Amigos da Alcova

domingo, 2 de setembro de 2018

Jogos frutais



João Cabral de Melo Neto (1920-1999)



De fruta é tua textura
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.

Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.

Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.

É de fruta do Nordeste
tua epiderme:
mesma carnação dourada.
solar e alegre.
Frutas crescidas
no Recife relavado
de suas brisas.

Das frutas do Recife.
de sua família,
tens a madeira tirante,
muito mais rica.
E o mesmo duro
motor animal que pulsa
igual que um pulso.

De fruta pernambucana
tens o animal,
frutas quase animais
e carne carnal.
Também aquelas
de mais certa medida,
melhor receita.

O teu encanto está
em tua medida,
de fruta pernambucana,
sempre concisa.
E teu segredo
em que por mais justo tens
corpo mais tenso.

Tens de uma fruta aquele
tamanho justo;
não de todas. de fruta
de Pernambuco.
Mangas, mangabas
do Recife, que sabe
mais desenhá-las.

És um fruto medido.
bem desenhado;
diverso em tudo da jaca,
do jenipapo.
Não és aquosa
nem fruta que se derrama
vaga e sem forma.

Estás desenhada a lápis
de ponta fina,
tal como a cana-de-açúcar
que é pura linha.
E emerge exata
da múltipla confusão
da própria palha.

És tão elegante quanto
um pé de cana,
despindo a perna nua
de dentre a palha.
E tens a perna
do mesmo metal sadio
da cana esbelta.

O mesmo metal da cana
tersa e brunida
possuis, e também do oiti,
que é pura fibra.
Porém profunda
tanta fibra desfaz-se
mucosa e úmida.

Da pitomba possuis
a qualidade
mucosa, quando secreta,
de tua carne.
Também do ingá,
de musgo fresco ao dente
e ao polegar.

Não és uma fruta fruta
só para o dente,
nem és uma fruta flor,
olor somente.
Fruta completa:
para todos os sentidos,
para cama e mesa.

És uma fruta múltipla,
mas simples, lógica;
nada tens de metafísica
ou metafórica.
Não és O Fruto
e nem para A Semente
te vejo muito.

Não te vejo em semente,
futura e grávida;
tampouco em vitamina,
em castas drágeas.
Em ti apenas
vejo o que se saboreia,
não o que alimenta.

Fruta que se saboreia,
não que alimenta:
assim descrevo melhor
a tua urgência.
Urgência aquela
de fruta que nos convida
a fundir-nos nela.

Tens a aparência fácil,
convidativa,
de fruta de muito açúcar
que dá formiga.
E tens o apelo
da sapota e do sapoti
que dão morcego.

De fruta é a atração
que tens, a mesma;
que tens de fruta, atração
reta e indefesa.
Sempre tão forte
na carne e espádua despida
da fruta jovem.

És fruta de carne jovem
e de alma alacre,
diversa do oiti-coró
porque picante.
E, tamarindo,
deixas em quem te conhece
dentes mais finos.

És fruta de carne ácida,
de carne e de alma;
diversa da do mamão,
triste, estagnada.
É do nervoso
cajá que tens o sabor
e o nervo-exposto.

És fruta de carne acesa,
sempre em agraz,
como araçás, guabirabas,
maracujás.
Também mangaba,
deixas em quem te conhece
visgo, borracha.

Não és fruta que o tempo
ou copo de água
lava de nossa boca
como se nada.
Jamais pitanga,
que lava a língua e a sede
de todo estanca.

Aumentas a sede como
fruta madura
que começa a corromper-se
no seu açúcar.
Ácida e verde:
contudo, a quem te conhece
só dás mais sede.

Ácida e verde, porém
já anuncias
o açúcar maduro que
terás um dia.
E vem teu charme
do leve sabor de podre
na jovem carne.

Ao gosto limpo do caju,
de praia e sol,
juntas o da manga mórbida,
sombra e langor.
Sabes a ambas
em teus contrastes de fruta
pernambucana.

