Amigos da Alcova

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Lábios que beijei 47


Zemaria Pinto
Rogélia


Casada com um colega do banco, com quem me dava muito bem, apesar do pudor de chamá-lo de amigo, Rogélia era de uma beleza difícil de descrever: a pele achocolatada, os cabelos castanhos muito claros, os olhos profundamente azuis – e um corpo esculpido com requintes de perfeição. Certa manhã, toca o telefone e ela pergunta pelo marido, que se sentava à minha frente, no lado oposto da sala. Ele estava lá, mas ela queria falar mesmo era comigo, queria encontrar-se comigo, longe da paisagem cotidiana. Marcamos para o final da tarde, no balneário do Parque 10, cujo bar funcionava a partir de quinta-feira. Ela estava com um véu sobre a cabeça e óculos escuros, mas era impossível disfarçar aquele corpo monumental, sem par em toda a cidade. No bar, pouco mais de 18 horas, apenas dois casais, muito provavelmente, clandestinos também. Rogélia soubera que o marido andava de caso com uma estudante do Pedro II – e queria vingança. Mas por que eu? – Porque ele não gosta de você; acha que ele, por inúmeras razões, deveria ocupar o seu lugar no banco; e por muito tempo ele me pintou você como um sedutor irresponsável, um moleque; agora, eu quero que você me seduza... Àquela mulher tão linda, era quase impossível dizer não. Tentei argumentar, mas ela me sufocou com um beijo, o hálito quente, um gosto de framboesa. Entramos no carro e ela foi logo desabotoando minha braguilha e, com muita destreza, chupando meu pau. Entrei em um ramal que eu já conhecia de outras investidas. Mas ela não queria só sexo. Queria humilhar o marido. Passou para o banco de trás do Comodoro e ficou de quatro, com a porta aberta, e eu pude penetrar a sua boceta: ela uivava como uma loba, um gozo cheio de melancolia. Depois, ela desceu do carro e, ainda de costas, ofereceu-me a bunda e eu penetrei-a com força. – Me fode, cachorrão! Me fode! Não sei quanto tempo ficamos ali. Depois que gozei a terceira vez e já perdera o interesse, ela continuava querendo mais. Uma tímida lua crescente iluminava o estreito caminho de barro. Rogélia, que tinha sangue nórdico e guarani, voltou para o sul. O marido desapareceu no abismo do seu encalço. A mim ficou-me apenas a lembrança de uma lua pálida e de uma loba triste.  

(Para ler outros contos desta série, veja Lábios que beijei)

terça-feira, 19 de maio de 2015

Se Pica-flor me chamais


Gregório de Matos (1633-1696)                                                         

                                                                A uma outra freira que, satirizando a delgada fisionomia do poeta, lhe chamou Pica-flor.

Se Pica-flor me chamais,
Pica-flor aceito ser,
mas resta agora saber,
se no nome que me dais,
meteis a flor, que guardais
no passarinho melhor!
Se me dais este favor,
sendo só de mim o Pica,
e o mais vosso, claro fica,
que fico então Pica-flor.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Mulheres com seios de polpa madura


António Leitão


Mulheres com seios
de polpa madura:
são carne, são leite,
primeira fartura?

Quem chupa morangos
mordendo mamilos
tem lebres nos olhos,
nos dedos esquilos.

(...)

Mulheres de carne,
mulheres de plástico,
mulheres de cera,
de gesso, de elástico,

mulheres vividas,
deitadas, de joelhos,
dançando, chorando,
comendo os espelhos

quebrados na pedra
da rua que é nua,
mulheres de pedra
doiradas de lua,

mulheres de sonho,
fronteiras-quimera,
mulheres-pureza

de haver primavera.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Allegro


Nei Leandro de Castro


Deixa crescer os pelos
do teu sovaco, amada.
Quero vê-los encachoeirados
recendendo a mar, a limonada
travo de coisa doce e amarga.
Quero vê-los saindo, com cheiro de sargaço,
dos dois esconderijos que trazes
no final dos braços.
Pensaste um dia nisso? Pensa.
Deixa que os pelos do teu sovaco
cresçam sem cortes, espontâneos,
alastrando-se numa mancha preta
como de resto crescem
os pelos de tua boceta.

quinta-feira, 5 de março de 2015

O “adeus” de Teresa


Castro Alves (1847–1871)



A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co'a fala...

