Amigos da Alcova

domingo, 20 de setembro de 2020

Décima IV

António Lobo de Carvalho (1730-1787)

Improvisado na igreja da Madalena, assistindo com um seu amigo à pomposa festa que aí faziam as colarejas de Lisboa

 

Todos quantos aqui estão,

excepto somente nós,

são do vício mais atroz

a mais perversa união:

o que é homem é cabrão;

as mulheres, sem disputas,

têm três diversas condutas:

as velhas são feiticeiras,

as outras, alcoviteiras,

as raparigas são putas.



terça-feira, 7 de julho de 2020

Profissão de fé




Carvalho Junior (1855-1879)


Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões ópticas,
Raquíticos abortos de lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.



domingo, 17 de maio de 2020

Nome II



Olga Savary (21/5/1933 – 15/5/2020)


Diria que amor não posso
dar-te de nome, arredia
é o que chamas de posse
à obsessão que te mostra
ao vale das minhas coxas
e maior é o apetite
com que te morde as entranhas
este fruto que se abre
e ele sim é que te come,
que te come por inteiro
mesmo não sendo repasto
o fruto teu que degluto,
que de semente me serve
à poesia.



sábado, 9 de maio de 2020

Não passo por esta rua




Laurindo Rabelo (1826-1864)


Não passo por esta rua,
Que não veja esta perua,
Na porta com dois e três;
Que fodas não dá no mês
Aquele cono tão quente!
E chega a ser tão potente
A maldita da cachorra,
Que no cu sempre tem porra,
Na porta sempre tem gente!



sábado, 28 de março de 2020

Soneto 143 higiênico



Glauco Mattoso


Se o orifício anal é um olho cego,
que pisca e vai fazendo vista grossa
a tudo que entra e sai, que entala ou roça,
três vezes cego sou. Que cruz carrego!

Porém não pela mão me prende o prego,
mas pela língua suja, que hoje coça
o cu dos outros, feito um limpa-fossa,
e as pregas, como esponja escrota, esfrego.

O “beijo negro” é o último degrau
desta degradação em que mergulho,
maior humilhação eu chupar pau.

Sujeito-me com náusea, com engulho,
ao paladar fecal e ao cheiro mau,
e, junto com a merda, engulo o orgulho.



terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Fragmento de Don Juan



Lord Byron (1788-1824)


No começo, a mulher ama o amante;
Finda a paixão, passa a amar o amor,
Que se transforma em hábito constante,
Como luva folgada de se pôr.
No início, um homem só já é bastante
(Como se prova sempre com quem for);
Depois, do que ela gosta é do plural,
Que uma adição enorme não faz mal.

Trad.: Décio Pignatari

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Até que a morte nos separe



                                      Leila Miccolis


Esqueço meu desejo de vingança,
e a mágoa recalcada esqueço até,
se ponho a te afagar o membro flácido
com as pontas dos artelhos
do meu pé.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Dança de Centauras



Francisca Júlia (1871-1920)


Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga...
A dança hípica para e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece...

domingo, 5 de janeiro de 2020

Carnes



Alceu Wamosy (1895-1923)


Pulcras liriais, bizarramente claras,
Carnes divinas, virginais e puras,
Na ostentação de correções preclaras
E de preclaras pompas e brancuras...

Carnes que sois as sacrossantas aras,
De vagas e de ignotas formosuras...
Ó carnes esquisitas, carnes raras,
De esquisitas e raras contexturas!...

Carnes dadas, sem mancha, em holocausto
Ao amor, e do amor florindo ao fausto,
Virgens da tentação, salvas do vício!

Carnes extraordinárias e perfeitas,
Eleitas para um alto gozo — eleitas
Para o prazer e para o sacrifício!...

domingo, 22 de dezembro de 2019

Soneto 832 da luxúria


Glauco Mattoso


Pensei que insaciável era a puta
que fode por prazer, mais que por grana!
Que nada! Um velho ainda é mais sacana
e nunca satisfaz a rola hirsuta!

Na foda, pela língua ele permuta
a frágil ereção: o odor que emana
da velha sem pudor na suja xana
lhe dá mais apetite que uma truta!

Assanha-se o ancião quando a consorte
tem cócegas por dentro! Então chupita
o caldo que, escorrendo, fede forte!


Qual sopa, chá, nem suco! Ressuscita
aquele exausto membro, em grande porte,
o gosto da sardinha antes de frita!

domingo, 8 de dezembro de 2019

poeminha poemeto poemeu poesseu poessua da flor



Décio Pignatari (1927-2012)


a brisa
a luz
o calor

tateiam

bolinam a flor
quase vexada

e ela, voláteis,
perfumadas de cor-de-rosa
aos poucos
vai abrindo as pérnalas em vãos
num copo à janela

domingo, 24 de novembro de 2019

Um sorriso



Ferreira Gullar (1930-2016)


Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Centaura



José Paulo Paes (1926-1998)


A moça de bicicleta
parece estar correndo
sobre um chão de nuvens.

