Maria Teresa Horta
Este fogo em mim
água revolta
Este incêndio do corpo
desatado
Este fermento do beijo
que escorrega
Esta loucura ardendo
em todo o lado
Poesia Erótica – Poesia Pornográfica
Maria Teresa Horta
Este fogo em mim
água revolta
Este incêndio do corpo
desatado
Este fermento do beijo
que escorrega
Esta loucura ardendo
em todo o lado
Alberto de Oliveira (1857-1937)
Quero-te aqui, minha somente! os braços
Meus, e o colo, e cabeça, e a boca, e o rosto!
Tu matarás todo o infernal desgosto,
Toda a amargura que me segue os passos.
Seja dia ao nascer, seja sol-posto,
Ou chova ou torrem cálidos mormaços
Tu me serás repouso aos membros lassos,
Minha somente, meu marmóreo encosto...
Em ti, como num céu que é meu agora,
As asas canse o espírito suspenso,
Sacie-se o ideal que me devora.
Vamos: dos seios mostra-me o tesouro,
Solta o cabelo, e que eu sonhe e morra, o incenso,
Bêbado, haurindo dessa nuvem de ouro.
Roberto
Piva (1937-2010)
Eu vi os
anjos de Sodoma escalando
um monte
até o céu
E suas
asas destruídas pelo fogo
abanavam
o ar da tarde
Eu vi os
anjos de Sodoma semeando
prodígios
para a criação não
perder o
ritmo de harpas
Eu vi os
anjos de Sodoma lambendo
as
feridas dos que morreram sem
alarde,
dos suplicantes, dos suicidas
e dos
jovens mortos
Eu vi os
anjos de Sodoma crescendo
com o
fogo e de suas bocas saltavam
medusas
cegas
Eu vi os
anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos
aniquilando os mercadores,
roubando
o sono das virgens,
criando
palavras turbulentas
Eu vi os
anjos de Sodoma inventando
a loucura
e o arrependimento de Deus
Fontoura Xavier (1856-1922)
A Artur Azevedo
Ela tem a beleza, a flácida estrutura,
Os contornos viris, geométricos, altivos,
A branca carnação dos bons modelos vivos
Do mágico buril dos Fídias da escultura.
Ressumbra-lhe a epiderme — alvíssima textura —
Os filtros sensuais, os tóxicos lascivos,
Que aos mártires da Fé, aos crentes primitivos,
Serviram de adoçar o cálix da amargura.
Ao vê-la, não cobiço os ócios dum nababo,
Nem penso num cavalo elástico do Cabo
Para furtá-la às mãos de um Jônatas patife.
Ouço um coro ideal e harmônico de beijos!
E sinto fervilhar-me o pego dos desejos
De um Tântalo faminto em face de um roast-beef!
Virgílio (70-19 a.C)
Córidon, o pastor, ardia pelo belo Aléxis,
delícias de seu dono, mas não tinha o que esperar.
Apenas frequentava as faias densas, de sombrias
copas, junto das quais lançava aos montes e florestas,
com vã paixão, sozinho, estes lamentos mal cuidados:
“Não prestas atenção, cruel Aléxis, nos meus cantos?
Não tens pena de nós? Assim acabarei morrendo.
Agora até os rebanhos buscam o frescor e as sombras;
agora escondem-se nas sarças os lagartos verdes,
e, para os ceifadores que o calor esfalfa, Téstilis
ervas de cheiro antigo esmaga com serpilho e alho.
Contudo, enquanto os rastros eu te sigo ao sol ardente,
soam comigo os arvoredos, roucos de cigarras.
Não seria melhor sofrer as iras aflitivas
e os soberbos desprezos de Amarílis? Ou Menalcas,
moreno embora seja ele, quando tu és alvo?
Não te fies demais nas cores, ó menino belo:
caem as brancas alfenas, colhem-se os murtinhos negros.
Tu me desprezas, nem indagas quem sou eu, Aléxis,
quantos rebanhos tenho, quanto leite cor de neve;
erram nos montes da Sicília as minhas mil cordeiras;
não me falta no estio leite fresco, nem no inverno;
eu canto o que cantava habitualmente Anfião de Dirce
no atiço Aracinto, se chamava os seus rebanhos.