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos... sec'los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
...Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei!... descansa!...”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Quem deu à Pomba feitiços?


Gregório de Matos (1633-1696)


Apaixonado por Catona (É parda de tal talento / que a mais branca, e a mais bela, / deseja trocar com ela / a cor pelo entendimento.), mas esta não lhe faz nenhum caso; o poeta a desanca com estes epílogos.


Quem deu à Pomba feitiços?.....................................................Mestiços
E quais são os seus objetos?......................................................Pretos
Quais deles lhe são mais gratos?...............................................Mulatos.

                                        É logo de cães e gatos
a Pemba por seu desdouro,
pois lhe vão somente ao couro
Mestiços, Pretos, Mulatos.

Que são da testa as carcomas?...................................................Gomas
Ela diz, que são vertiges............................................................Impiges
E lá dentro das alcobas?............................................................Boubas.

                                        Bem merece um par de sobas,
pois com quantos se pespega,
cada qual deles lhe pega
Gomas, Impiges e Boubas.

Ela é bandarra e airosa..............................................................Gulosa
Mas é linda sem disputa............................................................Puta
Nenhuma parte a abona?...........................................................Mijona.

                                        Dai vós ao demo a putona,
a quem o mesmo diabo
lhe chama por menoscabo
Gulosa, Puta, Mijona.

Quem a leva ao Quicauabo?......................................................o Diabo
Lá tem o amigo Vinagre............................................................Bagre
E quem lhe leva o balaio?..........................................................o Cambaio.

                                        Por isso vai como um raio
uma légua caminhando,
porque a vão acompanhando
Diabo, Bagre, Cambaio.

Quem lhe despeja o alforje?......................................................o Jorge
Outro há, com quem mais me aturdo.........................................Surdo
E outro mais de quando em quando...........................................o Quibando.

                                        Não vi putão mais nefando,
pois todos seus sarambeques
vai fazer com três moleques
o Jorge, o Surdo, o Quibando.

Que lhe dão tão fracas linhas?...................................................Sardinhas
Nenhuma coisa mais quis?.........................................................Siris
Por tão pouco tantas bulhas?......................................................Agulhas.

                                        Eu creio que isto são pulhas,
que negra de entendimento
não toma por pagamento
Sardinhas, Siris e Agulhas.

Ela tem Jorge escolhido.............................................................Por marido
E demais o quer com figo..........................................................Por amigo
Ele diz que há de ser forro.........................................................Por cachorro.

                                        Eu de ouvir isto me morro,
pois ela o negrinho quer
para o mesmo tempo ser
Marido, Amigo e Cachorro.


sábado, 31 de janeiro de 2015

O lavar depois importa


Gregório de Matos (1633-1696)

  
Vendo-se finalmente em uma ocasião tão perseguida esta dama do poeta (Babu), assentiu no prêmio de suas finezas; com condição porém, que se queria primeiro lavar; ao que ele respondeu com a sua costumada jocosidade.



1    O lavar depois importa,
      porque antes em água fria
      estarei eu noite e dia
      batendo-vos sempre à porta:
      depois que um homem aporta,
      faz bem força por entrar,
      e se hei de o postigo achar
      fechado com frialdade,
      antes quero a sujidade,
      porque enfim me hei de atochar.

2    Não serve o falar de fora,
      Babu, vós bem o sabeis,
      dai-me em modo, que atocheis,
      e esteja ele sujo embora:
      e se achais, minha Senhora,
      que estes são os meus senãos,
      não fiquem meus gostos vãos,
      nem vós por isso amuada,
      que ou lavada, ou não lavada
      cousa é, de que levo as mãos.

