poma,
porque afagos de velo oferece e propina.

O intrínseco sabor lhe ignoro, se ela assoma,
no rubor da sazão, sonho-a doce, divina!
gozo-a pela maciez cariciante, de coma,
e o meu senso em mantê-la incólume se obstina...

Toco-a, palpo-a, acarinho o seu carnal contorno,
saboreio-a num beijo, evitando um ressábio,
como num lento olhar te osculo o lábio morno.

E que prazer o meu! que prazer insensato!
– pela vista comer-te o pêssego do lábio,
e o pêssego comer apenas pelo tato.



domingo, 2 de dezembro de 2018

Com cachopinha de gosto



Gregório de Matos (1633-1696)

MOTE
As excelências do cono
é ser bem grande, e papudo,
apertado, bordas grossas,
chupão, enxuto, e carnudo.

1
Com cachopinha de gosto
em cama de bom colchão,
nos peitinhos posta a mão,
e o pé no fincapé posto:
ajuntar rosto com rosto,
dormir um homem seu sono,
acordar, calcar-lhe o mono
já quase ao gorgolejar,
então é o ponderar
As excelências do cono.

2
Eu na minha opinião,
segundo o meu parecer,
digo, que não há foder,
senão cono de enchemão:
porque um homem com Sezão,
inda sendo caralhudo,
meterá culhões, e tudo,
e assim mostra a experiência,
que do cono a excelência
É ser bem grande, e papudo.

3
É também conveniente,
que não tenha o parrameiro
a nota de ser traseiro,
e que seja um tanto quente:
que às vezes mui facilmente
são tais as misérias nossas,
que havemos mister as moças
para regalo da pica
com cono de pouca crica,
Apertado, bordas grossas.

4
Mas a maior regalia,
que no cono se há de achar,
para que possa levar
dos conos a primazia
(este ponto me esquecia)
para ser perfeito em tudo,
é nunca se achar barbudo,
por dar bom gosto ao foder,
como também deve ser
Chupão, enxuto, e carnudo.


sábado, 10 de novembro de 2018

Quichimbi sereira negra



Jorge de Lima (1893-1953)


Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
que tem partes de chigonga
não tem cabelos no corpo,
é lisa que nem muçum,
é ligeira que nem buru
não tem matungo e é donzela,
ao mesmo tempo pariu
jurará sem urucaia.
Quichimbi vive nas ondas
coberta de espuma branca,
dormindo com o boto azul,
conservando a virgindade
tão difícil de sofrer.
Quichimbi segue nas ondas
dez mil anos caminhando,
dez mil anos assistindo
as terras mudar de dono,
o mar servindo de escravo
ao homem branco das terras.
Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
dormindo com o boto azul,
não sabe de nada, não.


domingo, 7 de outubro de 2018

Fuga do centauro



Dante Milano (1899-1991)


Surpreendi-a numa gruta,
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.

Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...

Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
– Ela dava gargalhadas.

Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.

Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.

Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...

domingo, 23 de setembro de 2018

Rosário



Vinicius de Moraes (1913-1980)


E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha...
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado
Lembro que longe, nos Ionges
Um gramofone tocava
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona na água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pelo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana brava.
Senti à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só naquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe para quem, quem sabe?
Mas como me seduzia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava...
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.

Voyeurs desde o Natal de 2009