Amigos da Alcova

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Invocação ao amor

                                                                 Maria Teresa Horta

 

Pedir-te a sensação

a água

o travo

 

aquele odor antigo

de uma parede

branca

 

Pedir-te da vertigem

a certeza

que tens nos olhos quando

me desejas

 

Pedir-te

sobre a mão

a boca inchada

um rasto de saliva

na garganta

 

Pedir-te que me dispas

e me deites

de borco e os meus seios

na tua cara

 

Pedir-te que me olhes e me aceites

me percorras

me invadas

me pressintas

 

Pedir-te que me peças

que te queira

no separar das horas

sobre a língua

 

Meu ciúme

meu perfil

minha fome

 

meu sossego

minha paz

minha aventura

 

Meu sabor

minha avidez

saciedade

 

minha noite

minha angústia

meu costume

 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Identidade

                                                                Messody Benoliel (1933-2003)

 

Eu sou assim, coberta de incerteza

E paradoxalmente incontrolável

Creio, portanto, mais do que explicável,

ser sempre um mar em plena correnteza.

 

Sou o que sou devido a natureza

Que não me quer de forma controlável

Vivendo em ansiedade insustentável

Que me atiça com muita sutileza.

 

Sou contraste, sou várias numa só,

Sou fêmea calejada por amar

Sabendo dar um laço e dar um nó.

 

Sou outras, não sou nada certamente,

Necessário será me apaixonar

Para ser muitas, de repentemente.


sábado, 1 de janeiro de 2022

A Coreia é na esquina

  

Roberto Piva (1937-2010)

 

Assim não dá meu tesão

eu começo a sonhar com você todas as tardes

& você lá em Santos

comendo amendoim

vendo anjos nas cebolas do mercado

navios entram & saem do porto polidos

eu corto as veias & rego meu queijo Minas

você me ama eu sei & me envaideço

amoras jorram a beleza anarquista de suas

              coxas molhadas

o peixe-espada pode lhe declarar amor

eu penso nessas ilhas perfumadas

mas o caminho de volta eu só conto

a este urubu em carne viva

que grasna na sacada.

 

domingo, 12 de dezembro de 2021

A mulher livre é do meu gosto

 

                         Marcial (40-104)

 

A mulher livre é do meu gosto.

Mas, se não der,

A liberta é a minha mulher.

Mas, se não der,

Serve a escrava – e não lhe cedo o posto

A nenhuma beldade,

Se for belo o rosto

Como o da liberdade.


                       (Tradução: Décio Pignatari)


domingo, 28 de novembro de 2021

Os homens

 Cândida Alves


Os homens

são banais

em suas abstrações

sem nexo

 

Os anjos

são legais

mas não fazem

sexo


domingo, 31 de outubro de 2021

Idílio chique

 Paul Verlaine (1844-1896)

 

A garotinha

sem vacilar

toca punheta

no garotão.

 

O felizardo,

com o tratamento,

goza e cuspinha

pra todo lado.

 

Vendo esse leite

a menina ri

e, curiosa

do que ele seja,

 

cheira uma gota

bem da pontinha.

Pronto! Se anima!

Agora azar!

 

Lambe e relambe

a linda ponta,

depois zás-trás,

põe-se a mamar!

 

Viscondezinho

de não-sei-quê,

não conte a história

pra muita gente,

 

a fina flor

sentimental

de tuas férias

do ano 90:

 

pois tais tumultos

pelos castelos

os teus amigos,

mesmo os mais tolos,

 

bem que podiam,

caso quisessem,

contar-te às dúzias,

sem invenções;

 

e as priminhas,

anjos caídos,

dessas cozinhas

e desses sumos

 

Já são freguesas,

as coitadinhas,

desde que fazem

a comunhão:

 

isso, amiguinhos,

só pra ensaiar

os adultérios

que ainda virão.

 

(Trad. Heloisa Jahn)


domingo, 26 de setembro de 2021

A fruta

 

                                    Laurindo Rabelo ( 1826-1864) 


A minha Márcia tinha

Uma fruta muito bela,

Não no miolo, na casca

Era todo o gosto dela.