Sem dúvida, és mesmo fruta
pernambucana:
a graviola, a mangaba
e certas mangas.
De tanto açúcar
que ainda verdes parecem
já estar corruptas.

És assim fruta verde
e nem tão verde,
e é assim que te vejo
de há muito e sempre.
E bem se entende
que uns te digam podre e outros
te digam verde.



domingo, 5 de agosto de 2018

Hércules e Ônfale



Apollinaire (1880-1918)


O cu
Onfálico
(Vão cu!)
Cai rápido.

– Vês tu
Quão fálico?
– Taful!
Priápico!

Que sonho
Medonho!...
Segura!...

E a fura
O hercúleo
Acúleo.

(Trad. José Paulo Paes)


sábado, 21 de julho de 2018

Seio farto



Beatriz Escorcio Chacon


Ah minha santa
quanto mais menopauso
a teta é cheia!
Não é caso de hormônio
fartura de avó
ou cirurgia
acho que é recomeço.

sábado, 16 de junho de 2018

A um moçoilo




 Junqueira Freire (1832-1855)


Eu que te amo tão deveras,
A quem tu, louro moçoilo,
Me fazes chiar e amolas,
Qual canivete em rebolo;
Eu que, qual anjo, te adoro,
Então, menino, eu sou tolo?

Quem te venera e te serve,
Te serve de coração;
Quem a nada mais atende,
Senão à sua paixão;
Quem sustém por ti a vida,
Tolo não pode ser, não.

Quem te olhando a áurea face,
Lá se queda enamorado,
Te olhando os olhos ferventes,
Permanece endeusado;
Esse que chame-lo tolo,
Esse sim, vai enganado.

Quem tanto por um só perde,
Que a ninguém quer antepô-lo,
Que vê-lo só quer num trono,
Num trono só de ouro pô-lo;
Esse que tolo xingá-lo,
Esse sim – esse é que é tolo.

Quem já em ver seu queixinho
Bipartido se mantém;
Quem embebido em seu todo
Horas, dias gasto tem;
Quem no cárcere do corpo
A alma por ele sustém;

Avanço axioma certo, –
Que esse não é tolo, não;
Que esse ama angelicamente
Fora da contagião;
Que esse que tolo xingá-lo,
Esse sim – é toleirão.

E tu que me xingaste tolo,
Meu moço, anjinho feliz!
Só porque amar-te deveras
Meu Deus, minha sina quis.
Só porque certo bem maus
Dous versos te dei que fiz.

Meu anjo me olha e despreza
Com mirar tão furibundo!
Já não hei mais esperança
De ter serafim jucundo,
Que aos céus me leve risonho
Quando me for deste mundo.

Mas se tolo é admirá-lo
A todo mundo interpô-lo,
Querer lá vê-lo num trono,
Num leito dourado e pô-lo,
Alfim beijá-lo e gozá-lo,
Então sim quero ser tolo!

sábado, 2 de junho de 2018

Meu desejo



Álvares de Azevedo (1831-1852)


Meu desejo? era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta;
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta...

Meu desejo? era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra...
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra...

Meu desejo? era ser o cortinado
Que não conta os mistérios de teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

Meu desejo? era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escumilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!

Meu desejo? era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro...

Meu desejo? era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de langor!

domingo, 13 de maio de 2018

Resposta da quinteira



António Maria Eusébio, O Calafate (1819-1911)


Mote

Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão.

Glosa

Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora,
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos;
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha;
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A Quinteira da Panasqueira



António Maria Eusébio, O Calafate (1819-1911)


Mote

Fui apalpar as gamboas
que a quinteira tem na quinta,
já tem marmelos maduros,
o seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
quero e gosto das mais pessoas:
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pelos altos
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
num regato ao pé de um poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.

domingo, 15 de abril de 2018

Lembrança de maio




Adélia Prado


Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
É tão bom existir!
Seivas, vergônteas, virgens,
tépidos músculos
que sob a roupa rebelam-se.
No topo do altar ornado
com flores de papel e cetim
aspiro, vertigem de altura e gozo,
a poeira nas rosas, o afrodisíaco
incensado ar de velas.
A santa sobre os abismos –
à voz do padre abrasada
eu nada objeto,
lírica e poderosa.