 3    Lavai-vos, minha Babu,
       cada vez que vós quiseres,
       já que aqui são as mulheres
       lavandeiras do seu cu:
       juro-vos por Belzebu,
       que me dava algum pesar
       vosso contínuo lavar,
       e agora estou nisso lhano,
       pois nunca se lava o pano,
       senão para se esfregar.

 4    A que se esfrega amiúdo
       se há de amiúdo lavar,
       porque lavar e esfregar
       quase a um tempo se faz tudo:
       se vós por modo sisudo
       o quereis sempre lavado,
       passe: e se tendes cuidado
       de lavar o vosso cujo
       por meu esfregão ser sujo,
       já me dou por agravado.

5    Lavar a carne é desgraça
      em toda a parte do Norte,
      porque diz que dessa sorte
      perde a carne o sal e graça:
      e se vós por esta traça
      lhe tirais ao passarete
      o sal, a graça e o cheirete,
      em pouco a dúvida topa,
      se me quereis dar a sopa,
      dai-ma com todo o sainete.

 6   Se reparais na limpeza,
      ides enganada em suma,
      porque em tirando-se a escuma,
      fica a carne uma pureza:
      fiai da minha destreza,
      que nesse apertado caso
      vos hei de escumar o vaso
      com tal acerto, e escolha,
      que há de recender a olha
      desde o Nascente ao Ocaso.

 7   As Damas, que mais lavadas
      costumam trazer as peças,
      e disso se prezam, essas
      são Damas mais deslavadas:
      porque vivendo aplicadas
      a lavar-se e mais lavar-se
      deviam desenganar-se,
      de que se não lavam bem,
      porque mal se lava, quem
      se lava para sujar-se.

8    Lavar para me sujar
      isso é sujar-me em verdade,
      lavar para a sujidade
      fora melhor não lavar:
      do que serve pois andar
      lavando antes que mo deis?
      Lavai-vos, quando o sujeis,
      e porque vos fique o ensaio,
      depois de foder lavai-o,
      mas antes não o laveis.


sábado, 17 de janeiro de 2015

As Graças mostram o cu



Laurindo Rebelo (1826-1864)

Mote

As Graças mostram o cu,
Minerva toma lição,
Apolo toca o Bitu
Nas cordas do rabecão.


GLOSA

Eu vi hoje uma pintura
Feita por hábil artista,
Que encanta e deleita a vista,
E a pica torna-se dura;
A deusa da formosura
O cono apresenta nu;
Vulcano come um caju,
Largando a bigorna e o malho;
Priapo mostra o caralho,
As Graças mostram o cu.

Tudo entre os deuses se move,
As deusas tomam na greta,
Cupido toca punheta
No bacamarte de Jove;
Das bicas do Olimpo chove
O leite com profusão;
Entre os que levam na mão,
Entre os que tomam na via,
A todos em putaria
Minerva toma lição.

Quando termina a festança
E já se acabam as fodas,
As deusas formam mil rodas,
Marca Jove a contradança;
O terno Cupido dança,
Batendo com as mãos no cu,
Mercúrio dança o lundu,
Priapo dança com Juno,
Marca o compasso Netuno,
Apolo toca o Bitu.

Termina a questão famosa
E, já fatigado Apolo,
Se foi recostar ao colo
Da bela Vênus mimosa;
Ela toda carinhosa
Lhe vae fazendo tesão,
E tanto buliu com a mão
Que, quando menos pensava,
Apolo já se esporrava
Nas cordas do rabecão.


sábado, 3 de janeiro de 2015

As Graças servem à mesa


Laurindo Rabelo (1826-1864)


Mote

As Graças servem à mesa,
Minerva toma lição,
Apollo toca o Bitu
Nas cordas do rabecão.


Glosa

Famosa e bela barraca
Lá no largo do Rossio
Foi, pelo nacional brio,
Feita com panos de maca;
Do candeeiro à luz fraca,
Quase sempre mal acesa,
Vê-se que, com gentileza,
Um pagode ali se arvora,
Onde, com o cu de fora,
As Graças servem à mesa.

