Astrid
Cabral
Não te quero
assim a meu
lado
e sim em
mim.
De tal forma
interpenetrados
que eu deixe
de ser eu
e tu de
seres tu.
Sejamos pois
um nós
singular e
não plural
trançados
sem dó
num só nó.
Poesia Erótica – Poesia Pornográfica
Astrid
Cabral
Não te quero
assim a meu
lado
e sim em
mim.
De tal forma
interpenetrados
que eu deixe
de ser eu
e tu de
seres tu.
Sejamos pois
um nós
singular e
não plural
trançados
sem dó
num só nó.
Sergio Luiz Pereira (1966-2015)
Cabocla da bunda baixa
De coxa grossa e roliça
Do teu corpo feito a mata
Vai desprendendo um almíscar.
Morena que teu bailado
Que só me exulta e escraviza
Vou passear a teu lado
Sentir teu peito na língua.
Beijar tua boca de fruto
E nesse beijo esquecer
Que muito não me preocupo
Senão que todo prazer.
E nada mais acrescento
Se me dás tudo a contento.
Artur Azevedo (1855-1908)
Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;
quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;
os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranquilos,
olham meu doce amor, de tal maneira,
que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.
Mano Melo
(Pra se espalhar nos mictórios de
butiquins e outros afins)
Era uma vez um jacaré careta que se chamava jacareta
E que gostava muito de inventar umas histórias de buceta
Até que um dia teve uma crise de atos falhos
E ao invés de histórias de buceta
Passou a inventar umas histórias de caralho
Vivia uma vidinha dessas que não lusca nem ofusca
Dividido entre a sua dificuldade de carinho
E o amor que dedicava ao seu fusca
Na traseira do carrinho pendurou um plástico: fofinho
E assim de ato falho em ato falho
Trocando alhos por bugalhos e bucetas por caralhos
Jacareta – o jacaré careta
Trocou seu nome para jacaralho – o jacaré caralho
Bruna Lombardi
amor,
socorre
me
arranca a roupa, me salva
mexe
comigo, me bole
me
lava
me
tira essas coisas todas da cabeça
me
tira a saia
você
vai ver que eu sou palhaça à beça
que
eu gosto de arruaça e de gandaia
amor
me acode
deixa
eu dançar
nas
feiras, nas rodas
desenfrear
de todo esse prazer que explode
das
liberdades, meu amor, eu quero todas.
Eduardo Kac
vejo que uma grande pika incandescente
se ergue em direção à boceta da terra
é o princípio de uma nova era
nela se entenderão as coisas boas da vida
em todos os sentidos
a palavra sacanagem perderá seu sentido
sórdido
sacanagem será sacanagem
vida será vida mesmo
e a poesia se fará necessária
como nunca o foi em toda a história
Soror Maria do Céu (1658-1753)
É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, senão foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.
Carvalho Junior (1855-1879)
Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.
Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote a jeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te e, convulso, ao seio meu t’estreito:
E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,
– Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos!
Gonçalves Crespo (1846-1883)
Quando canta a Maldonado
E os quadris saracoteia,
Não é mulher, é sereia,
Não é mulher, é o pecado.
Ao vê-la, pois, enleado
Perco o siso, o verbo, a ideia,
E um desejo audaz se enleia
Neste peito meu bronzeado.
Chamei-te sereia! engano!
Nunca tolice maior
Borbotou do lábio humano.
Que toda a sereia, flor,
Finda em peixe... e ou eu me engano,
Ou tu acabas... melhor.
Cecília Meireles (1901-1964)
A menina quer brincar com a estátua da fonte,
que é uma criança nua, em cuja cabeça os passarinhos
pousam, depois do banho,
antes de voarem para longe.
A menina, com muita precaução,
toca o braço da estátua,
e fala com ela essas coisas com outro sentido
que as crianças dizem umas às outras,
ou aos objetos com que conversam,
ou a si mesmas, quando estão sozinhas.
A menina insiste com a estátua,
convida-a a descer do plinto,
passa o dedo pelos seus pés de bronze,
examinando-os e persuadindo-a.
E diante de tal silêncio,
fica séria e preocupada,
mira a estátua de perto,
como a um pequeno deus misterioso,
caminha de costas, mirando-a,
e fica de longe a mirá-la,
por um momento prolongado e respeitoso.
Augusto
dos Anjos (1884-1914)
A um Monstro
Fome! E, na
ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando
outras mandíbulas a esbanjem,
Os dentes
antropófagos que rangem,
Antes da
refeição sanguinolenta!