E não sou feio assim: vi-me na praia há pouco tempo,
com o mar tranquilo sob o vento: não receio Dáfnis,
sendo tu mesmo o juiz, se não enganam as imagens.
“Oh!, se quisesses tão-somente repartir comigo
uma choupana humilde em pobre campo, flechar veados,
levar cabritos, em rebanho, ao verde malvaísco!
Junto comigo, imitarás cantando Pã nas selvas.
Pã ensinou-nos a ligar com cera várias canas,
Pã cuida dos rebanhos e dos guias dos rebanhos.
Não te aborreças de esfregar os lábios nessa frauta;
para outro tanto conhecer, que não fazia Amintas?
De sete tubos desiguais, pertence-me uma frauta
que Dametas me deu, em dias idos, de presente,
dizendo-me ao morrer: “Agora és o segundo a tê-la.”
Dametas disse, e Amintas, o insensato, teve inveja.
Dois cabritos também, que achei em vale não seguro,
ainda têm na pele manchas brancas, e por dia
secam dois ubres de uma ovelha, guardo-os para ti.
Algum tempo já faz que Téstilis os quer levar,
e os levará, que te repugnam os presentes nossos.
“Vem para cá, belo menino; as Ninfas para ti
trazem cestas de lírios; para ti a branca Náiade
colhe violetas pálidas, também papoulas altas,
e narcisos lhes junta, e a perfumada flor do aneto;
então tecendo-os com a lauréola e outras ervas suaves,
orna os murtinhos tenros com os tegetes amarelos.
E frutos brancos, de lanugem branda, eu colherei,
e essas castanhas que a Amarílis minha tanto amava;
ameixas cor de cera juntarei, assim honrando-as;
e colher-te-ei, ó louro, e próximo de ti porei
o mirto: juntos, misturais vossos odores suaves.
“Córidon, és um tonto! Aléxis foge a teus presentes,
e, se lutares com presentes, poderás com Iolas?
Ah, mísero, que fiz? Lancei perdido o Austro nas flores,
e javalis eu atirei nas fontes transparentes.
De quem foges, demente? Os deuses habitaram selvas,
e Páris, o dardânio. More Palas nos baluartes
que ela fundou; antes que tudo agradem-nos as selvas.
De olhar feroz, a leoa busca o lobo; o lobo, a cabra;
a cabra amiga de brincar busca o florido cítiso;
Córidon a ti, Aléxis: cada qual com o seu prazer.
Vê: o arado suspenso ao jugo puxam-no os novilhos,
e o sol a decair duplica as sombras que se alongam.
Contudo ardo de amor; que meio-termo tem o amor?
“Córidon, Córidon, ah que demência te tomou?
Semipodada tens a vide no frondoso olmeiro;
por que antes não preparas algo que faz falta ao uso,
entretecendo o vime e, a par, o junco tão flexível?
Se Aléxis te desdenha, encontrarás um outro Aléxis.”
(Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos)
Urhacy Faustino
Diabruras
faço na cama
quando dizes
que me amas;
ao mesmo tempo relutas
e me arranhas,
se digo que és minha puta –
tenho culpa
se teu cheiro me assanha?
Astrid
Cabral
Não te quero
assim a meu
lado
e sim em
mim.
De tal forma
interpenetrados
que eu deixe
de ser eu
e tu de
seres tu.
Sejamos pois
um nós
singular e
não plural
trançados
sem dó
num só nó.
Sergio Luiz Pereira (1966-2015)
Cabocla da bunda baixa
De coxa grossa e roliça
Do teu corpo feito a mata
Vai desprendendo um almíscar.
Morena que teu bailado
Que só me exulta e escraviza
Vou passear a teu lado
Sentir teu peito na língua.
Beijar tua boca de fruto
E nesse beijo esquecer
Que muito não me preocupo
Senão que todo prazer.
E nada mais acrescento
Se me dás tudo a contento.
Artur Azevedo (1855-1908)
Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;
quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;
os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranquilos,
olham meu doce amor, de tal maneira,
que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.