Também por entre estas cenas
Da nação vê-se o Tesouro
Qual um menino de coro,
Vendo as partes obscenas
Daquelas machas pequenas
Que, em tão bela posição,
Té podem fazer tesão
À criancinha inocente,
A quem, qual mestra prudente,
Minerva toma lição.

Vendo esta cena tão grata,
Das Musas o velho pai
Aflito do Pindo sai,
Julgando encontrar mamata;
Mal chega, as calças desata,
Tira as vestes, põe-se nu,
Das Graças aperta o cu,
E, arreitado ficando,
Em um rabecão pegando,
Apolo toca o Bitu.

Minerva, coçando o sundo,
De ensinar deixa o menino,
E agarrar quer no pepino
Do louro Apolo jucundo;
E, volvendo o cu rotundo,
Com fremente arreitação,
Deixa a música de mão,
Tira o menino do colo,
E faz esporrar-se Apolo
Nas cordas do rabecão.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Lábios que beijei 36


Zemaria Pinto

Doroteia


Evangélica, a tímida Doroteia foi se achegando aos poucos, descobrindo – ou fazendo com que eu descobrisse – interesses comuns, como livros e discos, que trocávamos por empréstimo. Ficamos amigos, dentro do ambiente de trabalho, mantendo a distância necessária entre superior e subordinada. Em um serão, o que não era incomum, ficamos apenas os dois, finalizando um relatório a ser enviado à matriz, quando Doroteia começou um longo discurso, que, pelo tom, eu já adivinhava como acabaria. Enquanto ela desfiava suas dúvidas existenciais – a missionária, virgem, apaixonada pelo homem mais velho, casado, seu superior hierárquico –, comecei a tocá-la, a despi-la, e ela, toda úmida, não oferecia resistência. Nua, coloquei-a contra a mesa e penetrei-a com força, por trás. O gemido pungente aguçou a minha violência, até o esporro. O corpo moreno, carnudo, que a roupa recatada escondia era belo. Doroteia não ficou muito tempo no banco, mas durante dois anos nos encontramos regularmente. A doce Doroteia gostava de palmadas e mordidas na bunda e nas coxas. Enquanto eu a enrabava, ela pedia, sôfrega: – bate, meu amor, bate com força!... Bate, porra! Exigia que eu deixasse as marcas dos meus dentes nela e que nosso próximo encontro acontecesse antes que as marcas anteriores apagassem. A voz rouca de Doroteia ainda ecoa, entre a dor e a volúpia, na noite dentro de mim.
(Para ler outros contos desta série, clique em Lábios que beijei.)

domingo, 30 de novembro de 2014

Eu te saúdo, fenda de portentos


Pierre de Ronsard (1524-1585)


Eu te saúdo, fenda de portentos
A luzir entre dois flancos macios;
Saúdo-te, buraco de amavios,
Que dás ao meu viver contentamento.

Enfim me libertaste dos tormentos
Do alado arqueiro e dos meus desvarios;
Só quatro noites eu te possuí e o
Poder do arqueiro fez-se em mim mais lento.

Pequeno furo, furo arteiro, furo
Tão bem guardado em matagal obscuro,
Que ao mais rebelde domas com presteza:

Todo vero galã, para te honrar,
Devia de joelhos te adorar,
Firme empunhando a sua vela acesa!

(Trad. José Paulo Paes)


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Epigrama de amor


Nei Leandro de Castro



Minha amada tem os seios rijos.
O tempo ou mesmo Newton com suas leis
não conseguem derrubar
a rija beleza dos seios dela.
Eles são brancos, muito brancos
e tem pequenos bicos cor de rosa
que se eriçam sob os meus dedos
e a minha boca.
Eles são fortes.
Fortes como a convicção de minha amada
de que eu não devo jamais
penetrá-la por trás.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Lábios que beijei 31