A mecânica ardilosa
dos pedais multiplica
suas pernas de bronze.

O guidão lhe reúne
num só gesto redondo
quatro braços.

O selim trava com ela
um íntimo diálogo
de côncavos e convexos.

Em revide aos dois seios
em riste, o vento desfaz
os cabelos da moça

numa esteira de barco
– um barco chamado
Desejo onde, passageiros

de impossível viagem,
vão todos os olhos
das ruas por que passa.



domingo, 29 de setembro de 2019

A pica ressuscita a mulher morta



Francisco Moniz Barreto (1804-1868)


A pica o instrumento é que no mundo
Mais milagres tem feito e mais proezas;
A pica o melhor traste é das belezas,
Mal que começa a lhes coçar o sundo.

A pica é o cão, que avança furibundo
A plebeias, fidalgas e princesas;
A pica em chamas Troia pôs acesas,
E a Dido fez descer do Urco ao fundo.

É a pica – carnal, possante espada,
Que o mundo, perfurante, emenda, entorta,
E tudo vence, como bem lhe agrada.

A pica, ora é calmante, ora conforta;
Sendo em dose alopática aplicada,
A pica ressuscita a mulher morta.



sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Metempsicose



Antero de Quental (1842-1893)


Ardentes filhas do prazer, dizei-me!
Vossos sonhos quais são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
do que fostes em vós se agita e freme?

Noutra vida e outra esfera, aonde geme
outro vento, e se acende um outro dia,
que corpo tínheis? Que matéria fria
vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes, nas florestas, bravas feras,
arrastando, leoas ou panteras,
de dentadas de amor um corpo exangue...

Mordei, pois, esta carne palpitante,
feras feitas de gaze flutuante...
Lobas! Leoas! Sim, bebei meu sangue!

domingo, 21 de julho de 2019

O labirinto das vulvas



Claudio Rodríguez Fer


Todo labirinto sai do meio das virilhas,
onde os centro se bifurcam em ípsilon
para a morada matriz, vagina e vulva.

Nunca muros nos óvulos do universo
e nunca túneis para vermes de luz:
o machado ritual de dois gumes
batendo nos lábios das vulvas vasilhas
com as suas asas de borboleta urgente
até que estalam rizomas de açafrão infinito.

Touros brancos ruminam tempo e espaço
de donas das bestas com felinos na testa:
a das serpes no colo e nos braços,
a das cobras apanhadas com as mãos,
a dos peitos da vida oferendada
pelo ubres das vacas do leite preto.

São as bestas vermelhas do lírio
queimando o fio do novelo dos fluxos
nas ondas telúricas da vagina da terra,
onde voam as golfinhas nuas,
onde nadam as perdizes despidas,
onde pasce estrelas o minotauro azul.

Útero labirinto das vulvas,
labareda de lábeis lábios
em limiares de limiares sem limites.
(Cnossos, Creta)

(Trad. Saturnino Valladares)



domingo, 30 de junho de 2019

Kama



                              Nei Leandro de Castro


a mulher oferta
sua antropofágica
flor aberta.
O homem aceita e recusa
aceita e recusa
aceita e recusa
aceita e recusa.
Não podendo mais,
toma-a de assalto
e morre em paz.

domingo, 26 de maio de 2019

Mim dobra!



Múcio Teixeira (1857-1928)


Eu vi-a dormindo, com as mãos entre as coxas,
as nádegas roxas, a crica a pingar...
E vinham-lhe ao ventre quebrar-se em desmaios
os pálidos raios de um morno luar.

Que noite!... Que foda! Que leite de pica
no fundo da crica lhe fui entornar!...
Que anseios! Que gostos! Por vê-la fodida,
de crista caída – fiquei a babar...

E a porra sumia-se... e eu tinha desejos
de encher-lhe de beijos o cono vermelho.
Porém a potência já vai me faltando,
e eu, triste, brochando, penteava o pentelho...

Quando ela pedia mais uma, gemendo,
cheguei-me tremendo, já quase a tocá-la;
propícia era a hora, pois amanhecia...
e eu sinto de dia mais gosto na gala...

Mas, antes da porra se erguer novamente,
senti de repente que o sol já fulgia:
a triste banhou-se, vestiu-se, zangada...
e a porra, qual nada! Mais murcha pendia...

E eu vi-a dormindo, com as mãos entre as coxas,
as nádegas roxas, a crica a pingar...
nem mesmo o de mijo tesão matutino
me enrija o pepino depois de acabar.



sábado, 11 de maio de 2019

Adormecida


Castro Alves (1847-1871)


Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço de horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos – beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava, ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P’ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!
Virgem! – tu és a flor de minha vida!...”



domingo, 7 de abril de 2019

Passeio no campo



Florbela Espanca (1894-1930)


Meu Amor! Meu Amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele doirada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...
– Vamos correr e rir por entre o trigo! –

Há rendas de gramíneas pelos montes...
Papoilas rubras nos trigais maduros...
Água azulada a cintilar nas fontes...

E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras!...

Voyeurs desde o Natal de 2009