Amor! E a
satiríases sedenta,
Rugindo,
enquanto as almas se confrangem,
Todas as
danações sexuais que abrangem
A apolínica
besta famulenta!
Ambos assim,
tragando a ambiência vasta,
No
desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos,
os dois
Representam,
no ardor dos seus assomos,
A alegoria do
que outrora fomos
E a imagem
bronca do que inda hoje sois!
Cruz e Sousa (1861-1898)
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
planta mortal, carnívora, sangrenta,
da tua carne báquica rebenta
a vermelha explosão de um sangue vivo.
Nesse lábio mordente e convulsivo,
ri, ri, risadas de expressão violenta
o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
a morte, o espasmo gélido, aflitivo...
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
cruel e demoníaca serpente
das flamejantes atrações do gozo.
Dos teus seios acídulos, amargos,
fluem capros aromas e os letargos,
os ópios de um luar tuberculoso...
Catulo (87-54 a.C)*
É como um deus, é mais que um deus
(Sem blafêmia) aquele que pode
Sentar-se à sua frente,
Ouvi-la e contemplá-la,
A sorrir docemente.
Só eu, pobre, não posso: esvaem-se
Os sentidos, assim que a vejo,
Lésbia: no mesmo ato,
Sinto um nó na garganta,
Paralisa-se a língua.
Uma chama febril rastilha
Nos membros; de dentro do ouvido,
Um zumbido ressoa
Na orelha e uma noite
Gêmea vela os meus olhos.
O ócio lhe faz mal, Catulo;
O ócio exacerba os sentidos,
O ócio já perdeu
Reis e levou cidades
Felizes à ruína.
(Trad. Décio Pignatari)
(*) Adaptação de um poema de
Safo (séc VII- séc VI a.C.).
Murilo
Mendes (1901-1975)
Clotilde,
moça morena e sacudida,
Fica
a tarde inteira na janela
Olhando
a reta interminável da rua.
Todas
as irmãs dela se casaram.
Clotilde
fica esperando,
Esperando
não sei quem.
Quando
alguma moça se casa no bairro
Clotilde
vai à igreja espiar,
Volta
com os olhos maiores.
Nesse
dia
Ela
não fala com ninguém.
Quando
nasce um sobrinho de Clotilde
Ela
estremece da cabeça aos pés.
A
noite chega
Remexendo
os quadris.
Os
casais passam na rua
Engolindo
sombras, tontos de calor e de amor.
O
cheiro das magnólias
Abafa
debaixo do cheiro dos sovacos.
A
curva do mar balança.
Uns
sons de maxixe violento
Vêm
do clube “Jasmin do Amor”.
A
moça morena cisma na cama.
De
repente
Um
golpe de vento brusco
Entra
com força no quarto,
Suspende
árvores lá fora, quebra a vidraça.
Um
ruído vem rodando vem rodando.
E
uma visagem
Sem
cheiro nem cor nem peso
Planta-se
em frente de Clotilde.
As
meias caem das pernas da moça,
A
combinação de rendas cai do seu corpo.
A
visagem fala.
“Mulher
eu vim te buscar
Para
as núpcias do fogo.
Haverias
de ficar
Toda
a vida na janela
Consumindo
tua beleza?
O
volume do teu seio
Pede
o ímã de outros dedos...
O
cheiro do teu cabelo
Não
é feito pro travesseiro.
A
noite do teu sovaco
Não
é feita pra amanhecer.
O
sangue de tuas veias
Noutro
corpo há de ferver.
O
teu hálito cheiroso
Outro
tem que o respirar.
A
luz grande de teus olhos
Vai
nascer em outros olhos.
Vou
te levar pro teu noivo
Que
há muito tempo te espera
Desde
antes tu nasceres.
Ele
é forte e bonitão,
A
mulher que olhou pra ele
Sente
logo um arrepio.
Há
muito tempo teu corpo
Pede
alguém que te complete,
Venha
do mar ou da terra,
Venha
do fogo ou do céu.
Isto
muito bem se lê
Na
reza do teu olhar.
Dize
adeus a Botafogo,
Ao
retrato da tua mãe
Que
eu vou te levar agora
Para
as núpcias do fogo.”
Houve
um silêncio maior
Do
que o existente no mundo
Antes
da invenção das radiolas.
E
nunca mais ninguém viu
Clotilde
nem a visagem.
João Cabral
de Melo Neto (1920-1999)
Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,
que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.
Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,
fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria
que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.