Amigos da Alcova

domingo, 4 de junho de 2023

Incêndio

 

Maria Teresa Horta

 


Este fogo em mim

água revolta

 

Este incêndio do corpo

desatado

 

Este fermento do beijo

que escorrega

 

Esta loucura ardendo

em todo o lado

 

domingo, 14 de maio de 2023

Extrema

 

Alberto de Oliveira (1857-1937)


 

Quero-te aqui, minha somente! os braços

Meus, e o colo, e cabeça, e a boca, e o rosto!

Tu matarás todo o infernal desgosto,

Toda a amargura que me segue os passos.

 

Seja dia ao nascer, seja sol-posto,

Ou chova ou torrem cálidos mormaços

Tu me serás repouso aos membros lassos,

Minha somente, meu marmóreo encosto...

 

Em ti, como num céu que é meu agora,

As asas canse o espírito suspenso,

Sacie-se o ideal que me devora.

 

Vamos: dos seios mostra-me o tesouro,

Solta o cabelo, e que eu sonhe e morra, o incenso,

Bêbado, haurindo dessa nuvem de ouro.

 

domingo, 30 de abril de 2023

Os anjos de Sodoma

 

Roberto Piva (1937-2010)

 

Eu vi os anjos de Sodoma escalando

um monte até o céu

E suas asas destruídas pelo fogo

abanavam o ar da tarde

Eu vi os anjos de Sodoma semeando

prodígios para a criação não

perder o ritmo de harpas

Eu vi os anjos de Sodoma lambendo

as feridas dos que morreram sem

alarde, dos suplicantes, dos suicidas

e dos jovens mortos

Eu vi os anjos de Sodoma crescendo

com o fogo e de suas bocas saltavam

medusas cegas

Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e

violentos aniquilando os mercadores,

roubando o sono das virgens,

criando palavras turbulentas

Eu vi os anjos de Sodoma inventando

a loucura e o arrependimento de Deus

 

domingo, 9 de abril de 2023

Roast-Beef

 


Fontoura Xavier (1856-1922)

A Artur Azevedo

 

 

Ela tem a beleza, a flácida estrutura,

Os contornos viris, geométricos, altivos,

A branca carnação dos bons modelos vivos

Do mágico buril dos Fídias da escultura.

 

Ressumbra-lhe a epiderme — alvíssima textura —

Os filtros sensuais, os tóxicos lascivos,

Que aos mártires da Fé, aos crentes primitivos,

Serviram de adoçar o cálix da amargura.

 

Ao vê-la, não cobiço os ócios dum nababo,

Nem penso num cavalo elástico do Cabo

Para furtá-la às mãos de um Jônatas patife.

 

Ouço um coro ideal e harmônico de beijos!

E sinto fervilhar-me o pego dos desejos

De um Tântalo faminto em face de um roast-beef!

 

domingo, 19 de março de 2023

II Bucólica – Aléxis

 

Virgílio (70-19 a.C)

 

Córidon, o pastor, ardia pelo belo Aléxis,

delícias de seu dono, mas não tinha o que esperar.

Apenas frequentava as faias densas, de sombrias

copas, junto das quais lançava aos montes e florestas,

com vã paixão, sozinho, estes lamentos mal cuidados:

 

“Não prestas atenção, cruel Aléxis, nos meus cantos?

Não tens pena de nós? Assim acabarei morrendo.

Agora até os rebanhos buscam o frescor e as sombras;

agora escondem-se nas sarças os lagartos verdes,

e, para os ceifadores que o calor esfalfa, Téstilis

ervas de cheiro antigo esmaga com serpilho e alho.

Contudo, enquanto os rastros eu te sigo ao sol ardente,

soam comigo os arvoredos, roucos de cigarras.

Não seria melhor sofrer as iras aflitivas

e os soberbos desprezos de Amarílis? Ou Menalcas,

moreno embora seja ele, quando tu és alvo?

Não te fies demais nas cores, ó menino belo:

caem as brancas alfenas, colhem-se os murtinhos negros.

Tu me desprezas, nem indagas quem sou eu, Aléxis,

quantos rebanhos tenho, quanto leite cor de neve;

erram nos montes da Sicília as minhas mil cordeiras;

não me falta no estio leite fresco, nem no inverno;

eu canto o que cantava habitualmente Anfião de Dirce

no atiço Aracinto, se chamava os seus rebanhos.

E não sou feio assim: vi-me na praia há pouco tempo,

com o mar tranquilo sob o vento: não receio Dáfnis,

sendo tu mesmo o juiz, se não enganam as imagens.

 

“Oh!, se quisesses tão-somente repartir comigo

uma choupana humilde em pobre campo, flechar veados,

levar cabritos, em rebanho, ao verde malvaísco!

Junto comigo, imitarás cantando Pã nas selvas.

Pã ensinou-nos a ligar com cera várias canas,

Pã cuida dos rebanhos e dos guias dos rebanhos.