Zemaria Pinto
Verônica

Vivendo com um sujeito desquitado, Verônica sofria com o preconceito de parte das demais colegas – casadas, noivas, namoradas. Isso, de certa forma, deixava-a à vontade para trair o companheiro. Mas ela dizia que quando viesse o divórcio e eles se casassem formalmente ela não o trairia mais. Enquanto isso, eu aproveitava a sua disponibilidade... Verônica possuía habilidades extraordinárias com a boca. Lábios, dentes, bochechas, língua – eram partes de um mecanismo projetado para chupar com perfeição. Sempre transávamos na minha sala, pelo menos uma vez por semana, durante cínicos serões. Não éramos muito imaginativos: depois de fazê-la gozar duas ou três vezes – de pé, ela, de costas, com as mãos apoiadas na mesa – começava o melhor da festa. Eu sentava em minha cadeira de executivo, ela lambia o meu pênis, lambuzado do seu sumo, mordiscava-o todo, incluindo os testículos, depois, movimentava sua boca com sofreguidão, tirando-o todo e escondendo-o todo, vezes sem fim. Quando ela sentia o jato do gozo, o movimento se tornava menos intenso e ela me sugava brutalmente, até a última gota. Quando parávamos, ela me mostrava a boca cheia de esperma, o engolia com volúpia e depois enfiava a língua em minha boca – um gosto travoso, de folha verde. Um dia, Verônica me contou, radiante, que iria com o companheiro passar as férias em Portugal, de onde a família dele era originária. Comemoravam 10 anos de convívio. Mas o presente não era a viagem: em Portugal, onde o divórcio era lei havia mais de 50 anos, eles casariam. Trabalhamos juntos ainda por muitos anos e fizemos muitos serões. Porém, nunca mais os lábios, nunca mais os dentes, nunca mais a língua, nunca mais a força sugadora de Verônica.

(Para ler outros contos desta série, clique em Lábios que beijei.)

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Sultana



Junqueira Freire (1832-1855)


Sultana! – por que teus olhos
pululam choro tão triste?
No voo de ave sinistra
algum mau agouro viste?
Ou dos lábios do teu mago
más profecias ouviste?

Que tens que choras, sultana,
co'as mãos no queixo – tão bela
Tanto palor nestas faces,
que foram cor de canela?
Desalinhada a madeixa,
sentada junto à janela?

Sultana! – por que dedilhas
os bilros nesse tear?
Os dedos correm e correm
à toa, sem acertar!
Os dedos erram os pontos
bem fora de seu lugar!

Sultana! – que dor tamanha
que te esmaga o coração?
Que te pode armar nas faces
tão estranha contração?
Que pode arrojar-te a mente
em tão vaga distração?

– Meu senhor hoje chamou-me:
quando mais me chamará?
Meu senhor hoje falou-me:
quando mais me falará?
Meu senhor hoje abraçou-me:
quando mais me abraçará?

Naquele colchão macio
eu junto dele dormi;
eu vi o céu do profeta,
o céu verdadeiro eu vi:
oh! que bela a noite de ontem!
- Não terei mais noite assi!

Beijou-me co'a sua boca
macia como cetim:
abraçou-me com seus braços
mais lindos do que o marfim:
reclinou minha cabeça
em cima de seu coxim.

Eu ficava toda fria,
se ele se achegava a mim:
minhas faces palejavam,
como cândido jasmim:
– e depois... ficava ardente,
vermelha – como um rubim.

Eu lhe ouvi a voz sonora,
como a voz de um querubim:
que doce roçar de beijos
macios como o cetim!
Que dedos tão delicados,
que se imprimiram em mim!

Julguei eterna a ventura,
– fui louca – pobre de mim!
Não luzem mais de uma noite
as lâmpadas do festim!
– Revelai-me, ó grão-profeta,
se terei mais noite assim!


Meu senhor tem mil mulheres
tão doces como o maná;
amante de coisas novas,
as novas chamando irá:
meu senhor – de mim, coitada,
de mim não se lembrará!

domingo, 7 de setembro de 2014

A bunda, que engraçada



Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito o que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,

redunda.

Voyeurs desde o Natal de 2009