Mano Melo
(Pra se espalhar nos mictórios de
butiquins e outros afins)
Era uma vez um jacaré careta que se chamava jacareta
E que gostava muito de inventar umas histórias de buceta
Até que um dia teve uma crise de atos falhos
E ao invés de histórias de buceta
Passou a inventar umas histórias de caralho
Vivia uma vidinha dessas que não lusca nem ofusca
Dividido entre a sua dificuldade de carinho
E o amor que dedicava ao seu fusca
Na traseira do carrinho pendurou um plástico: fofinho
E assim de ato falho em ato falho
Trocando alhos por bugalhos e bucetas por caralhos
Jacareta – o jacaré careta
Trocou seu nome para jacaralho – o jacaré caralho
Bruna Lombardi
amor,
socorre
me
arranca a roupa, me salva
mexe
comigo, me bole
me
lava
me
tira essas coisas todas da cabeça
me
tira a saia
você
vai ver que eu sou palhaça à beça
que
eu gosto de arruaça e de gandaia
amor
me acode
deixa
eu dançar
nas
feiras, nas rodas
desenfrear
de todo esse prazer que explode
das
liberdades, meu amor, eu quero todas.
Eduardo Kac
vejo que uma grande pika incandescente
se ergue em direção à boceta da terra
é o princípio de uma nova era
nela se entenderão as coisas boas da vida
em todos os sentidos
a palavra sacanagem perderá seu sentido
sórdido
sacanagem será sacanagem
vida será vida mesmo
e a poesia se fará necessária
como nunca o foi em toda a história
Soror Maria do Céu (1658-1753)
É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, senão foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.
Carvalho Junior (1855-1879)
Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.
Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote a jeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te e, convulso, ao seio meu t’estreito:
E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,
– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!
Gonçalves Crespo (1846-1883)
Quando canta a Maldonado
E os quadris saracoteia,
Não é mulher, é sereia,
Não é mulher, é o pecado.
Ao vê-la, pois, enleado
Perco o siso, o verbo, a ideia,
E um desejo audaz se enleia
Neste peito meu bronzeado.
Chamei-te sereia! engano!
Nunca tolice maior
Borbotou do lábio humano.
Que toda a sereia, flor,
Finda em peixe... e ou eu me engano,
Ou tu acabas... melhor.
Cecília Meireles (1901-1964)
A menina quer brincar com a estátua da fonte,
que é uma criança nua, em cuja cabeça os passarinhos
pousam, depois do banho,
antes de voarem para longe.
A menina, com muita precaução,
toca o braço da estátua,
e fala com ela essas coisas com outro sentido
que as crianças dizem umas às outras,
ou aos objetos com que conversam,
ou a si mesmas, quando estão sozinhas.
A menina insiste com a estátua,
convida-a a descer do plinto,
passa o dedo pelos seus pés de bronze,
examinando-os e persuadindo-a.
E diante de tal silêncio,
fica séria e preocupada,
mira a estátua de perto,
como a um pequeno deus misterioso,
caminha de costas, mirando-a,
e fica de longe a mirá-la,
por um momento prolongado e respeitoso.
Augusto
dos Anjos (1884-1914)
A um Monstro
Fome! E, na
ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando
outras mandíbulas a esbanjem,
Os dentes
antropófagos que rangem,
Antes da
refeição sanguinolenta!
Amor! E a
satiríases sedenta,
Rugindo,
enquanto as almas se confrangem,
Todas as
danações sexuais que abrangem
A apolínica
besta famulenta!
Ambos assim,
tragando a ambiência vasta,
No
desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos,
os dois
Representam,
no ardor dos seus assomos,
A alegoria do
que outrora fomos
E a imagem
bronca do que inda hoje sois!
Cruz e Sousa (1861-1898)
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
planta mortal, carnívora, sangrenta,
da tua carne báquica rebenta
a vermelha explosão de um sangue vivo.
Nesse lábio mordente e convulsivo,
ri, ri, risadas de expressão violenta
o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
a morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
cruel e demoníaca serpente
das flamejantes atrações do gozo.
Dos teus seios acídulos, amargos,
fluem capros aromas e os letargos,
os ópios de um luar tuberculoso...