Não te aborreças de esfregar os lábios nessa frauta;

para outro tanto conhecer, que não fazia Amintas?

De sete tubos desiguais, pertence-me uma frauta

que Dametas me deu, em dias idos, de presente,

dizendo-me ao morrer: “Agora és o segundo a tê-la.”

Dametas disse, e Amintas, o insensato, teve inveja.

Dois cabritos também, que achei em vale não seguro,

ainda têm na pele manchas brancas, e por dia

secam dois ubres de uma ovelha, guardo-os para ti.

Algum tempo já faz que Téstilis os quer levar,

e os levará, que te repugnam os presentes nossos.

 

“Vem para cá, belo menino; as Ninfas para ti

trazem cestas de lírios; para ti a branca Náiade

colhe violetas pálidas, também papoulas altas,

e narcisos lhes junta, e a perfumada flor do aneto;

então tecendo-os com a lauréola e outras ervas suaves,

orna os murtinhos tenros com os tegetes amarelos.

E frutos brancos, de lanugem branda, eu colherei,

e essas castanhas que a Amarílis minha tanto amava;

ameixas cor de cera juntarei, assim honrando-as;

e colher-te-ei, ó louro, e próximo de ti porei

o mirto: juntos, misturais vossos odores suaves.

 

“Córidon, és um tonto! Aléxis foge a teus presentes,

e, se lutares com presentes, poderás com Iolas?

Ah, mísero, que fiz? Lancei perdido o Austro nas flores,

e javalis eu atirei nas fontes transparentes.

De quem foges, demente? Os deuses habitaram selvas,

e Páris, o dardânio. More Palas nos baluartes

que ela fundou; antes que tudo agradem-nos as selvas.

De olhar feroz, a leoa busca o lobo; o lobo, a cabra;

a cabra amiga de brincar busca o florido cítiso;

Córidon a ti, Aléxis: cada qual com o seu prazer.

Vê: o arado suspenso ao jugo puxam-no os novilhos,

e o sol a decair duplica as sombras que se alongam.

Contudo ardo de amor; que meio-termo tem o amor?

 

“Córidon, Córidon, ah que demência te tomou?

Semipodada tens a vide no frondoso olmeiro;

por que antes não preparas algo que faz falta ao uso,

entretecendo o vime e, a par, o junco tão flexível?

Se Aléxis te desdenha, encontrarás um outro Aléxis.”

 

(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)

domingo, 5 de março de 2023

Afrodisíaca


Urhacy Faustino

 

Diabruras

faço na cama

quando dizes

que me amas;

ao mesmo tempo relutas

e me arranhas,

se digo que és minha puta –

tenho culpa

se teu cheiro me assanha?

 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Fusão

 

Astrid Cabral

 

Não te quero

assim a meu lado

e sim em mim.

De tal forma

interpenetrados

que eu deixe de ser eu

e tu de seres tu.

Sejamos pois um nós

singular e não plural

trançados sem dó

num só nó.

 

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Cabocla da bunda baixa

 

Sergio Luiz Pereira (1966-2015)

 

Cabocla da bunda baixa

De coxa grossa e roliça

Do teu corpo feito a mata

Vai desprendendo um almíscar.

Morena que teu bailado

Que só me exulta e escraviza

Vou passear a teu lado

Sentir teu peito na língua.

Beijar tua boca de fruto

E nesse beijo esquecer

Que muito não me preocupo

Senão que todo prazer.

E nada mais acrescento

Se me dás tudo a contento.


domingo, 22 de janeiro de 2023

Por decoro

 

Artur Azevedo (1855-1908)

 

Quando me esperas, palpitando amores,

e os lábios grossos e úmidos me estendes,

e do teu corpo cálido desprendes

desconhecido olor de estranhas flores;

 

quando, toda suspiros e fervores,

nesta prisão de músculos te prendes,

e aos meus beijos de sátiro te rendes,

furtando às rosas as purpúreas cores;

 

os olhos teus, inexpressivamente,

entrefechados, lânguidos, tranquilos,

olham meu doce amor, de tal maneira,

 

que, se olhassem assim, publicamente,

deveria, perdoa-me, cobri-los

uma discreta folha de parreira.

 

sábado, 31 de dezembro de 2022

Fábula

 Mano Melo

(Pra se espalhar nos mictórios de butiquins e outros afins)

 

 

Era uma vez um jacaré careta que se chamava jacareta

E que gostava muito de inventar umas histórias de buceta

Até que um dia teve uma crise de atos falhos

E ao invés de histórias de buceta

Passou a inventar umas histórias de caralho

 

Vivia uma vidinha dessas que não lusca nem ofusca

Dividido entre a sua dificuldade de carinho

E o amor que dedicava ao seu fusca

Na traseira do carrinho pendurou um plástico: fofinho

 