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Entre dois troncos bem grossos,

A frutinha se escondia,

Às vezes viam-se os troncos,

A fruta nunca se via.

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Por mais verde que ela esteja

Sempre tem certa doçura,

Mostra o verdor no tamanho,

Rachada quanto madura.

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Antes de tirar-lhe a casca

O meu bem tanto a zelava

Que se eu punha a mão nos troncos

Quase sempre se zangava!

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Duas rainhas mostrava

A natureza só nelas,

Era a rainha das frutas

Com a rainha das belas.

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Meu bem, da rival zelosa,

Para sugar-lhe a doçura,

Tinha com força apertado

A boca na rachadura.

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Prostrei-me a seus pés, tremendo

Em doce, amoroso abalo,

Exigindo ser pra sempre

Destas rainhas vassalo.

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Hesitou Márcia um momento,

Porém eu tanto roguei

Que ali mesmo no jardim

O meu despacho alcancei.

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Consentiu, pra que eu sentisse

Desse seu fruto a doçura,

Que eu pusesse a mão no pomo

E a boca na rachadura.

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 

Não, meu bem! dizia ela

Toda pia e resoluta;

Sem falar com o vigário,

Não me toque nesta fruta!

 

Ainda me lembra

Que gosto, que luta

Eu tive, tirando

A casca da fruta!

 


domingo, 12 de setembro de 2021

Exigência

                                               Leila Míccolis

 

Meu homem eu quero,

enquanto puder,

molhado e úmido

como mulher.

sábado, 28 de agosto de 2021

rondel do tucumã

                                                               Luiz Bacellar (1928-2012)

 

do teu minúsculo coquinho

relatam lendas milenárias

brotaram sono, amor, carinho,

a lua e as outras luminárias;

onças e pássaros noturnos,

quanto em teu bojo se escondia

dele fugiu com ares soturnos

enquanto o breu se derretia;

 

tu foste a caixa de Pandora

das tribos bárbaras de outrora

e a cor das asas da graúna

saiu de ti como um trovão

para que a filha da boiúna

pudesse amar na escuridão

 

domingo, 25 de julho de 2021

Taquicardia

 

Eliane Stoducto

 

Delírios de febre,

suor e arrepios,

me toma de assalto

uma taquicardia:

o pulso acelera

assim de repente,

me sinto doente...

 

Os olhos vidrados,

a boca silente.

Sutil calafrio,

qual sombra da morte,

percorre a espinha.

Na louca agonia

espasmos, tremores...

 

É a vida que parte?

São males? São dores?

Que nada...

São só ais de amores...


domingo, 27 de junho de 2021

Embora dos teus lábios afastada

 

Gilka Machado (1893-1980)

 

Embora dos teus lábios afastada

(que importa? – tua boca está vazia…)

beijo esses beijos com que fui beijada,

beijo teus lábios, numa nova orgia.

 

Inda conservo a carne deliciada

pela tua carícia que mordia,

que me enflorava a pele, pois, em cada

beijo dos teus uma saudade abria.

 

Teus beijos absorvi-os, esgotei-os:

Guardo-os nas mãos, nos lábios e nos seios,

numa volúpia imorredoura e louca.

 

Em teus momentos de lubricidade,

beijarás outros lábios, com saudade

dos beijos que roubei de tua boca.

 

domingo, 30 de maio de 2021

Poema das tuas mãos

                                                           Violeta Branca (1915-2000)

 

As tuas mãos nervosas, quentes, largas,

harpejam nos meus sentidos

a música ideal da emoção.

 

Para os teus dedos criadores,

sou o piano mágico vibrando

ao influxo de tua ardente inquietação.

 

Tuas mãos frementes,

arrancam angústias sonorizadas

de meus nervos,

que se retesam como cordas harmoniosas.

 

Tuas mãos imperiosas,

tuas mãos rebeldes,

cantam silenciosas aleluias de gestos,

quando compõem poemas de volúpia,

gritos incontidos de alegria pagã,

correndo ligeiras,

leves,

torturantes,

no teclado branco de meu corpo...


Voyeurs desde o Natal de 2009