domingo, 4 de março de 2018

enquanto um dedo esmaga




E. M. de Melo Castro 


enquanto um dedo esmaga
uma curva ou um aro
outros dedos distendem
os tendões que entendem

no súbito na água
a luz vértice faro
os membros que se fendem
lábios que dizem, rendem

quem diz cu diz a cona
em masculino estilo
as procuradas fendas afluentes

que no homem se excluem
na fêmea se completam
delta logo de lagos mijo nilo

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Balada das filhas do Zeca Tinga


Miguel de Souza


Das filhas do Zeca Tinga,
a que mais, no fundo, adoro?                 AS FILHAS DO ZECA TINGA                                    
Não a Maria das Dores,
essa, por ser a mais bela,                                         
a flor de todas as flores
da prole do Zeca Tinga.
Com seus olhinhos pretos,
Com seu cabelo franjinha,
 Arredondada a boquinha,
No pescoço, um amuleto;
Sua pele cor de neve,                                      MARIA DAS DORES
Qual toda garota deve:
Educada como ninguém.
Por ser tão bonita assim,
Acho, não é pra mim,
Mas sim, de outro alguém.
A segunda filha, Ivete.
Sua graça não me agrada,
E, além disso, ela se mete
A ser das três a danada!
Aquela que mais namora                        A SEGUNDA FILHA, IVETE
De todas mais desejada,
Aquela de quem primeiro,
Arrancaram-lhe o cabaço...
Foi no mês de fevereiro,
Ou terá sido em março?
Bem, isso pouco me importa!
Quando o hímen se rompeu
Houve gesto de dor/gozo,
No pênis dum tal Pompeu,
Que era metido a Dom Juan!
Já havia deflorado,
A filha do Seu Conrado,
E Dulcina, sua irmã.
Isso sem contar, é claro,
Com as outras investidas,
Como a filha do Seu Amaro,                           POMPEU, DOM JUAN
Daquelas bem enxeridas,
Que transam só por transar.
Mas, o pior fato se deu
Com a filha do Antenor
Que, por causa de seu amor,
A mesma, um dia, enlouqueceu.
Não sei se por força da lua,
Sai por aí, às vezes nua,
À procura do Pompeu.
A terceira filha, Dora,
Não era tão bela assim,
Mas sabia se embonitar,
Era branca, rubra, loura,                        A TERCEIRA FILHA, DORA
E todos os homens a fim,
Que havia no lugar,
Inclusive Dom Juan.
Ah, como eu queria a Dora!
Afagar sua tez branca,
Só de olhar as suas ancas,
Dava vontade de... Enfim...
Tê-la todinha pra mim!                          DO MEU DESEJO POR DORA
Saciar-me em sua cona,
Ser seu verdadeiro dono,
Ela, minha única dona.
Mas não foi bem assim.
Dora era a bola da vez,
No taco de Dom Juan,
Já tinha comido as irmãs,
Agora era a número três,                 DAS INVESTIDAS DE DOM JUAN
Para a sua investida.
Aí, o afamado Pompeu,
Encontrou certo obstáculo,
Ele por ser tão másculo,
Não encontrou mesmo guarida,                     
No bom coração de Dora.
Que se resguardava intacta,                     DO MOTIVO DE DORA
Para o príncipe encantado,
Seu prometido, seu amado,
Seu verdadeiro e único amor.
Das filhas do Zeca Tinga,
A que mais no fundo gosto,
É mesmo da amada Dora,
Que meu coração não xinga,
Ao contrário, só elogia!
E por isto, não se vinga                        DO MEU DESEJO POR DORA (l)
Por ter me dito um “não!”
Ah, como queria ser
O seu encantado Príncipe,
E do seu amor partícipe,
Dono do seu coração!


Voyeurs desde o Natal de 2009