E assim de ato falho em ato falho

Trocando alhos por bugalhos e bucetas por caralhos

Jacareta – o jacaré careta

Trocou seu nome para jacaralho – o jacaré caralho



domingo, 11 de dezembro de 2022

Gandaia

 

Bruna Lombardi

 

amor, socorre

me arranca a roupa, me salva

mexe comigo, me bole

me lava

 

me tira essas coisas todas da cabeça

me tira a saia

você vai ver que eu sou palhaça à beça

que eu gosto de arruaça e de gandaia

 

amor me acode

deixa eu dançar

nas feiras, nas rodas

desenfrear de todo esse prazer que explode

 

das liberdades, meu amor, eu quero todas.


sábado, 26 de novembro de 2022

Bola de Cristal

 

                              Eduardo Kac

 


vejo que uma grande pika incandescente

se ergue em direção à boceta da terra

é o princípio de uma nova era

nela se entenderão as coisas boas da vida

em todos os sentidos

a palavra sacanagem perderá seu sentido sórdido

sacanagem será sacanagem

vida será vida mesmo

e a poesia se fará necessária

como nunca o foi em toda a história

 

sábado, 5 de novembro de 2022

Cidra, ciúme


Soror Maria do Céu (1658-1753)

 

É ciúmes a Cidra,

E indo a dizer ciúmes disse Hidra,

Que o ciúme é serpente,

Que espedaça seu louco padecente,

Dá-lhe um cento de amor o apelido,

Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,

Vê-se cheia de espinhos e amarela,

Que piques e desvelos vão por ela,

Já do forno no lume,

Cidra que foi zelo, senão foi ciúme,

Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,

Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.

  

domingo, 9 de outubro de 2022

Antropofagia

 Carvalho Junior (1855-1879)

 


Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas

Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,

Como um bando voraz de lúbricas jumentas,

Instintos canibais refervem-me no peito.

 

Como a besta feroz a dilatar as ventas

Mede por dar-lhe o bote a jeito,

Do meu fúlgido olhar às chispas odientas

Envolvo-te e, convulso, ao seio meu t’estreito:

 

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,

Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,

Em toda essa extensão pululam meus desejos,

 

– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,

Cevando a seu talante as fomes bestiais

Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!

 


sábado, 24 de setembro de 2022

Quando canta a Maldonado

 

Gonçalves Crespo (1846-1883)

 

 

Quando canta a Maldonado

E os quadris saracoteia,

Não é mulher, é sereia,

Não é mulher, é o pecado.

 

Ao vê-la, pois, enleado

Perco o siso, o verbo, a ideia,

E um desejo audaz se enleia

Neste peito meu bronzeado.

 

Chamei-te sereia! engano!

Nunca tolice maior

Borbotou do lábio humano.

 

Que toda a sereia, flor,

Finda em peixe... e ou eu me engano,

Ou tu acabas... melhor.

 


domingo, 28 de agosto de 2022

A menina e a estátua

 

Cecília Meireles (1901-1964)

 

 

A menina quer brincar com a estátua da fonte,

que é uma criança nua, em cuja cabeça os passarinhos

pousam, depois do banho,

antes de voarem para longe.

 

A menina, com muita precaução,

toca o braço da estátua,

e fala com ela essas coisas com outro sentido

que as crianças dizem umas às outras,

ou aos objetos com que conversam,

ou a si mesmas, quando estão sozinhas.

 

A menina insiste com a estátua,

convida-a a descer do plinto,

passa o dedo pelos seus pés de bronze,

examinando-os e persuadindo-a.

 

E diante de tal silêncio,

fica séria e preocupada,

mira a estátua de perto,

como a um pequeno deus misterioso,

caminha de costas, mirando-a,

e fica de longe a mirá-la,

por um momento prolongado e respeitoso.

 

 

domingo, 14 de agosto de 2022

A fome e o amor

 

Augusto dos Anjos (1884-1914)

A um Monstro

 

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,

Receando outras mandíbulas a esbanjem,

Os dentes antropófagos que rangem,

Antes da refeição sanguinolenta!

 

Amor! E a satiríases sedenta,

Rugindo, enquanto as almas se confrangem,

Todas as danações sexuais que abrangem

A apolínica besta famulenta!

 

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,

No desembestamento que os arrasta,

Superexcitadíssimos, os dois

 

Representam, no ardor dos seus assomos,

A alegoria do que outrora fomos

E a imagem bronca do que inda hoje sois!

 


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Lésbia

 

Cruz e Sousa (1861-1898)

 

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,

planta mortal, carnívora, sangrenta,

da tua carne báquica rebenta

a vermelha explosão de um sangue vivo.

 

Nesse lábio mordente e convulsivo,

ri, ri, risadas de expressão violenta

o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,

a morte, o espasmo gélido, aflitivo...

 

Lésbia nervosa, fascinante e doente,

cruel e demoníaca serpente

das flamejantes atrações do gozo.

 

Dos teus seios acídulos, amargos,

fluem capros aromas e os letargos,

os ópios de um luar tuberculoso...



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